estórias da flossi

que ela inventou por divertimento enquanto se encontrava particularmente excitada

Nota introdutória de crescimento contínuo



AVISO À NAVEGAÇÃO: ESTE BLOG É UM LIVRO. ESTE BLOG LÊ-SE DE CIMA PARA BAIXO, E NÃO O CONTRÁRIO, COMO É COSTUME. OS POSTS NOVOS ESTÃO LÁ EM BAIXO. AQUI À ENTRADA, APENAS EU, A VOSSA PORTEIRA E CICERONE.
QUE O PRAZER ESTEJA CONVOSCO.

Sugeriram-me que diminuísse o tamanho dos posts de texto, porque são longos demais para o tipo de atenção a que os leitores estão habituados a dispensar nestas circunstâncias de écran pequeno e tanto para ler.
Permitam-me então uma sugestão de resposta: leiam só até onde lhes apetecer. E depois regressem e leiam o que restar. Assim, fica ao vosso critério a divisão do texto em unidades "lógicas" para lá da minha própria, e ninguém sai defraudado da leitura. Ou imprimam o texto e leiam-no aos amigos, no café, em voz alta, enquanto tomam uma bebidinha reconfortante e acariciam as partes por baixo da mesa.
Que o prazer esteja convosco.

Por sugestão de um comentário surgido no último post do conto "A Protectora", e em resposta a todos aqueles a quem possam surgir dúvidas semelhantes, aproveito para informar os meus queridos leitores:
- Os textos que aqui me encontro a apresentar já foram previamente publicados em livro, mas a edição não chegou sequer a atingir os 1001 exemplares, e não vejo porque não hei-de usar a expressão digital para levar os meus escritos a mais apreciadores da ficção do sexo;
- Não, não sou plagiadora: sou eu, de facto, a autora destes textos, de tal forma que fui a primeira (e espero que não a última) a sentir tesão com eles, se é que tal "estado de espírito" vos chega a atingir pela leitura;
- E sim, outras (novas) histórias estão neste momento a ser aprontadas, para um blog novo, que deverá surgir na sequência deste.
Que o prazer esteja convosco.

BREVE NOTA DA AUTORA


Alguém que teve a talvez ingrata oportunidade de ler, ainda na sua forma manuscrita, os contos que em seguida aqui apresentarei, disse-me que lhe custava a acreditar que fosse eu a autora. Explicou que se notava claramente que era uma voz masculina, a que estava por trás de todas as minhas palavras, pois que era tratado com maior cuidado e riqueza de pormenores o prazer dos homens que o das mulheres. Como se eu conhecesse mais um que outro, o que implicaria uma só forma de tal acontecer: os elefantes são os animais que melhor conhecem os elefantes (e para bom entendedor, isto deve bastar). Pois, pensei eu, e já agora quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro. E...

Sem utilizar o argumento possível da minha generosidade (diria então:
interessa-me mais o prazer dos outros que o meu próprio, e por isso predisponho-me naturalmente para uma maior atenção ao meu interlocutor por excelência, os homens), resta-me em boa fé supor, antes de tudo isso, que a escrita, realmente, não tem sexo. Eu, por mim, escrevo como sei, invento como sei, sinto como sou. Procuro com grande discernimento encontrar a minha liberdade. Tento não prejudicar ninguém. Não me devem exigir mais que isso, nem tentar julgar-me. Como sabem, tais atitudes tiram a tusa a qualquer um, e a solução acaba por ser emigrar (e melhor ainda se o fizermos com estatuto de turista, que ainda não é profissão).

Outra: ainda na sequência desta coisa da liberdade a conquistar (a fazer, a usufruir, e por aí adiante), é preciso que releve mais uma questão. Já várias pessoas (em quem confio, não obstante) me têm perguntado porque não quero assinar os meus trabalhos com o meu nome verdadeiro; porque "não dou a cara", como se costuma dizer. Suponho, à laia de resposta, que dar a cara mais que através da escrita parece-me um bocado difícil. Será — interrogo-me eu por eles, ainda — porque faço escrita pornográfica? Mas o que é isso da pornografia, ó vós (poucos) que fodeis todos os dias? O que eu faço, na verdade, é literatura: sem género, sem rede, sem falsas modéstias ou orgulhos. Pelo menos tento. Para lá disso, ninguém tem de saber quem sou, o que faço dos meus dias, quem amo e quem odeio. Nem sequer o que penso acerca do que eu própria escrevo. Algo mais que me apeteça dizer, entretanto, escrevê-lo-ei. E tenho amigos, conhecidos, amores; gente que me escuta discretamente. É esta a lógica em questão, e não há outra possível.

Enfim, escrevo e por todo o lado aparece sexo, alguém dirá. É verdade. E sabem porquê? Simplesmente porque gosto de sexo. Acho o sexo uma coisa fantástica, de tal modo que o vejo em todo o lado, que em todo o lado ele está. Estranho acho antes que haja tanta confusão à volta de coisa tão simples, já que todos nós, de uma forma ou doutra, somos risíveis, e o riso nunca foi caso de tanta celeuma.

A maior parte das minhas amigas, a propósito disto e de nada, têm revistas pornográficas em casa. Ficam húmidas enquanto as folheiam, geralmente devagar. Enquanto usam os vibradores que compraram ou que alguém lhes ofereceu. Ou tão somente os dedos, que são artistas dos mais dignos e habilidosos. Por mim, acho natural: acontece-me o mesmo e nunca pensei em ir a um psiquiatra, ou a qualquer especialista de generalidades similar.

Talvez porque sei que, no fundo, o melhor do mundo são os beijos na boca.

O PROFESSOR

1
Com sessenta anos já feitos, viúvo, reformado prematuramente por incapacidade física (um problema pulmonar que, com o passar do tempo, surpresa das surpresas, em vez de se agravar se desvaneceu quase por completo), mas a auferir, em paralelo, de outros rendimentos, não visíveis na anual declaração de impostos, Kárlus — Karlinhus, o Professor, para os amigos, dada a sua forma de falar, algo autoritária, e sempre demonstrando conhecimento seguro do que afirmava, apoiado em citações, datas e outras preciosidades sempre úteis em qualquer diálogo ocioso — deu por si, certo dia, a não saber mais que fazer da sua vida, perdida, de algum modo, naquela pequena vila lá a Norte, como diriam os jornais, entalada entre dois montes, entalados também os homens e as mulheres que a habitavam.
Sozinho, então, na sua casa, um piso térreo com quatro modestas assoalhadas e uma imitação de quintal sem galinhas nas traseiras, foi ele construindo, depois da morte da mulher, um mundo só seu, onde nem os velhos amigos da Sociedade Recreativa e Cultural, com quem todas as tardes jogava às cartas e às damas, entravam. Era um mundo simples e objectivo, que girava com suave monotonia à volta de um planeta de referências muito concretas: uma sala com lareira, uma tv, dois leitores de vídeo, inúmeras cassetes e uma estante com livros, alguns raros, e todos, cassetes e livros, subordinados ao mesmo tema: sexo.
Fosse verão ou inverno, lareira acesa ou apagada, Kárlus, em certas noites (quase todas, para sermos mais rigorosos), despia-se até ficar completamente nu, sentava-se no chão maciamente atapetado da sua sala, punha a rodar no vídeo um filme porno e masturbava-se. A sua forma de o fazer era algo peculiar: começava por olhar para as imagens, imóvel, atento mas de forma desprendida; depois, ainda como quem não quer a coisa, começava a tocar-se no sexo, à velocidade de um caracol adormecido, respirando fundo e sempre com a mesma cadência tranquila, e acabava então a fazer com a mão aquilo que a maioria dos rapazes faz, antes de conhecerem mulher (e muitas vezes depois, que a fome é grande e a caça às vezes espanta-se). Fazia-o, no entanto, com outros requintes: o segundo leitor de vídeo servia-lhe para coleccionar, só para si, as imagens que achava mais excitantes, e que era as que usava nesses momentos íntimos e decisivos. E não se ejaculava para qualquer lugar. De facto, não sendo já tão potente como um jovem de vinte anos, apesar de, para a idade, manter um vigor invejável, uma bandeja de prata (tinha três ou quatro, uma delas que a sua falecida mulher comprara para oferecer — contra sua vontade — a um governante do antigo regime, aquando de uma visita deste à povoação, oferta estúpida que ele, diga-se a verdade, em abono da sua boa consciência democrática, conseguira evitar) servia-lhe sempre de receptáculo para aquele líquido branco e viscoso como clara de ovo que tanto prazer lhe dava libertar de si, em golfadas serenas de bebé sobre-alimentado. A respiração, que entretanto se tornara ofegante, ia baixando, até normalizar completamente, e ele acabava a mexer no esperma com o dedo indicador, muito devagar, o olhar como se absorto, as imagens ainda a passar no écran.
Depois erguia-se, lavava o recipiente sagrado com meticulosidades de dona de casa, desligava o vídeo e o televisor e ia-se deitar.
A maior aventura da sua vida — e, consequentemente, o fim de tanto tédio — começou certa manhã em que, ao passar pelo quiosque onde habitualmente comprava o jornal diário, também sempre o mesmo, viu uma nova publicação à venda. A capa tinha uma fotografia grande, a cores, em que uma mulher nua segurava nos seios e, lançando para diante um olhar sedutor de baixo preço, dizia, segundo a legenda: Come-me. O jornal apelidava-se, sob o nome, como “o jornal de todas as intimidades”.
Excitado, quase gaguejante, ouviu-se a perguntar:
— Ena, isto é novo, não? — E depois, em busca de cumplicidade masculina, que nós os homens, etc.: — Bela rapariga.
Mas o vendedor, porventura pouco instruído nessas subtilezas da camaradagem e quejandos, respondeu apenas, em tom sorumbático:
— Parece que sim.
— Acho que vou levar um — disse Kárlus. Não gostava de adquirir aquelas coisas ali, onde todos o conheciam. Amiúde ia a trinta quilómetros de distância, a outra povoação, para alugar as suas cassetes, e à capital, a duzentos quilómetros, para comprar livros e revistas. Todavia, naquele momento, não achou outra alternativa: a gasolina que ia gastar versus o preço de capa não compensava. Aliás, era apenas uma mera curiosidade, ou não?
Pagou, enfiou o jornal suspeito no meio do jornal insuspeito, e, pela primeira vez em alguns anos, não foi tomar o pequeno-almoço ao café habitual: regressou a casa. Quase a chegar lá — era a pouco mais de cinquenta metros, em linha recta, do ponto onde estava — , olhou de soslaio para trás. O homem do quiosque, com nenhum cliente novo por perto, estava a olhá-lo. Ou seria só impressão sua? Já se conheciam há um ror de anos, mais de vinte, mas o outro mostrava-se sempre tão reservado que era como se de facto não o conhecesse. Que estaria ele a pensar? Tomou nova decisão, rápida: deixou o jornal suspeito em casa e tornou a sair, a caminho do pequeno-almoço.
Ao passar pelo quiosque, disse, em tom jovial:
— Estou a ficar velho, agora até me esqueço de coisas em casa.
E, embora se sentisse patético, sorriu. O outro, fiel a si mesmo, não deu qualquer resposta.
Tomou o pequeno-almoço, portanto, mas com uma inquietação crescente a incomodá-lo. Já não era aquela questão quase ridícula da compra do jornal, mas o jornal em si, aquela mulher nua, aquela demonstração de disponibilidade absoluta, o convite absoluto e cru: “Come-me”. Haveria alguma mulher realmente assim, para lá das que eram prostitutas? E mesmo essas, eram realmente assim?
Estava a terminar a torrada quando se apercebeu de que o verdadeiro ridículo, por maior que fosse o prazer inerente, era aquele seu jogo diário em que a fantasia mandava mas só a mão fazia.
Quando se ergueu, para pagar, sentiu que alguma coisa se começava a modificar nele: uma ideia, um desejo nubloso, uma vontade a tomar forma. Retornou a casa, o passo largo, as mãos nos bolsos e a assobiar. O jornal habitual, debaixo do braço, nem o chegara a abrir. Havia outro, e ele pressentia que ia encontrar, lá dentro, algures, a solução para uma vida nova — pois a vida pode recomeçar em qualquer instante, em qualquer idade, para qualquer pessoa, assim ele ia a pensar.
Chegado a casa, foi com algum frenesim que se sentou a ler, a ver as imagens inertes nas páginas pouco brancas do jornal, umas a cores, outras a preto e branco. Mais mulheres nuas, fotografias de casais a fazer amor, duas mulheres e um homem na mesma cama, anúncios de cassetes de vídeo pornográficas, cartas dos leitores. Até que chegou a uma secção de anúncios e mensagens pessoais, dividida em três secções bem definidas: “Homens”, “Mulheres” e “Casais”. Leu cada um dos anúncios, com muita atenção. Homens propunham relações sérias com outros, um mero prazer sem compromisso. As mulheres idem. Mulheres pediam quaisquer homens que as possuíssem, desde que sérios, homens propunham-se possuir todas as mulheres, dos dezoito aos oitenta, desde que divertidas (sexo a rimar com anedota?). Casais pediam outros casais, e raparigas, e rapazes. Sexo puro ou sado-masoquista. Desesperado ou tarado. Muita higiene, sempre, que os tempos andavam doentes.
A excitação de Kárlus ganhou um brilho muito especial. Eram mais de cem propostas para sair do seu buraco misógino e alcançar verdadeiro prazer. Não, não havia ali nada que se parecesse com amor. Mas o amor, para que servia ele? Era uma mulher a fazer propostas e ofertas a governantes corruptos, o amor. A liberdade de nem sequer ter de pensar nisso parecia-lhe maior.
Apeteceu-lhe responder de imediato a alguns daqueles anunciantes, mas, de repente, teve a tal ideia única, inimitável, brilhante, e que o deixou com o coração aos pulos, quase como um adolescente em dia de primeira namorada. Pois (e essa era a ideia) porque não havia ele de pôr também um anúncio naquele jornal, e esperar que lhe respondessem? Viriam cartas de todo o país, muito provavelmente. “Um anúncio daqueles” pareceu-lhe força de expressão. De facto, queria fazer uma coisa que fosse diferente. Tinha visto tantos filmes, tantas ideias loucas, que lhe apetecia agora qualquer coisa de requintado, e não um mero sucedâneo do jogo masturbatório. Tantos filmes: mais uns poucos e ganharia o doutoramento, pela certa. “Professor de sexo”, pensou ele, atento à ironia decorrente de tal pretenciosismo. Professor de sexo. Aquilo começou a ecoar-lhe como refrão no pensamento obcecado. E porque não? Quem o poderia contestar? Poderia falar de todo esse magnífico mundo com o quase saber de quem alguma vez o tivesse efectivamente praticado, até lhe desvendar todos os segredos. Na curva descendente da vida, que tem um homem a perder? A sua dignidade? Estar vivo e a morrer é que era indigno. Sim, sentia-se preparado para tudo. Ou talvez não se sentisse, mas não o poderia saber sem experimentar. E experimentar, para um homem da sua idade, era como ter outra idade, como ter bebido da fonte da juventude e, desse modo quase mágico, mitológico, ser outro homem.
Recortou o rectângulo cheio de pequenos quadrados onde deveria escrever o seu anúncio e, depois de procurar a melhor forma de o enunciar — queria abarcar o maior número de “casos” possível — , em várias escritas, numa folha à parte, apontou finalmente: “Professor de sexo. Dou aulas deste tema a senhoras e casais de todas as idades. Ensino como o marido deve excitar a mulher e a mulher o marido. Vou ao domicílio. Sou homem bem apresentado, bem falante, educado, respeitador, verga longa e grossa. Respondo a quem enviar foto nua. Assunto sério”.
Releu o escrito, várias vezes, e achou-o bom: tudo aquilo era verdade, excepto o pressuposto básico, mas sabia que ninguém o poderia pôr em causa: os doutoramentos em tal área tinham sempre outro nome, e nenhum doutorado anda com o diploma na mala.
Durante todo esse dia, e depois de ter colocado a sua mensagem no correio, sentiu-se como já há anos não se sentia: não livre, nem perfeito, nem heróico, mas satisfeito. Realmente satisfeito.
Nessa tarde, no Clube, ninguém o conseguiu derrotar no jogo das damas. E à noite, animado de uma estranha excitação, tirou o som do vídeo, releu o jornal proibido e masturbou-se duas vezes.

2
Com a morosidade inerente a tudo o que pode dar um grande e verdadeiro prazer, a primeira resposta à sua proposta só surgiu um mês e meio depois, quando ele, depois de uma prolongada fase de espera (e quem espera desespera), já quase esquecera o assunto. No dia seguinte, mais duas. Depois, de repente, outras três. Mais uma semana e acabara por lhe perder a conta.
Tinha agora uma excelente colecção, extremamente realista, de homens e mulheres nus, sozinhos ou juntos, a exibirem-se, a simularem masturbações refinadas, a fazer amor. Poucos mostravam os rostos: antes procuravam realçar, segundo ideias eventualmente apreendidas em jornais como aquele (“come-me, come-me”), os aspectos mais favoráveis dos seus corpos. Em alguns casos, conseguiam-no por completo. Chegou, assim, o tempo da selecção. Para testar os seus dotes de pedagogo, decidiu-se por um casal, como primeira experiência. Este, despudorado ou ingénuo, mostrava-se tão claramente interessado que não hesitara em enviar, para além da fotografia requerida, a morada e o número de telefone, “para um mais rápido contacto”, conforme rezava a carta. Depois de consultar o mapa, descobriu que eles habitavam a pouco mais ou menos cem quilómetros de si, o que era uma distância perfeitamente razoável para um viajante pendular como ele era. Telefonou-lhes, e ficou combinado encontrarem-se no fim-de-semana seguinte.
No dia aprazado, portanto, sábado de manhã, pôs-se a caminho. Depois de hora e meia de viagem e algumas perguntas para achar a rua certa, deu por si, não sem alguma excitação, a tocar à campainha da casa de onde solicitavam os seus serviços de perito. Depois de tocar três vezes, e quando já estava a pensar que a sua viagem fora em vão, a porta abriu-se. Surgiu uma mulher, com um sorriso bonito no rosto limpo, olhos claros, e aparentemente com mais meia dúzia de anos que o anunciado.
Apresentou-se Kárlus, com grande rigor, e ela convidou-o a entrar.
— Entre, entre, esteja à vontade. Receávamos que não viesse. O meu marido está a tomar banho, mas vem já. Quer tomar alguma coisa?
— Um copo com água — disse ele. — A viagem fez-me sede.
— Mas espero que não lhe tenha tirado o apetite.
— Não, antes mo abriu.
— Óptimo, estou a preparar um almoço especial.
— Por minha causa? Não era preciso incomodar-se.
— Não lhe vou mentir: os meus almoços são sempre especiais.
— Isso deveria ser um sinal de felicidade.
— E é. Só que a felicidade, como deve saber bem, vive não só da segurança, mas também da novidade. E eu e o meu marido somos duas pessoas que muito apreciamos a vida.
— Não há nada de melhor — ainda respondeu Kárlus, mas já distraído a observar a sala onde se encontravam: móveis de estilo, alguns quadros na parede (a percentagem de genuínos supostamente a equilibrar-se com a de imitações), certos objectos específicos sobre os móveis, tudo isso e o modo de falar dela, denotavam não só uma relativa abundância de dinheiro, mas também algumas pretensões culturais, às quais Kárlus, apesar de autodidacta por sistema, também não era alheio.
Mas não teve tempo para mais pensar, pois o marido apareceu logo de seguida, atrás da mulher, esta com o solicitado copo com água na mão, e Kárlus deu por si a erguer-se, a trocar cumprimentos de circunstância, e de novo a sentar-se, pronto para cavaquear um pouco, enquanto o almoço não ficava pronto.
A conversa decorreu mais ou menos inócua, até que se viram num pequeno quintal cheio de sombras, nas traseiras da casa, a comer, o outro homem sempre a encher-lhe o copo, como criado em restaurante de primeira, pois que o vinho era muito bom, assim ele assegurou, enquanto a mão da mulher lhe procurava a perna (e um pouco mais, sim), demoradamente e várias vezes. De repente, ele percebeu: o “professor de sexo” não era para ali chamado, mesmo que assim o considerassem. O que eles queriam era ter alguém estranho ao casal em casa para fazerem amor, com ele a participar, ou só como espectador, logo se veria.
O vinho, esse, teve o condão não de lhe dar tal clarividência súbita, mas o de o predispor positivamente para tudo o que se poderia seguir à refeição.
De facto, após um óptimo brandy e mais meia hora de conversa flutuante, o homem do casal sugeriu que passassem ao interior da casa, onde poderiam ver algumas “coisas curiosas”. Estava a referir-se, concretamente, a umas fotografias e a alguns vídeos (“um ou dois”) do passado dos dois. Aquilo, sim, pareceu-lhe algo de pornográfico (do mais linear que se podia conceber), e isso excitou-o, embora tenha calculado que, quase de certeza, teria de ouvir, em paralelo, umas quantas histórias mais ou menos insossas acerca de filhos, familiares no estrangeiro, amigos, colegas de tropa e da universidade.
Mas, afinal, eles não tinham filhos. E davam-se pouco com familiares, e amigos certos não eram muitos, e ele não chegara a fazer a tropa, e nenhum deles frequentara a universidade. A excitação permaneceu intacta, enfim. As fotografias mostravam-nos então em festas, com pessoas que — assim eles disseram — só tinham conhecido em férias, dentro de igrejas com quinhentos anos de inquisições a dormir nas volutas góticas, a fazer brindes em esplanadas europeias, a devorar banquetes tropicais em casas de identidade indistinta (móveis de verga frente a balcões em mármore) e na praia (duas ou três diferentes). Das fotos de casa e da praia, havia algumas em que eles se mostravam nus, e Kárlus pôde então vê-los assim antes mesmo de eles se despirem, se é que o iam fazer. Mas iam, com certeza: ao mostrarem-lhe tais fotos, reparou nos seus olhares inesperadamente luminosos, travessos — atrevidos, sim, e intencionados, mas quase infantis, no brilho final de ingenuidade feliz.
Quando chegou a vez dos vídeos, gerou-se alguma discussão de circunstância. Primeiro, quiseram saber se não estavam a ser muito enfadonhos.
— Nem por sombras — garantiu Kárlus. — Admiro a vossa intimidade.
Eles pareceram ficar satisfeitos, mas, não obstante esse equilíbrio reencontrado, a escolha do primeiro vídeo foi algo problemática, dado que cada um deles queria pôr um vídeo diferente. Kárlus acabou a contenda, dizendo:
— Vejamos os dois, simplesmente.
Foi o que fizeram. E o primeiro filme era quase uma repetição das fotos: festas, jantares, passeios, poses brincalhonas, mamas ao léu a chapinhar na água do mar, risos, brindes.
— Nós temos uma vida simples — disse ela. — Até mesmo algo monótona. E, como todos os burgueses, tentamos aproveitar ao máximo as nossas férias.
— Não temos amigos íntimos — declarou ele, logo de seguida. — Temos os amigos que o tempo nos dá, limitados na amizade pelo que o tempo é, e as nossas intimidades com os outros passam todas por aí.
— Parece-me uma boa forma de estar na vida — afirmou Kárlus, convicto.
O exibicionismo deles não lhe era desagradável, pois dava-lhe possibilidade de não falar muito de si próprio.
E surgiu o segundo vídeo, que não era senão eles a fazerem amor. Notavam-se alguns cuidados com a filmagem (melhor dizendo, perante a câmara), o que denotava que talvez o tivessem utilizado já, em outras circunstâncias, como cartão de visita. Era também uma boa oportunidade de o porem à prova — ou para o espicaçarem, mas como sabê-lo? — , e eles não a perderam: de vez em quando, um dedo no botão de pause (e aí ficava, no écran, a imagem do caralho dele prestes a penetrá-la, ou todo enfiado na sua boca, ou ela a masturbar-se, ou com um vibrador no cu) conduzia directamente a uma pergunta qualquer muito directa: que achava ele do modo como eles faziam? Que achava desta sequência? E daquela? Que achava ele do uso (que estranho verbo, em tal situação) do esperma numa relação íntima?, e por aí adiante. A todas as questões respondeu Kárlus de formas diferentes, embora sendo a resposta sempre a mesma: sim, estava tudo bem, desde que o prazer deles fosse real. Não havia regras, mas tão só a sinceridade do que se fazia. E enquanto ia respondendo isto, o sofá tornava-se-lhe desconfortável, perante tal despudor, e as calças apertadas, perante tanta tesão. “Verga longa e grossa” não era uma mera figura de estilo.
De repente, o écran escureceu. Não pause, mas stop. O outro homem disse:
— Que tal vermos isto tudo mais de perto?
Conduziram-no para um quarto, com uma cama invulgarmente grande, e convidaram-no a despir-se, enquanto eles faziam o mesmo.
Deitaram-se os três na cama, e a mulher pegou no sexo de Kárlus. Disse:
— Você é um homem honesto.
Depois começou a chupá-lo, sem mais preâmbulos.
— Que acha dela? — perguntou-lhe o marido, e notava-se que queria mesmo saber.
E Kárlus respondeu:
— Sabe bem o que está a fazer.
E já o homem lhe sopesava os tomates, com ar apreciativo, após o que acrescentou:
— Você é realmente bem dotado. Vai agradar-lhe. O que acha de mim?
Kárlus olhou para a picha do outro.
— Vá, toque-lhe — disse este. — Sinta bem como eu me sinto.
Com certa relutância, Kárlus pegou-lhe no sexo. Era uma picha normal, excitada, dura. Nunca tinha feito nada de semelhante, mas tinha de reconhecer que não se estava a sentir embaraçado ou inibido: uma picha é um pedaço de carne, e nada mais. Às vezes com tratados de moral a esvoaçar à volta, mas quanto a isso pouco haverá a fazer.
A mulher, entretanto, largou-o, para se debruçar sobre o sexo do marido, a boca sempre aberta, o cu virado para o ar. Só parou para dizer a Kárlus:
— Foda-me.
Kárlus não se fez rogado.
Dez minutos depois, trocavam de lugares, mas para um novo jogo: Kárlus agora estava deitado de costas, a mulher a montá-lo, e o marido por trás, a vê-los.
— Belo — disse este.
E depois, sem mais, Kárlus sentiu qualquer coisa a apertar-lhe o caralho: era o do outro, que entrava no cu da mulher.
— Nunca fizemos isto antes — disse ela, ofegante. — Mas é muito bom.
A mudança de posições seguinte pôs Kárlus a enrabar a mulher, enquanto o marido tomava de novo o papel de observador. Depois, de repente, ela gritou:
— Não se venha!
E, tirando-lhe a picha do cu, chupou-o, frenética, enquanto o marido avançava para de novo lhe assaltar o cu insaciado. Kárlus veio-se na boca da mulher, e tombou para o lado, completamente avassalado pelas sensações que ainda o estavam a possuir.
Três horas depois, com mais alguns períodos circunstanciais de descanso, já tinham tentado e experimentado todas as variantes possíveis daquele jogo de delícias sempre renováveis, e Kárlus estava espantado com a sua própria virilidade.
Nessa noite, dormiu em casa deles, e, no dia seguinte, domingo, repetiram a dose, ainda com mais novidades. À noite, embora exausto, Kárlus regressou enfim a casa, deixando atrás de si uma vaga promessa de regressar.

3
Só uma semana depois é que Kárlus se atreveu a pegar na carta seguinte, do grupo das já seleccionadas. Ainda lhe doíam um pouco os rins, a ponta da picha — os cus, geralmente entradas estreitas, nunca são uma limitação, mas sempre, sem dúvida, um constrangimento — , e adquirira o conhecimento de que o professorado não é uma situação tão fácil ou privilegiada como às vezes se pensa. Mas, ao mesmo tempo, a recordação dos prazeres que partilhara chegavam para o fazer esquecer todos os aspectos negativos, e por isso achou que era preciso prosseguir, naquelas aulas em que o professor, no fundo, tinha mais ar de aprendiz. Masturbou-se, nesse dia (duas vezes, como era agora da praxe), tendo na mente as imagens da sua primeira grande patuscada sexual, e achou-se de novo em forma.
O contemplado seguinte era um infeliz marido que, embora tendo uma vida sexual normal, sentia que as coisas já não eram como dantes, e que a sua mulher já não se entregava aos mais puros prazeres do corpo com o devido entusiasmo. Pareceu-lhe que o indivíduo estava a ser sincero, e decidiu contactá-lo. Chegaram a acordo rapidamente, apesar da aparente gaguez do outro, e Kárlus preparou-se para mais cento e tal quilómetros de estrada, depois de se ter munido de dois ou três filmes que julgou adequados ao caso. Descobriu deste modo que o sexo, mais que o lazer inerente às férias, provoca apetência para as viagens, e não o contrário.
Eram três da tarde, sexta-feira, quando Kárlus se viu a tocar à campainha de mais uma porta estranha. Deviam esperá-lo com grande expectativa, pois abriram logo. O indivíduo gaguejou, ao perguntar:
— Sr. Kárlus?
E ele soube que estava no sítio certo.
— Faça o favor de entrar — disse o outro, com grande solicitude.
Kárlus assim fez, e sentaram-se ambos numa sala vulgar, pequeno-burguesa q.b. (flores de plástico, ícones religiosos e de clubes de futebol uns ao lado dos outros, cortinas às florinhas nas janelas, galos em barro, e por aí fora).
— Eu chamo-me Frãcisku — disse o homem. — Xiku, para os amigos. Quer tomar alguma coisa?
— Água fresca — pediu Kárlus. — Está um calor dos diabos.
— Ah, pois está. Estou muito contente por ter vindo. Isto nunca se sabe, não é? Mas você veio, sim senhor.
Estava a falar da cozinha.
— Fresca fresca?
— O quê?
— A água.
— Sim, sim.
O tipo tinha mesmo um aspecto de coitado. Kárlus pensou, por momentos, que ter vindo ali não tinha sido, provavelmente, a melhor das ideias. Decidiu aguardar, no entanto, para ver o que aquilo dava.
Frãcisku regressou à sala, com o copo com água, e desapareceu outra vez, corredor fora, a dizer:
— Desculpe, eu volto já.
Foi o que aconteceu, cinco minutos depois.
— Desculpe — disse ele outra vez — , mas tinha uma coisa para fazer.
Kárlus atalhou:
— Eu, por mim, prefiro sempre ir directo às questões.
O outro olhou-o, mas já a concordar.
— Tem toda a razão — disse, enquanto se tornava a sentar no sofá frente a Kárlus. — Entretanto, a questão é um bocado mais complicada do que eu lhe disse. Quer dizer, é facto que a minha vida sexual com a minha mulher não anda muito famosa, mas acho que isso é culpa minha. Embora não seja realmente uma culpa. O que eu quero dizer é que tudo começou há muito tempo já. A princípio, eram simples inquietações.
Agitou-se no seu lugar, como se o que ia dizer a seguir o incomodasse.
— Continue — ajudou-o Kárlus, em tom compreensivo, e cheio de paciência.
— Simples inquietações — repetiu Frãcisku. — Não vou maçá-lo com o percurso que fiz, mas cheguei a uma certeza: o tamanho do pénis de um homem é determinante na forma como exprime a sua sexualidade.
Sorriu antes de continuar: um sorriso triunfante, como se fosse merecedor de um qualquer dos Nobel e, ao mesmo tempo, lhe tivesse saído um grande peso de cima. Mas ainda havia outro, pelo menos, a esmagar-lhe as omoplatas, e ele prosseguiu:
— Todavia, a maior questão continuava por esclarecer: o que sente uma mulher, quando faz amor? Como fazê-la sentir o que nós, homens, sentimos então, ou sentir o que elas sentem?
Tocou a campainha, e Frãcisku ergueu-se, rápido, e correu para a porta. Regressou acompanhado por outro tipo, loiro, de olhos azuis, um pouco gordo e com um aperto de mão mole. Frãcisku apresentou-o com o nome de Úgu. Sentaram-se ambos, e Frãcisku disse, decidido:
— É o meu melhor amigo, e partilhamos estes problemas todos, que a ambos afectam. Onde é que eu ia? Ah, já sei: o mais difícil. O sentir das mulheres. Propus à minha, ao fim de três anos de casados, uma experiência de sexo anal. Acabámos por o fazer apenas três vezes, e só depois de eu a embriagar um pouco. Não era que tal modalidade sexual me agradasse muito, pois saía sempre com a picha um bocado suja, o que não é coisa agradável por aí além, como você deve saber, e melhor que eu. Mas, entretanto, estas tentativas pareciam a única forma de chegar a alguma conclusão. O Úgu concorda comigo. Ele tem uma picha mais pequena que a minha, e demos por nós a compará-las, a discutir tudo isto. Quer ver?
E, desapertando a braguilha, tirou o sexo para fora. Estava meio teso, vá-se lá saber porquê, e não era grande coisa. Quando Úgu o imitou em tal gesto, Kárlus ficou a pensar se aquela teoria estranha do tamanho do sexo vs. a sexualidade não estaria certa. A sua própria picha era quase do tamanho das outras duas juntas.
— Não nos quer mostrar a sua? — propôs Frãcisku.
Kárlus, contendo uma certa vontade de rir, aquiesceu.
— Não é nada de mais, pois não? — disse, olhando o seu próprio pénis flácido.
— Não — atalhou Frãcisku. — Mas nota-se de imediato o potencial.
— Bom... — condescendeu Kárlus. — Com uma festas e uns beijinhos...
— É essa também, a questão. Acabamos sempre por ir ter ao mesmo: o que sente o outro? Só experimentando, pensámos nós. E foi o que fizemos.
Continuava a olhar para o sexo de Kárlus.
— Úgu, não queres...? — E, para Kárlus: — Com certeza não se importa...
Kárlus gesticulou um "não, claro, estou aqui para isso", sem perceber bem o que lhe diziam, ou propunham, mas logo Úgu lhe tomou o sexo nas mãos, e depois na boca. Não chupava nada mal, para um aparente principiante.
— O que acha? — perguntou-lhe Frãcisku, sem abandonar a sua pose de cientista em laboratório sem ratos. — Repare, o nosso objectivo é aprender, nada mais.
— Não está mal, de facto — concordou Kárlus, já a entrar no jogo dos outros — . Mas teremos de analisar melhor todo o processo. Continue a observar.
Frãcisku, de facto, não parava de olhar para o modo dedicado como o seu amigo chupava o pénis de Kárlus, o qual, entretanto, atingira já a sua dimensão mais nobre.
— Talvez agora fosse um bom momento para uma pequena interrupção — sugeriu Frãcisku.
— Estava a saber-me bem — protestou Kárlus, se bem que sem grande firmeza.
— Bom, eu creio que já entendeu o nosso problema — disse Frãcisku, enquanto Úgu não parava de sorrir, os lábios molhados. — Começámos a fazer experiências, todas apontando para o mesmo objectivo, mas faltava-nos quem nos orientasse. — Fez uma pausa, a reflectir. — A sabedoria, enfim.
— O melhor será despirem-se — disse Kárlus.
E, dois minutos depois, aí estava ele com dois fulanos nus a olhar para ele. Despiu-se também. Frãcisku retomou o comando das operações:
— Bom, que me diz à teoria do tamanho dos sexos?
Kárlus não respondeu a tal questão, mas antes disse, ou perguntou:
— Com certeza já se enrabaram um ao outro?
Ambos pigarrearam.
— Então? — insistiu Kárlus.
— Bom, sim, está a ver, as nossas experiências... — começou Frãcisku.
— Certo, certo — condescendeu Kárlus. — Tudo isto é muito claro para mim, e não vamos criar mais confusões. Úgu, ponha-se de cócoras. Há que aprender, de uma vez por todas. É para isso que aqui estou.
Úgu obedeceu. Kárlus abriu-lhe as nádegas, enquanto dizia:
— O tamanho do pénis não tem qualquer importância, a não ser que estejamos a falar de um pénis descomunal, ou, vendo pelo outro lado, de um pénis de criança, entendem? O meu não é assim, pois não? Nem uma coisa nem outra, digo.
Nenhum dos outros respondeu, de tão atentos que estavam: um alfinete a cair naquele silêncio soaria a trovoada.
— Não é — prosseguiu Kárlus. — É grande, mas não descomunal, o que implica que os vossos têm exactamente a mesma capacidade de dar prazer que o meu. A arte, essa, está na forma de o fazer. No empenhamento. Está a ver isto? — E mostrava o ânus de Úgu, imaculadamente pronto para o que desse e viesse. — Todavia, se o lubrificássemos um pouco seria bem melhor.
Cinco minutos depois, Kárlus, o homem que por certo mais filmes pornográficos vira em todo o país, estava pronto para iniciar um novo capítulo na sua vida sexual, mas não se sentia apreensivo. Enquanto lubrificava o cu de Úgu, Frãcisku ia-lhe chupando a picha, com grande mas humilde dedicação. Kárlus chamou-o, em certo momento.
— Veja — disse. E era um dos seus dedos a entrar facilmente no cu de Úgu.
— Experimentemos — disse Kárlus então. E, sem mais teoria anexa, penetrou em Úgu, que deu um breve suspiro. Kárlus, inspirado, sugeriu que Frãcisku desse também a dar a provar a sua picha a Úgu. Onde? Na boca, claro. Instantes depois, enquanto ia andando para trás e para diante e para fora e para dentro, no cu de Úgu, que chupava metodicamente a picha de Frãcisku, foi Kárlus perorando a sua teoria de circunstância:
— Não é o tamanho do sexo, então, esqueçam isso, rapazes, mas o modo como o usamos, a força, a intenção. Não há pénis sem mãos, nem mãos sem boca, etc.
Começou a sentir-se excitado. E disse ainda:
— Devemos mover-nos devagar, depressa; seja como for, mas com paixão. — E retirou-se antes de se vir.
— Troquemos — disse para Frãcisku.
E aí estavam eles de novo, Frãcisku no cu de Úgu e Kárlus na boca deste, mas confortavelmente sentado no sofá, como se fosse o dono daquelas duas patéticas criaturas. E então Úgu disse, entre duas chupadelas:
— Acho que começo a entender o que uma mulher sente, quando a estão a foder.
Frãcisku veio-se-lhe no cu, e Kárlus na boca.

4
Kárlus só se foi embora dois dias depois, após ter fodido repetidas vezes Frãcisku, Úgu e as respectivas mulheres, que entretanto se tinham juntado ao seu mini-curso, desejosas de saber o que elas próprias sentiam.
Com toda a rodagem que já ganhara com as suas aventuras, dois dias mais tarde já ele estava a responder a outra carta. Desta feita, era uma mulher que queria aprender tudo acerca do sexo, pois não conseguia satisfazer todas as solicitações do marido, o qual, segundo a narrativa da mulher, devia ser um bom tarado.
Como ela não queria que o marido soubesse daquele encontro (que o sonhasse, sequer), tinham combinado encontrar-se num hotel de uma povoação próxima daquela onde ela morava, a qual, aliás, também não distava muito da vilória onde Kárlus tinha a sua casa — a sua reitoria, como ele agora gostava de pensar.
No dia seguinte, portanto, Kárlus, munido dos seus variados apetrechos didácticos, encontrou-se com a ansiosa senhora, e subiram ambos ao quarto de hotel, o qual, entretanto, ela já tinha alugado. Era uma mulher bonita, no começo da casa dos quarenta, ou no fim dos trinta, a encaminhar-se claramente para uma resolução em tipo balzaquiano, e, eventualmente, divorciada, em vez de casada (circunstância que Kárlus nem por instantes sugeriu, claro). Limitou-se a confirmar que ela não usava aliança. Chegados ao quarto, ela desfez-se em agradecimentos.
— Sr. Professor, nem sabe como lhe estou grata por ter atendido o meu pedido.
— Trate-me por Kárlus, e fale-me do que a preocupa.
Ela assim fez, e Kárlus admirou-lhe a clareza, bem como a imaginação. Pois era verdade, o marido tinha uma série de fantasias estranhas, e ela não se sentia preparada para as satisfazer. Quando vira o anúncio de Kárlus, descobrira que podia ser essa a solução: com um orientador, quem sabe se não ganharia outra segurança, outra confiança em si própria e no seu corpo, de modo a poder satisfazer-se e satisfazer o marido, que tanto amava.
Kárlus, depois deste comovente preâmbulo, sugeriu, muito sensatamente, que talvez o melhor fosse irem avançando passo a passo, ou seja, fantasia a fantasia, de modo a poderem analisar todos os elementos de cada uma. Ela achou a ideia dele muito boa.
E na primeira fantasia já eles estavam. O marido gostava de imaginar que estava com uma estranha num quarto de hotel, que a amarrava à cama e que fazia amor com ela. Esta já eles tinham começado a concretizar, mas teriam ainda de a completar, pois era dessa que deveriam partir para as restantes idealizações eróticas daquele tão exigente marido. A mala de Kárlus tinha uma variedade larga de apetrechos, mas faltavam umas cordas. Anotou na agenda mental que tinha de corrigir essa falta imperdoável. A mulher disse que previra a possibilidade de tal acontecer, que isto por muito que pensemos nunca pensamos em tudo, e, passando das palavras aos gestos, tirou da sua mala quatro pedaços de corda que colocou sobre a cama, a seu lado.
Despiram-se ambos. Kárlus apreciou-lhe o corpo, cheio de formas rotundas e muito branco, com seios grandes mas rijos, enquanto ela se deitava, com as pernas abertas e os braços erguidos, também abertos. Amarrou-a, as cordas bem esticadas mas os nós não demasiadamente apertados.
— Agora vou ter de chupá-lo.
— Muito bem — disse Kárlus.
E enfiou a picha na boca da mulher, que nesse entretém se manteve por alguns minutos, até dizer:
— Agora vou ter de lhe lamber o cu.
— Muito bem — disse Kárlus.
E a mulher lambeu-lhe o cu, a ponta da língua afiada e sinuosa, até que disse:
— Agora vai ter de me foder, mas sem se vir.
— Muito bem — disse Kárlus.
E fodeu-a, sem se vir. Mas ela veio-se. Logo que acalmou, pediu-lhe que parasse.
— Agora, aqui, ele fica muito excitado, e vai buscar um vibrador, e enfia-mo na cona, e fica a olhar-me enquanto o manuseia em mim, até que eu me venho outra vez. Tem um vibrador consigo?
Isso Kárlus tinha. Mas, quando lho mostrou, perguntou-lhe ela se não possuía outro, maior e mais grosso. Ele, algo espantado, pois que achava os seus vibradores com dimensões muito razoáveis, disse que não.
— Veja então na minha mala — disse ela.
Ele assim fez, e o que achou foi um objecto de dimensões efectivamente mais generosas: uma coisa com pelo menos trinta centímetros de comprimento e com oito de diâmetro.
— Agora vai enfiar-mo — disse ela.
— Tem a certeza de que é isso que quer? — perguntou Kárlus, a pensar em como é que aquilo ia caber dentro dela.
— Absoluta.
Kárlus começou devagar, mas o vibrador, afinal, entrou facilmente. Pô-lo a trabalhar, e continuou. Os trinta centímetros entraram praticamente todos. Espantoso.
— Vá-o fazendo entrar e sair, como se fosse um caralho.
Kárlus assim fez, e nem três minutos depois já ela se estava a vir outra vez. Disse, num tom de menina satisfeita:
— Estou a vir-me.
Demorou um pouco a acalmar, o vibrador ainda dentro dela. Mas satisfeita é que não estava.
— Agora — disse ela, já com a respiração normalizada — , agora é outra fantasia. Vai tirar-me o vibrador e enfiar-me a sua mão.
Kárlus aquiesceu. Já tinha visto coisas assim em filmes. Custara-lhe a acreditar que tal coisa fosse possível, mas depois de ver o modo como ela "engolira" aquele vibrador descomunal, preparou-se para a nova e inédita experiência.
— Na minha mala encontrará uma embalagem de lubrificante. Vai untar-me primeiro com ele, tanto a cona como o cu. Mas primeiro deverá desamarrar-me, que aqui eu preciso de me mexer mais. Como é que estou a sair-me?
— Ah, muito bem — garantiu Kárlus, às voltas com os nós. — Está muito calma, muito concentrada, muito determinada, o que é muito bom. A sua vontade de aprender é grande, e acho que está a passar muito bem por cada fantasia, a apreender-lhe o sentido profundo, a afirmar o seu direito a cada prazer específico.
Ela sorriu, e disse:
— Eu sabia que ia ser assim. Você está a ajudar-me imenso.
— É para isso que aqui estou — disse-lhe Kárlus. — Agora vire-se.
— Espere — disse ela. — Tive uma ideia estranha, não sei se resultará. Ora oiça: vai tornar a atar-me, mas de outra forma: a corda maior, vai passá-la pelo meu pescoço, mas com cuidado, para não me magoar; e com a outra, prende-me uma perna apenas, pelo tornozelo. Mas agora ate-me a meio da cama, e não às pontas. A formar uma linha recta, percebe?
Kárlus, pronto para aceitar que as linhas rectas da actualidade pudessem albergar em si algumas elipses bem pronunciadas, assim fez, e depois começou a besuntá-la com o lubrificante, tal como ela especificara. Tinha o seu rabo grande voltado para ele, a cona escancarada e naturalmente húmida. Cheirava bem.
— Talvez fosse bom se me amordaçasse, mas ainda não. Primeiro, assim como quem não quer a coisa, ao passar os dedos pelo meu cu, faça-os entrar um pouco, primeiro um, depois dois, depois tudo o que puder, o mais fundo que puder.
Um dedo entrou como se o ânus dela fosse uma porta aberta. Dois foi igual, mesmo depois de todos enfiados.
— A sua carne tem muita elasticidade — comentou Kárlus.
— É verdade — disse ela. — E sempre fui assim, desde pequena. Acho que não há muitas mulheres como eu.
— Não há, não — confirmou ele, a pensar naquele "desde pequena". Grande história devia ser a dela.
Kárlus juntou os cinco dedos o melhor que conseguiu, e continuou a penetrá-la no cu. Ainda com surpreendente facilidade, a mão escorregou para dentro dela, até meio do punho.
— Mais um pouco — pediu ela, ofegante.
Kárlus fez força para diante, e o resto do punho entrou também. Tinha agora toda a mão, até ao pulso, dentro do cu da mulher.
— Abra a mão, sinta o meu cu — ofegou ela ainda mais, desvairada.
Era uma pele húmida, macia, a do interior dela. Kárlus quase não conseguia acreditar que aquilo estava mesmo a acontecer. Ainda empurrou um pouco mais, mas quando se apercebeu que, se continuasse, acabaria, provavelmente, por enfiar todo o braço nas entranhas da mulher, deteve-se.
— Agora retire-a, e faça o mesmo na minha cona.
E na cona dela a mão entrou toda de uma vez só, sem hesitações ou pausas.
— Fá-la entrar e sair — disse ela, já a tratá-lo por tu, em completo delírio. — Sim, sim, assim mesmo. Agora enfia-me o vibrador no cu, meu querido. Ah, sim, sente-o com a tua mão dentro da minha cona.
O caralho de Kárlus, todo em pé, observava atentamente a cena, algo envergonhado, digamos assim, com tanta imensidão.
Esta cena de loucura terminou com um excesso absoluto, após um número de complicado contorcionismo que levou a que Kárlus enfiasse a mão juntamente com o caralho na cona da mulher, até que ela se veio, num estertor selvático.
Em seguida, Kárlus teve de amordaçá-la e chicoteá-la com uma das cordas que tinham sobrado, "até ficar cheia de vergões", conforme ela determinou, ainda com o vibrador enfiado no cu.
Kárlus não a poupou: costas, nádegas, pernas, toda a pele dela ficou riscada por grandes traços avermelhados, ao fim de poucos minutos. Tirou-lhe então a mordaça. Tirou-lhe o vibrador do cu. Agora era preciso que lhe apertasse o pescoço, enquanto a fodia, e quando ela, com o sufoco, estivesse a desmaiar, vir-se. Assim foi feito. E Kárlus, ao fim da espiral orgíaca para que se atirara sem olhar, veio-se como nunca. A mulher era doida, mas uma doida que sabia muito bem o que era excitação.
Cansados de tantos excessos, adormeceram os dois, e só reacordaram duas horas mais tarde. Mas aquilo ainda não tinha acabado. Kárlus teve de a passear pelo quarto, de gatas e com uma trela improvisada (de novo uma corda), enquanto a insultava, dar-lhe pontapés ("não tenha medo de me magoar"), pô-la a chupá-lo enquanto a agarrava ferozmente pelos cabelos. E ela dizia, vezes sem conta:
— Amo-te, amo-te, não há ninguém igual a ti.
E ele dava-lhe mais uns quantos pontapés, e ela enroscava-se no chão, a defender-se, e depois corria para ele, beijava-lhe os pés, a picha, as unhas cravadas na carne dele.
Acabaram na banheira, com água quente, ela a abraçá-lo e a agradecer-lhe muito, e, e, e hesitou um bocado antes de lhe dizer que ainda faltava realizar duas fantasias. Duas numa, de facto.
— Quero que me mijes na boca.
Kárlus foi de tal modo apanhado de surpresa que o sexo deu um salto e ficou de novo em pé.
— Assim vai ser difícil — ironizou ele.
— Tente distrair-se — aconselhou ela. — É apenas mijar. Conversemos.
Conversaram. Kárlus estava com a bexiga cheia, e deu, em dado momento, a mijar realmente para a boca da mulher. Não saiu tudo, porque o caralho tornou a crescer. A mulher mijou também, enquanto bebia a urina dele, e a que não bebia a escorrer-lhe pelos seios.
— Agora cague na minha boca — pediu ela por fim, a olhá-lo nos olhos. Kárlus olhou-a também, e os seus olhos diziam que isso não ia ser capaz de fazer. Mas os olhos dela, por sua vez, garantiam-lhe que sim, que era capaz, e que ia fazê-lo.
— Eu lambo-lhe o cu, muito devagar, e você começa a fazer força, também devagar, e caga directamente para a minha boca, um pouco, e depois um pouco mais, e então eu, com a boca cheia de merda, chupo-lhe o caralho, e você caga o resto para cima de mim, e a sua picha na minha boca é como se estivesse enfiada no meu cu sujo, no meu cu maravilhoso onde tudo cabe, e eu esfrego a sua merda em mim e você vem-se na minha boca, e então liga o chuveiro com água quente, a água lava tudo.
E tudo se passou como ela disse. Depois, a água lavou tudo, e minutos depois já o cheiro a merda se tinha dissipado, até que acabou por desaparecer por completo.
Ela sugeriu que ele saísse primeiro do hotel, enquanto se deitava na cama, a esfregar outra vez o lubrificante na cona e no cu. E disse:
— Eu não sou casada. Desculpe.
— Eu sei — disse Kárlus. — Divorciada?
— Viúva.
Quando Kárlus saiu, estava ela de novo com o vibrador gigante enfiado nas tripas, e uma das suas mãos gorduchas meio metida na cona.
— Obrigado — disse ainda, uma última vez, num tom rouco e profundo.

5
A carreira de Kárlus ia de vento em popa quando conheceu uma mulher, ainda por intermédio do seu anúncio, que o deixou completamente confundido. A mulher em questão vivia sozinha, numa casa enorme, e contactara-o porque, segundo ela, "queria conversar com ele acerca de sexo, queria ouvir tudo o que ele sabia; queria aprender, em suma".
"Mais uma que tem medo de dizer o que realmente quer", pensara Kárlus. Já começava a habituar-se. Foi visitá-la.
A mulher veio recebê-lo à porta. Era lindíssima, na casa dos vinte, loira, alta, e usava um vestido muito leve, florido, que lhe descia até aos pés, em várias camadas sobrepostas de tecido. Era cingido ao pescoço, mas permitia ver que a mulher tinha uns bons seios, nem muito grandes nem muito pequenos, mas empinados, o que ainda mais marcava a curva acentuada da sua cintura fina, a descair para umas ancas muito redondas e cheias o bastante para parecerem perfeitas. Kárlus ficou sem fala. Para que precisaria dele uma mulher assim? Com certeza poderia ter todos os homens que quisesse. Decidiu sentar-se, tomar o chá que ela lhe ofereceu, e aguardar, pois alguma explicação razoável devia haver.
Contou-lhe ela então, enquanto bebericavam o chá, que, órfã desde tenra idade, fora criada, naquela casa, por uma tia de severa moralidade, a qual sempre procurara refrear nela todo e qualquer impulso natural do espírito, em nome da salvação do mesmo — a tia chamava-lhe alma, portanto — , salvação essa que apontava, depois, para uma vaga noção de vida eterna que ela nunca chegara a entender.
Lud Mila, era esse o seu nome, vivera sempre, pois, sob a apertada vigilância da tia, sem amigos, sem amores, sem nada saber, realmente, do mundo que existia fora daquelas paredes.
Mas, há dois meses, de repente, a tia morrera, e Lud Mila via-se agora a braços com os tais impulsos naturais do espírito, cada vez mais vivos, mas, em simultâneo, com receio de cometer, por virtude de um qualquer impulso impensado, algum erro irreparável, de tal forma que ainda pouco se arriscara no mundo dos outros. Tudo lhe parecia fascinante, belo, tentador. Comprara imensos livros, jornais e revistas — bem como uma televisão (a tia, cuja noção de gestão dos dinheiros próprios era a forretice, deixara-lhe uma avultada herança) — , lera tudo e via todos os dias todos os programas que lhe pareciam interessantes. Fora assim que dera com o anúncio dele. Ela sabia que ele era só professor de sexo, mas pensara que, a par de explicações sobre essa matéria específica, ele, que era com certeza um homem com grande experiência da vida, lhe poderia dar grandes ensinamentos em muitas outras áreas.
Kárlus, muito consciente de que a mulher (a rapariga, melhor dizendo) era virgem de todo, achou a ideia realmente muito interessante. "Ensinar a vida a uma virgem", pensou ele, "eis o que se pode chamar um autêntico achado". Perguntou-lhe a idade.
— Vinte e dois.
E como eram belos os vinte e dois anos...
— Então, aceita ser meu professor, de sexo e de tudo o mais? O dinheiro não é problema.
— Nesta minha actividade, nunca o foi — afirmou ele. — Eu trabalho apenas por prazer.
Perguntou-lhe em seguida se lera o jornal onde encontrara o seu anúncio.
— Todo, de uma ponta à outra — foi a resposta dela, pronta.
— E então?
— Houve muitas coisas que não entendi, como deve calcular. Mas gostei das imagens.
Ele sugeriu que o tornassem a ver os dois, de modo a que ela lhe pudesse explicar tudo o que não entendera.
Sentaram-se lado a lado, ela a ler em voz alta, a fazer perguntas, e ele a dar respostas. Lud Mila era completamente inocente, e Kárlus viu-se obrigado a abandonar o seu cinismo habitual, e assumiu um tom sério e, de facto, professoral. As perguntas dela não tinham fim, e a tarde passou-se depressa.
Quando se despediram, Kárlus prometeu a si próprio que voltaria a visitá-la daí a uma semana, para prosseguir com as lições. Ainda antes de se ir, recomendou-lhe que comprasse algumas roupas mais arejadas que aquelas que usava, apesar de achar que lhe ficavam muito bem.
A caminho de casa, Kárlus deu por si a cantarolar, ao volante do carro, e teve consciência de que já há muito não se sentia tão bem como naquele momento. Era como se também ele tivesse de novo vinte anos, e estivesse para perder a virgindade, finalmente. E ia perder uma, pois decidira ser o primeiro homem de Lud Mila, aquele que lhe ia mostrar pela primeira vez o que era uma verga grande e grossa.
Nessa semana, visitou ainda uma senhora que desesperadamente lhe pediu para que ele amestrasse o seu cão, de modo a que ele a fodesse ou lambesse sempre que ela assim lho ordenasse, e um casal de lésbicas que só queriam fazer amor com um homem a vê-las.
As coisas com a senhora do cão não começaram muito bem, porque o cão não demonstrou grande simpatia por Kárlus, tendo mesmo chegado a mostrar-lhe os dentes. Mas a senhora lá o conseguiu acalmar, e Kárlus lançou mãos ao trabalho. Primeiro, explicou-lhe que nem as melhores tentativas da sua parte resultariam se a relação entre ela e o cão não fosse suficientemente madura. Aquilo era um assunto delicado e íntimo, e ela teria de conversar muito com o animal, mostrar-lhe como o seu corpo era belo e apetecível. Teriam, em suma, de se amarem.
A mulher começou logo a praticar, conversando com o cão, enquanto lhe acariciava o caralho e o fazia encostar aos seus seios, que, entretanto, pusera para fora da blusa. O cão estava com tesão, o que a Kárlus pareceu um bom sinal.
Kárlus pôs então a passar, após quinze minutos de carinhosa conversa, um filme porno, em que uma outra senhora (lá de um qualquer país distante) demonstrava, em várias posições, como é que se podia efectivar um amor assim, entre uma mulher e um animal. A senhora estava deliciada a assistir, mas o cão parecia algo distraído.
Quando o filme acabou, Kárlus sugeriu que uma demonstração in loco e ao vivo talvez fosse uma ideia melhor. A senhora disponibilizou-se de imediato, e Kárlus esteve um bom bocado a fodê-la por trás, até que decidiu vir-se.
— Deixe-se ficar nessa posição — disse ele, quando se retirou dela. Com o cheiro forte do esperma no ar, o cão, um minuto depois, estava a farejá-la. Depois, a modos que a experimentar, como alguém que tira um pedaço de uma mousse de chocolate com a ponta do dedo, deu-lhe uma lambidela. Depois outra. Depois enfiou-lhe a língua, decididamente. Kárlus, com cuidado, pois não lhe apetecia ser mordido, incitou o animal para que se encavalitasse nela. Enfim, mais uns ajustes e aí estava ela a gemer, o caralho do cão dentro dela.
— Como é que lhe posso agradecer?
Kárlus mostrou-lhe como, enfiando-lhe o caralho na boca.
Com as lésbicas, foi tudo mais rápido. Depois de as ter estado a ver um bocado a beijarem-se e a lamberem-se e a enfiarem uma vibrador uma na outra, Kárlus, incapaz de conter a excitação, algemou e amordaçou uma das mulheres e fodeu a outra. Depois fodeu a que estava algemada à cama. Antes de sair, soltou-a, e enfiou os vibradores nos cus das duas.

6
Chegou o dia de nova visita a Lud Mila, e Kárlus foi pontualíssimo. A mulher que veio abrir a porta era a mesma mas parecia outra, em absoluto: usava agora um vestido ainda florido, mas curto, muito leve e decotado. E cheirava a perfume. Kárlus estava deliciado. Foram para a sala, ela serviu o chá da praxe e conversaram. Lud Mila tinha feito novas leituras, e as temáticas abordadas na conversa foram da política à história mundial, passando pela informática, o aborto e os movimentos ecológicos. Depois, Lud Mila, alegre como uma miúda, mostrou-lhe a sua última aquisição: um leitor de vídeo. Nem de propósito: Kárlus trazia na mala um dos seus inúmeros filmes porno, e propôs que o vissem, pois achava-o muito educativo, apesar da nulidade — e falsidade — do enredo.
Quando Lud Mila viu aparecer o primeiro caralho no écran, abriu os olhos de espanto. Agora o caralho enfiava-se numa cona. Kárlus ia parando o filme aqui e ali, e ia dando as suas doutas explicações. Agora era o caralho que se enfiava no cu da mulher. Os olhos de Lud Mila cresceram ainda mais.
Quando o filme acabou, ela estava muda.
— Então? — perguntou-lhe Kárlus.
— Sinto-me confusa — disse ela. — Estranha. Acho mesmo que perturbada.
— Porquê? — quis saber Kárlus, divertido. Mas ela não respondeu. Antes perguntou:
— Você também tem um... um caralho?
Kárlus não pôde deixar de rir abertamente.
— Claro — disse.
— Porque se ri?
— Porque você é de uma inocência deliciosa.
— E isso é mau?
— Não, é bom. Muito bom.
Inesperadamente, ela pediu-lhe que parassem por ali. Precisava de pensar, e, para isso, queria ficar sozinha. Kárlus não quis contrariá-la. Perguntou:
— Vêmo-nos de novo na próxima semana?
— Sim, claro. Venha cedo.
Outra semana se passou, portanto, e durante a qual Kárlus, também ele perturbado por estranhas sensações, fez uma única visita.
Tratava-se de um casal de masoquistas, homem e mulher, que só estavam a precisar de uma boa sova para terem a sua dose de prazer. Kárlus amarrou-os, chicoteou-os, apertou-lhe os mamilos, fodeu-os, cuspiu-lhes em cima e deu expressão a mais meia dúzia de porcarias que eles lhe pediram — não, não precisavam de professor — , mas não sentiu grande prazer no que estava a fazer. Teve mesmo de admitir perante si próprio que o fizera distraído, quase maquinalmente.
A imagem de Lud Mila começou a surgir-lhe, tanto nos sonhos como quando estava acordado. A princípio, era só de vez em quando, mas depois, a qualquer momento, aí estava ela, na sua cama, na televisão, à janela, nas torradas do pequeno-almoço. Ela era tão diferente, tão encantadora, tão bonita...
Chegou mais um dia, enfim, de visita semanal, e Kárlus voou para junto de Lud Mila. Ela usava nesse dia uma t-shirt sem soutien por baixo e umas calças muito justas. Beijou Kárlus nas faces, quando ele chegou. Tomaram o chá sacramental, e Lud Mila foi directa ao assunto.
— Hoje quero aprender uma coisa muito especial.
— E isso é o quê?
— Faz o que eu lhe pedir?
— Só se forem coisas boas — gracejou ele.
— Creio que são — disse ela. — Mostra-me o seu caralho?
Kárlus não estava à espera de pedido assim, mas fez o que ela lhe pediu.
— Posso tocar-lhe? — perguntou ela.
— À vontade.
Ela agarrou desajeitadamente no caralho de Kárlus e, enquanto ele lhe explicava como é que ela devia fazer, ela exclamou, surpresa:
— Está a crescer!
Era facto. Mas que caralho é que aquela mão não faria crescer? Kárlus decidiu ensiná-la a bater uma punheta. Queria que ela o punheteasse até ele se vir, e disse-lho, e disse-lhe o que ia acontecer.
— É isso o que eu quero — disse ela.
A sua mão começou num vaivém muito suave, e Kárlus, os sentidos todos despertos, entregou-se ao prazer que o estava a invadir, mais espesso que uma praga de gafanhotos.
— Mais depressa agora, mas não apertes tanto.
Ela acelerou a cadência.
— Quando o esperma sair — perguntou — , posso pôr o teu caralho na minha boca?
— Hoje não — disse Kárlus. — Hoje só quero que o vejas a sair.
A mão dela acelerou mais ainda. O esperma jorrou, finalmente, inesperado, e ela deu um gritinho, ao mesmo tempo assustada e maravilhada. Ficaram a mão e a t-shirt molhadas com aquele líquido espesso e quente.
— És maravilhosa — disse Kárlus.
Ela foi mudar de t-shirt, e regressou à sala.
— Agora — disse — , quero aprender a beijar na boca.
— Então senta-te aqui a meu lado.
Foram as duas horas mais deliciosas da vida de Kárlus. A boca dela era um morango fresco, era mousse de chocolate, brandy e mel de uma só vez, o seu hálito uma brisa mágica, a sua língua um sonho feliz.
Kárlus regressou a casa em transe.

7
Eram dez da noite e Kárlus, nessa semana, ainda não respondera a um único anúncio. Estava na sala, às escuras, a ver um filme porno, mas, na verdade, só via Lud Mila. Agora tinha a certeza: apaixonara-se pela rapariga. E, como acontece com todos os apaixonados, logo o insidioso ferrão da dúvida se insinuara no seu espírito: e ela, gostaria dele? Chegaria ela a apaixonar-se também por ele? E que amor poderia vir a ser esse, entre um homem de sessenta anos e uma rapariga de pouco mais de vinte? E quando ela saísse finalmente de dentro daquela casa e descobrisse o mundo? E quando ela perdesse a inocência?
Kárlus era, no entanto, um homem prático, e conseguiu afastar de si, depois de alguma luta, todas essas interrogações venenosas. Aquela era, provavelmente, a sua última possibilidade de ser feliz, e ele não ia desperdiçá-la. Mesmo que tal felicidade viesse a acabar, por alguma razão, ao fim de um ano, ao fim até de meia dúzia de meses.
E decidiu: no seu próximo encontro, fariam amor. E decidiu ainda: até lá, nem uma punheta.
Passou-se assim a semana, mais uma, e o dia dos feitiços chegou. Lud Mila estava mais bonita que nunca, o cabelo solto, com outro vestido, também curto mas menos decotado, com uma gola redonda de onde, à frente, descia uma tentadora fiada de botões. Ela beijou-o na boca, e Kárlus disse-lhe que tinha aprendido bem a lição.
— Tenho um bom professor — afirmou ela. Estava descalça, excitada, saltitante.
Ainda antes do chá, perguntou:
— É hoje que lhe vou chupar o caralho? Diga que sim. Quero saber como é o sabor do esperma.
Kárlus sorriu. A palavra “caralho”, na sua boca, perdia tudo o que de ordinário o vulgo pudesse achar nela.
— Vamos fazer algo ainda melhor — disse ele.
— E o que é?
— Logo verás.
Tomaram chá e conversaram. Kárlus espantou-se com toda a informação que ela conseguira assimilar em tão pouco tempo. Para tal também devia contribuir, por certo, o facto de essa informação lhe ter sido sempre negada. Estava faminta, e não comia, devorava.
Kárlus, subtilmente, levou o tema da conversa para o amor: sabia ela o que isso era, o que se sentia, o que por ele se dizia e fazia?
Não, não sabia. Kárlus, o melhor que pôde e conseguiu, explicou-lhe então o que era o amor, esse reino sempre com novas províncias para conquistar, e ela escutou-o atentamente.
Terminou ele a sua exposição com uma pergunta:
— Já alguma vez sentiste algo assim?
— Já — respondeu ela. E corou.
Kárlus também se sentiu levemente embaraçado. Ter-se-ia ela apaixonado por alguém?
— Quando?
— Posso dizer ao ouvido?
— Podes.
Ela aproximou-se do ouvido dele e sussurrou, com a sua voz deliciosa:
— Quando te conheci.
O coração de Kárlus deu um pulo. Ela amava-o. Amava-o!
Abraçou-a, e beijaram-se, e ele disse:
— Eu senti o mesmo, no mesmo momento.
Olharam-se.
— Amo-te — disse ele.
— Também te amo — disse ela.
Tornaram a beijar-se, e então ele disse-lhe:
— Leva-nos ao teu quarto.
Ela assim fez, com ele a enlaçá-la pela cintura, a beijá-la no pescoço. Deitaram-se sobre a cama e Kárlus desapertou-lhe os botões do vestido um a um, pondo à vista os seios perfeitos de Lud Mila. Beijou-os, lambeu-os, mordiscou-lhe os mamilos. Depois despiu-se, e Lud Mila logo se atirou ao seu caralho. Começou a chupá-lo, com Kárlus a explicar-lhe a melhor maneira de o fazer. Gradualmente, Lud Mila apanhou o jeito, e uns minutos depois já parecia que fazia aquilo há anos. Kárlus agarrou-lhe os seios e puxou-a para si e beijou-a e as suas mãos desceram às nádegas dela, redondas, firmes, convidativas. Era chegado o momento supremo de subirem livremente no ar, como os deuses: um momento total, indescritível, intenso como a superfície em chamas de uma estrela.
— Vou despir-te — disse ele.
— Há uma coisa que te queria contar... — começou ela, inesperada, a voz hesitante, mas Kárlus disse-lhe que deixasse isso para depois.
Estavam agora as suas mãos a subir-lhe pelas pernas sem fim.
— Tens a pele tão macia — disse ele.
Devagar, tirou-lhe as cuecas. Depois, soltou-lhe o vestido dos ombros e começou a tirar-lho, de cima para baixo, muito devagar, de modo a poder admirar-lhe o corpo por inteiro.
Quando o tecido ultrapassou o púbis, o que surgiu perante os olhos de Kárlus foi um caralho. Não muito grande, mas ainda assim, inequivocamente, um caralho. E estava teso. Kárlus estacou.
— Era isso que eu te queria dizer — disse Lud Mila, quase a chorar. — Não percebo o que sou.
Kárlus, um homem prático e apaixonado, após a surpresa inicial, declarou apenas:
— És o meu amor.
A sua cabeça desceu para entre as pernas de Lud Mila e o caralho dela entrou-lhe na boca, todo de uma vez.

A PROTECTORA

1
Vivia sozinha desde a morte do marido, num acidente, já lá iam dois anos. Não era velha — fizera trinta e cinco anos há pouco — , nem tão pouco feia. Achava-se um pouco pesada de mais, talvez — "cheia" era a palavra que sempre usava para designar essa circunstância do seu corpo — , com os seios grandes, e as nádegas salientes, sob uma cintura não tão fina como gostaria, mas, no geral, estava certa de que tinha um corpo agradável. Assim, arranjar novo companheiro não lhe seria difícil (e os homens continuavam, na verdade, a voltar-se para a olhar, quando ela passava por eles), mas ainda não tentara fazê-lo. Amara o marido — talvez ainda o amasse — , e a sua perda fora-lhe muito dolorosa; não se sentia, por isso, preparada para encetar nova relação — nova possibilidade de perda. É certo que se sentia só, condição apenas quebrada pela companhia do seu cão, Bráuni, e de uma ou outra amiga, esporadicamente, e com as quais partilhava mais a memória do passado adolescente vivido em comum que o presente, até porque elas tinham ganho pretensões e atitudes sociais que diferiam largamente das suas.
Um sólido pé-de-meia, acumulado ao longo de quinze anos, permitia-lhe viver bem, sem ter de trabalhar (se bem que não lhe permitisse grandes extravagâncias), necessidade que nem em espírito a incomodava — não gostava de horários, chefes, rotinas ou obrigações, e o marido, um bom deus o guardasse, sempre assumira por ela tais responsabilidades — , e que a deixava com muito tempo livre para pouco que fazer. Claro que numa grande cidade, com algum dinheiro e uma boa dose de imaginação, sempre se consegue alguma coisa que fazer, de qualquer forma, e a qualquer hora. Ora a sua educação era sólida, o que lhe dava alguns bons gostos. Assim, ia assiduamente ao teatro, tinha semanas em que só comia em restaurantes (do mesmo modo que outras em que só comia em casa), às vezes fazia fins-de-semana em terras que não conhecia, lia, pensava, passeava com Bráuni pelos jardins grandes da cidade e pelo campo. Gostava da vida, tinha poucos medos, e a vida ia andando.
Também lhe acontecia ficar tardes inteiras a olhar para a televisão, ou noites sem sono a ouvir música, e depois, quando se deitava, sentia-se tranquila, mas também inquieta, quatro da manhã e ainda com dificuldades para adormecer. O que a perturbava era, sobretudo, as imagens que lhe surgiam, repentinas, suadas, coisas como beijos, o seu sexo a ficar húmido e quente, na perspectiva de um outro sexo a penetrá-la, respirações ofegantes, os seus seios a erguerem-se-lhe firmes como os de uma estátua dedicada a uma qualquer vitória.
Só Bráuni, sentado a seus pés, na cama, já que ela o deixava dormir aí, era testemunha desses momentos, e, algumas vezes, saía de lá e ia visitá-la, com um olhar sempre meigo e a língua pingona, como se dissesse: "O que é que te preocupa? Também me estás a inquietar. Está calma, eu estou aqui".
Ele estava ali, e ela acariciava-lhe a cabeça macia e peluda, devagar. Bráuni respirava, com uma cadência rápida e forte, e era como se as imagens se concentrassem todas naquele arfar simples e animal e nos gestos lentos dela, duas velocidades para um mesmo sentir. Desse modo, acabava ela por adormecer — para reacordar olheirenta no dia seguinte, e, em algumas manhãs, mal-humorada. Mesmo assim, não desarmava. A expressão não estará, talvez, bem empregue, já que a sua atitude não era de teimosia, mas deverá considerar-se correcta, pois que pode ser também usada para designar firmeza. E uma firmeza que se afirma pela necessidade da auto-preservação será sempre de considerar. Todavia, essa situação de nocturnos alvoroços estava a tornar-se cada vez mais assídua, e a alguma solução tinha de chegar, se queria não ficar louca. A voz do corpo era demasiado poderosa, e os medos do espírito quase se diluíam perante esse apelo inequívoco da carne. Mas um novo amor continuava a não lhe parecer a melhor resposta. De facto, a par da saudade do marido morto, crescera nela também um gosto novo, estranho mas saboroso, pela liberdade de que agora dispunha: fazia o que queria, quando e como queria, e a concretização de tal possibilidade ajudara-a em algo que sempre lhe fizera falta: a autoconfiança. A solução intermédia — levar a sua liberdade ao extremo de ter os amantes que lhe apetecesse, mais duradouros ou mais ocasionais, consoante o que cada um lhe sugerisse — também não lhe parecia muito satisfatória, pois podia tornar-se um pau de dois bicos: homens oportunistas, ou chatos, ou cruéis — o risco de se apaixonar de novo, também, enfim, e voltava ao mesmo. Quase tivera um caso com o marido de uma daquelas suas amigas já referidas, numa das poucas festas a que acedera ir, num momento em que se sentira mais desamparada e só. Bebera razoavelmente, e começara a aperceber-se de que as comissuras dos seus lábios se tinham cristalizado numa espécie de sorriso idiota, sem começo nem fim. O homem em questão tinha conseguido vencer o feitiço, em função de uma enxaqueca que lhe reenviara a mulher para casa, e de um sentido de humor algo sofisticado — e um homem com sentido de humor, se não for um perfeito canalha, tem sempre o seu interesse.
Contudo, o dele acabara depressa. Depois de umas quantas gargalhadas, talvez algo estrepitosas de mais, ele convidara-a para sentir o calor da noite no exterior da casa onde se encontravam, com um cigarro e mais uma bebida por companhia. A ausência de olhares comprometedores em redor revelou-lhe um homem bem diferente, que, repentinamente, pareceu querer devorá-la com um beijo vampiresco, e umas mãos semelhantes a tenazes, mas que só logrou entornar-lhe a bebida para cima do vestido e magoá-la. Uma mão em movimento circular, incompleto por ter encontrado o rosto do cavalheiro, e uma fuga mais ou menos discreta, pôs fim àquela semi-aventura.
A partir desse dia, tal tipo de situações, legítimas ou ilegítimas, não mais se tornou a repetir na sua vida. Mas agora, enfim, ela chegara ao ponto em que se impunha, por via de um dilema, nascido no mais fundo de si, uma nova atitude. Uma solução, de vez.
Em dado momento, pareceu-lhe novamente que só a hipótese de se arriscar na senda da maior dor e do maior sofrimento seria legítima, quer ela o quisesse quer não, porque o amor é implacável, sem tempo, idade, cor ou aviso. Até porque o fogo não baixava as suas chamas cegas, e ela acabava por estar a sofrer, fosse como fosse, e nem sequer com proveito. Que fazer, então, que fazer, que fazer, que fazer? Continuar a passar os dias a masturbar-se? As mãos são belas, até nisso, mas a verdade das coisas exige sempre uma justiça própria.
Não havia nada a fazer, de facto, porque podia fazer tudo o que quisesse. Esse é o maior problema da liberdade, para quem não está suficientemente habituado a lidar com ela. E parecia não haver maneira de escapar a tão perverso dilema.

2
Bráuni andava a correr atrás dos pombos, enquanto ela lia. Um vagabundo passou, viciado no estribilho de coleccionador de moedas, para o qual ela contribuiu, quase sem reparar no que fazia. Estava Sol, e havia uma música muito ritmada a tocar ali perto: um grupo de miúdos estendidos na relva, com um gravador grande, a fumar cigarros e a beber cerveja.
Bráuni, de repente, estava sentado a seus pés. Queria ir-se embora, para casa. "Já vamos", disse ela, acariciando-o. Mas, inesperadamente, ela sentiu, sob a sua mão, a cabeça dele a desviar-se bruscamente para a esquerda: um outro bicho da espécie de Bráuni vinha pela vereda abaixo, a farejar tudo o que era recanto. Ela sorriu, quando Bráuni se ergueu e foi ao encontro do outro.
Sempre achara esses momentos em que dois estranhos, animais, livres da animalidade humana, se encontravam, se conheciam e dialogavam, por assim dizer, e por isso ficou atenta à demonstração que se ia desenrolar perante os seus olhos. Depressa se apercebeu de que o outro animal era uma cadela, a qual, algo franzina, estacou, surpreendida na sua busca pelo destino, ao ver Bráuni aproximar-se, com certo galhofeiro abanar de cauda e de orelhas. Apesar desse momento inicial de surpresa, farejaram-se demoradamente, e a rapariga-cão não demonstrou qualquer agressividade: limitou-se a seguir para diante, aparentemente distraída, como turista em avenida à beira-mar, mas sem dúvida atenta aos menores movimentos de Bráuni. Este, não muito dado a tais flirts de rua, soube, no entanto, manter-se à altura, e avançou, qual corcel a galope, ultrapassando a dama, até chegar junto à dona, que olhou por instantes, para logo desviar o olhar para a sua presa, entretanto parada, a cinco metros, provavelmente pouco à espera de tal manobra.
A ponta avermelhada do sexo de Bráuni começava a mostrar-se, e ele avançou. Para a sua dona, aquela visão, embora não sendo inédita, perturbou-a. A cadelita, entretanto, não fez ar menos atónito, embora logo se resignasse, que a vida nas ruas é mesmo assim. Bráuni montou-a, os flancos num vaivém rápido e incisivo.
Minutos depois, tudo consumado, já ele caminhava lado a lado com a sua dona, a língua de fora, preso à trela e a puxá-la. O sol continuava a brilhar, e talvez fosse por isso que ela tinha o rosto vermelho, quase afogueado, e um estranho sorriso nos lábios. Curiosamente, não bebera nada de alcoólico.

3
"Vem cá, Bráuni", disse ela.
Estavam em casa, na sala. Ela despira o casaco, descalçara-se, e estava sentada no sofá. Pusera uma música de fim de tarde a tocar, e bebera dois brandies vagarosos. Pensou que já não tinha desculpa, e isso divertiu-a.
Bráuni aproximou-se. "Anda para o colo", disse ela, com voz terna e a bater na perna, a incitá-lo. Bráuni, sempre disposto a carinhos, depressa lhe obedeceu, semi-sentando-se no seu colo. Ela fechou os olhos e começou a acariciar-lhe o dorso, muito devagar, e depois as patas dianteiras, e depois as traseiras. Bráuni tentou lamber-lhe o rosto, como tantas vezes fazia, e ela riu-se. "Está quieto, doido". Tirou um seio para fora da blusa e para fora do soutien e ficou imóvel, uma mão apoiada sem movimento no pêlo macio. Depois, deixou-a ir deslizando pelo corpo do animal abaixo, até alcançar-lhe o ventre e dar por si a segurar em duas bolas carnudas e rijas. Respirou fundo. Bráuni agitou-se um pouco. A mão dela prosseguiu, até agarrar todo o sexo do animal, oculto sob um tecido vivo curiosamente macio, apesar de todos os pêlos à volta. Inesperadamente, junto ao pulso, qualquer coisa húmida e quente lhe chamou a atenção. Abriu os olhos. Sim, lá estava o bicho avermelhado a espreitar. Bráuni olhava-a, com ar curioso. Tornou a fechar os olhos e desatou a rir às gargalhadas.

4
O cão estava agora sentado a meio da sala, semi-adormecido. Tivera um dia de facto excitante. No entanto, a sua carinhosa dona estava disposta a que tal dia não chegasse rapidamente ao fim. Agora que encontrara a solução pela qual tanto ansiara, tornara-se perfeitamente humana: ia insistir, teimar até atingir o fim que pretendia. Ergueu-se do sofá devagar e foi até ao quarto, onde um espelho grande lhe permitia ver o seu corpo por inteiro. Começou a despir-se e a ver-se, com um vagar que pressupunha uma qualquer testemunha. Mas era ela só, a auto-seduzir-se — a redescobrir-se, afinal, depois de tanto tempo de silêncio, amordaçada na casa do prazer.
Quando se achou totalmente nua, a sua roupa macia e negra espalhada à volta dos pés delicados, quase frágeis, ficou a olhar-se, primeiro como se não se visse, depois de novo com um sorriso nos lábios. Não, não estava embriagada, mas pretendia ficá-lo. Fora atacada por uma loucura inesperada — a qual não era amor, felizmente, notou ela, ainda lúcida — , e sentia que precisava de uma boa dose de coragem para a concretizar. Mas ia fazê-lo. Nada a poderia deter. Tocou-se no sexo e sentiu-se húmida. Estava na hora de regressar à sala.
A música ainda continuava a tocar. Serviu-se de um terceiro e generoso brandy e bebeu-o de um trago só. Por momentos sentiu-se um pouco agoniada, mas conseguiu ultrapassar tal sensação, indo à janela, respirar ar fesco.
Lá em baixo, na rua, os carros e as pessoas tinham um tamanho impossível. O sorriso doido não a abandonou, nem mesmo quando de passagem se reviu, alucinada e nua, frente ao espelho. Estava pronta.
Fechou as cortinas, que mesmo assim deixaram entrar a luz doirada do fim do dia, e foi deitar-se ao lado de Bráuni, cabeça com cabeça, a cheirá-lo, a acariciá-lo no pêlo comprido, macio e brilhante. Bráuni atirou-lhe com a língua comprida e molhada sobre o rosto, e ela, sem hesitar, estendeu-lhe a sua. Era saborosa, a língua do seu cão. Como é que nunca pensara nisso antes? Até porque o seu passado não era propriamente o de uma freira (o marido era um indivíduo com imaginação), e até já tinha ouvido falar de histórias assim. Agora, que se via a ser parte integrante de uma, nenhuma sensação incómoda e moralista a estava a perturbar. E até isso lhe dava prazer.
Bráuni, supondo, por certo, mais um período de brincadeira, que isto de ter dono é sempre um mistério, rebolou um pouco para o lado e ficou de patas para o ar, oscilantes e pendentes, e o sexo exposto, ainda adormecido.
Num ápice, apesar dos gestos inseguros, por causa do álcool já ingerido — nunca fora muito resistente, em tal matéria — , viu-se a virar-se, a aproximar o rosto desse pólo de fogo que a estava a chamar e a cheirá-lo. Cheirava bem. Cheirava a cão: ao seu cão, muito estimado e bem lavado. Estendeu a mão para agarrar o bicho do bicho, e o bicho gemeu baixinho. Começou a acariciá-lo num movimento inequívoco de vaivém, e poucos instantes chegaram para que o bicho saísse da sua toca. Uma vez mais ela esticou a sua língua, e tocou aquele corpo só com a ponta, corpo estranho e pontiagudo, ainda a crescer. Não tinha sabor. De repente, incapaz de se conter mais, abocanhou-o por inteiro e começou a chupá-lo. Bráuni suspirava, enquanto ela levava a mão livre ao seu próprio sexo, cada vez mais inundado. Aquilo na sua boca era uma picha. Aquilo não era um homem, e todavia era uma picha, grande e excitante, toda ela com a macieza de uma glande, um deslizar bom entre os lábios, um grito de selva dentro do peito nu como nunca. Quanto mais chupava mais sentia necessidade de o fazer. E parecia-lhe que Bráuni, com aquele sentido sem número que todos os animais parecem ter para as coisas físicas, não só estava a gostar como também a participar: encostava-se mais, a sua respiração a tornar-se numa espécie de estertor semelhante a êxtase. E de tal modo que, minutos depois, ela sentiu a boca a encher-se de um líquido quente, espesso, de sabor particularmente activo, de tal modo que, por instantes, até talvez por retomar a consciência dos seus fundamentos de mulher normal, lhe custou a engoli-lo. Mas a repugnância, se não for visceral, é apenas como um breve medo com o qual se faz uma breve luta, de antemão perdida. E ela prosseguiu, até tombar para o lado, os lábios brilhantes do esperma de Bráuni, e um calor sem fim entre as pernas.
Deu por uma língua a lamber-lhe o rosto. Abriu os olhos e aceitou-a de novo. Mas não era isso que mais queria, realmente. Ergueu-se um pouco e gatinhou até ao sofá. Sentou-se nele, de pernas abertas, Bráuni a segui-la e ainda a procurar-lhe o rosto com a língua sem fim. Segurou-o com firmeza e puxou-o para baixo. Bráuni, como se amuado, esquivou-se, virou as costas e passeou-se pela sala, o passo incerto, o olhar perdido entre procurar algo e encontrar o olhar dela.
"Anda cá, menino", chamou-o ela, com um sorriso doce e desfocado. Bráuni tornou a aproximar-se, a cabeça baixa, e ela deu-lhe palmadinhas na cabeça e devagar procurou conduzi-lo de novo para onde queria. "Estás a perceber", suspirou ela, quando começou a sentir a língua de Bráuni a recuperar, enfim, de alguma forma, o que ainda agora lhe dera, só pela excitação. E Bráuni continuou e continuou, até já não poder mais, pois o seu poder era uma espécie de ternura só feita de inocência. E ele voltou ao rosto dela, como um amante, o sexo bem teso a roçar-se sem intenção aparente pelo dela. E então ela puxou-o para si e sentiu-se penetrada, e Bráuni, com o seu magnífico instinto bem desperto, começou a balançar-se dentro da sua cona. "A minha cona", quase gritou ela.
Soltou-se, de repente, e deixou-se cair para o chão, apoiada agora nas mãos e nos joelhos.
Sim, Bráuni estava mesmo a perceber, a sentir, pois penetrou-a de novo, ainda mais poderoso.
"Sim, querido", exultou ela. "Sim, fode-me. Ah, ah, estou a vir-me!..."
As patas dele prendiam-se de ambos os lados das suas costas, quase a tocar-lhe nos seios, e ela levou uma mão ao sexo e sentiu, centímetro a centímetro, o que a estava a pôr feliz. "Vá, vá, vem-te!"
A saliva de Bráuni caiu-lhe sobre as costas, e o seu esperma tornou a enchê-la, agora em outra taça. Deixou-se tombar, e ficou imóvel. Bráuni andou à sua volta, e tornou a lambê-la no rosto, a acordá-la, como se receasse que ela estivesse morta, e ainda a lambeu no sexo, por um breve instante, indescritível.
A alcatifa era macia, e de seda o seu prazer proibido. Bráuni, exemplarmente ensinado, correu para o seu caixote, para urinar, enquanto ela pensava que, agora, já podia tornar a aceitar o amor de alguém.

COISAS DOS JORNAIS

1
Juliu comprou por acaso aquele jornal num quiosque à saída do restaurante onde habitualmente almoçava. Bom, por acaso não foi bem: a mulher que surgia na capa, nua, uma mão no sexo e outra a envolver um seio, era de uma beleza estonteante, e ele não lhe conseguira resistir. No interior, nas páginas centrais, mais três fotografias da mulher em questão, em outras posições ainda mais explícitas, faziam plena justiça à forte impressão inicial que ela lhe causara.
Não pretendia ler os artigos — já conhecia aquele tipo de prosa, de ler outros jornais assim, à espera da sua vez no barbeiro —, mas tão só guardar as fotografias, e mandar o resto fora. No entanto, essa tarde no escritório foi de uma pacatez exasperante, e ele, sem nada mais que fazer, acabou por estender as pernas e abrir o jornal, que, dada a lentidão das horas a passar, acabou por ler todo. Claro que era uma daquelas publicações manhosas, todas feitas na pretensa redacção, por um tipo ou dois, com histórias de sexo aparentemente contadas pelos leitores, um correio psicológico-sentimental, um horóscopo das energias libidinosas em evidência na semana, fotografias de origem diversa mas suspeita e, enfim, publicidade a artigos para uso erótico (cremes lubrificantes, vibradores, vaginas artificiais, as melhores revistas e os melhores filmes do género, etc.) e anúncios dos leitores, completamente grátis, a convidarem-se uns aos outros para umas cambalhotas mais ou menos licenciosas ou escabrosas. E foi precisamente aí que uma certa mensagem o surpreendeu. Lia-se a páginas tantas: "Jovem bissexual do sexo masculino procura pessoas de ambos os sexos para amizade. Escreve-me para o Apartado XXX e conta-me o que mais gostarias de fazer. Liberta as tuas fantasias e se possível envia foto. Um abraço e até breve". Ora o Apartado referido na mensagem era, inequivocamente, o de um amigo seu. Estava certo disso porque, por razões de trabalho, já se vira na situação de enviar correspondência para lá.
Jovem bissexual? Aquela deu-lhe uma certa vontade de rir. A identidade secreta do personagem. O Super-Homem é Clark Kent, e Clark Kent é um jovem bissexual, e o jovem bissexual confessa-se num jornal, que só por acaso não se chama Daily Planet.
Já se conheciam há muitos anos. Ele agora era um nome promissor no mundo da publicidade, enquanto o seu amigo se ia preparando para se transformar num (se não no) líder da subcultura da país, se era que tal expressão designava alguma coisa mais que a mera recusa em alinhar com as manifestações e realizações culturais conformes com a mentalidade vigente, moral, normal, cristã, democrática, comercial e superficial.
Seria a sério, aquele anúncio? Ou apenas mais uma "experiência intelectual"? Ou, o mais interessante, ambas as coisas?
Juliu, perante tal dúvida, teve uma ideia, que desde logo o deixou divertido para o resto do dia, tanto mais que, pelo que lhe parecia, tinha a tarde livre para a pôr em prática.
Assim, saiu e foi ao posto dos Correios que ficava perto do escritório. Quando tornou a sair de lá, também ele já tinha um apartado. Agora, era só começar a tratar da correspondência. De facto, a sua ideia era responder ao anúncio do amigo, simulando ser outra pessoa. A primeira carta iria sem fotografia. Depois, com o auxílio do atelier da empresa, iria forjar umas quantas imagens sugestivas, de modo a que o apetite do outro fosse sempre crescendo. Quem iria ser? Homem ou mulher? Gostaria de experimentar ambas as hipóteses, pois só assim a coisa se tornaria realmente divertida. Mas, para a poder concretizar, precisaria de outro apartado. Decidiu tratar disso no dia seguinte, em outra estação de correios. Para já, entretanto, seria uma mulher, e chamar-se-ia Lygya: Lygya Râmus. E Lygya ia ter vinte e três anos, ser loira, top model e bissexual. Que altura teria o amigo? À volta de um metro e setenta. Um centímetro ou dois mais, talvez. Lygya ia ser, então, um mulherão de estalo, com um metro e setenta e oito e cento e três centímetros de peito, olé. Juliu estava a começar a sentir-se excitado ele próprio, com medidas tão generosas. Lygya estava quase a tornar-se visível, na sua mente imaginativa, e era mesmo agradável de se ver. Faltava agora pôr-lhe alguma coisa dentro da cabeça, e depois escrever a primeira carta. Qual era o seu sonho? Ter uma grande loja de roupa, criar modelos seus, organizar passagens com eles, ir muitas vezes ao estrangeiro e passar férias numa qualquer ilha tropical. Haveria sempre muitas raparigas bonitas à sua volta — modelos, claro — e todos os meses daria uma grande festa em sua casa. Para além disso, gostava de ler (aqui, nada de autores da moda — e isso seria um isco armadilhado para o amigo —, que bom, até iam ter gostos comuns em literatura, que aquilo não podia ser só ele gostar de mamas e ela tê-las), de cinema e de teatro experimental. Juliu gostou muito desta: teatro experimental era mais que um engodo; era uma armadilha inteira. Quanto a fantasias, assombravam-na algumas: gostaria, por exemplo, de ser filmada a masturbar-se, e depois a fazer amor. E que mais? Não poderia parecer muito puta. Bom, a fantasia mais secreta de todas era a de, alguma vez, vir a fazer amor com dois homens ao mesmo tempo. Fã incondicional do sexo anal e oral, acreditava que tal experiência iria ser algo de absolutamente delirante, se é que não lhe ia mesmo mudar a vida por completo.
Juliu lembrou-se de que o amigo — de quem era praticamente vizinho: viviam a meia dúzia de quarteirões de distância um do outro, e cruzavam-se muitas vezes na rua — andava agora muito acompanhado por um tipo qualquer que estava sempre lá em casa (e que não tinha nada ar de santinho), a ponto de tal amizade ter tomado já um contorno algo suspeito. Se calhar aquela coisa da bissexualidade era mesmo a sério. Enfim — um pouco de ingenuidade e inocência para dar o tempero final —, só perdera a virgindade aos vinte e um, com um namorado com que se relacionara apenas durante três meses, e depois nunca mais tivera nada com homem nenhum, nem sequer uma daquelas aventuras ocasionais e atribuladas que o público em geral supõe ser o pão nosso de cada dia de uma modelo.
Em meia hora, a carta ficou pronta, com a letra muito certinha do computador, e uma assinatura manual cheia de curvas, quase ilegível. Lygya Râmus acabara de nascer, e já era uma mulher. Juliu fechou o envelope, muito orgulhoso do seu trabalho.

2
No dia seguinte, enviou a carta, tratou de obter o segundo apartado e, inspirado, escreveu a segunda carta de Lygya, dizendo-se muito excitada com tudo aquilo, e que por isso, antes mesmo de receber resposta, decidira escrever novamente, para lhe enviar uma fotografia sua, a qual Juliu, com a cumplicidade de um colega e graças às maravilhas da técnica, forjou a partir de uma daquelas revistas só para homens que as mulheres também espreitam (do mesmo modo que os homens fazem com as que são só para mulheres), com raparigas muito nuas e artigos muito pertinentes acerca das mulheres que os homens preferem, dos dez processos seguros para evitar as doenças venéreas e da forma como um homem se pode tornar um sedutor irresistível, seja no Verão seja no Inverno. Numa fotomontagem sem mácula, vestiram portanto uma mulher nua, com uns trapos simpaticamente decotados e bem ajustados às curvas fórmula um do corpo do protótipo, e Lygya Râmus ficou pronta para prosseguir a sua pérfida missão. Mais tarde, tornariam a despi-la outra vez, para a cena final.
Prontas estas delicadas tarefas, dedicou-se Juliu à construção do seu segundo personagem. Este chamava-se Pêdru Hayres, tinha um metro e setenta, era moreno, musculado e com um caralho que, quando em erecção, atingia a marca solidamente afirmada dos vinte centímetros. Tinha vinte e sete anos e era professor de equitação. Nunca tinha tido relações com outro homem, mas sentia uma grande curiosidade em relação ao assunto. (Juliu quase conseguia ver o amigo a ler a carta e a dizer logo para os seus botões, muito decidido: "Ah, não tens experiência? Então despe lá as calças que eu já ta dou". A ideia repugnou-o um pouco, mas farsa é farsa, e não era um prurido da sua imaginação que o ia impedir de prosseguir). Pêdru ganhava bem, tinha um carro desportivo e uma casa na praia — voluntariamente se esqueceu de referir em qual — , e os seus maiores interesses, depois dos cavalos, eram as mulheres bonitas (conhecia imensas), a música (tocava piano) e a pintura (também pintava, mas, nessa área, não se achava grande coisa).
Juliu decidiu seguir com este personagem o mesmo processo que seguira com a vaporosa Lygya, mas, desta feita, iria esperar pela resposta. Para a fotografia, faria logo um nu (de si mesmo), da cintura para baixo e caralho para cima. Tinha um pequeno estúdio de revelação de preto e branco em casa, e por isso ser-lhe-ia fácil fazer essa fotografia. Depois, de novo com o auxílio do colega de trabalho, fariam outra, a partir de uma revista pornográfica, em que se veria um tipo (teria que ter um corpo semelhante ao seu, claro) a foder com uma mulher, de preferência com um corpo bem desenhado, para o outro ver que aquela história de conhecer imensas mulheres bonitas não era letra morta. No reino ficcional da missivas em curso, diria o personagem de papel que, se se chegassem a encontrar, ele, o grande professor de equitação, não se iria importar de lhe apresentar algumas. Mas isso ficava guardado para a carta seguinte, e por isso Juliu fechou aquela, juntou-a à segunda de Lygya e deu por concluída a primeira fase do seu plano. Agora, era só enviá-las e aguardar as respostas. A curiosidade de as conhecer já estava a matá-lo.

3
Morreu ainda mais, um pouco todos os dias, durante uma semana e meia, até que a primeira carta do amigo chegou. Lygya era a sortuda.
Juliu leu a carta logo ali nos Correios, tão grande era a sua expectativa. O amigo começava por agradecer a resposta dada ao seu anúncio. Depois, e embora nunca a tivesse visto, a não ser em fotografia, passava logo ao elogio da sua beleza (cento e três centímetros são cento e três centímetros). Quanto a gostos, estavam conversados: eram como almas gémeas. Sim, ele queria conhecê-la, queria ser ele a satisfazer-lhe as fantasias, queria, queria, queria tudo. E, como prova da sua boa fé, enviava-lhe o seu número de telefone, a par de um convite para irem juntos verem uma peça de teatro que estreara há pouco tempo, e que toda a crítica elegera unanimemente como a melhor produção a que tinha assistido desde há alguns anos.
Juliu decidiu entrar no jogo tal como lhe era sugerido na carta. Num almoço mais bem regado que o habitual, contou a história toda a uma colega, que, divertida com todo aquele enredo, concordou em fazer um telefonema como Lygya, a pedir desculpa por não poder ir com o amigo de Juliu ao tal espectáculo, mas o caso é que andava com imenso trabalho. Além disso, ela devia, nunca deixando de ser amorosa e sedutora, frisar que, não obstante estar muito interessada em levar avante um relacionamento entre os dois, preferia, dada uma má experiência tida no passado (aquele namorado de que já lhe falara, que a sodomizava a seco — aquela linguagem de lavandaria a fazê-los rir a bandeiras despregadas — e que a traíra com outras mulheres), manter ainda por algum tempo os seus contactos através de carta e, eventualmente, por telefone (mas seria ela a telefonar), para primeiro se conhecerem melhor, antes de avançarem para algo mais sério. Mais: ela gostaria que ele também lhe mandasse uma fotografia. Duas, de facto: a segunda — e aqui ela deveria hesitar, por pudor — nu.
A colega de Juliu esteve um bocado a decorar o seu papel, e depois fez o telefonema. O telefone que estavam a utilizar permitia que as conversas se ouvissem para fora do auscultador, e foi assim que eles fizeram (depois de fecharem a porta do gabinete), de modo a que Juliu também pudesse escutar o desenvolvimento da novela.
O amigo de Juliu atendeu, e Lygya começou a debitar o combinado. Estava todo a desfazer-se em baba, o palerma do outro lado. Insistiu para que se encontrassem, fosse como fosse, mas a colega de Juliu foi inflexível. Inflexível e cruel: depois de lhe ter pedido as fotografias — a hesitação pudorenta saiu na perfeição — , perguntou, em tom malicioso:
— Sabes o que estou a fazer?
— Não.
— Estou a... a tocar na minha coisa.
Ela tinha lido as cartas de Lydya, de que Juliu fizera cópias, e estava a par das fantasias do personagem.
— Estou a usar um vibrador — suspirou ela. — Sinto-me tão quente.
— Se estivesses comigo ainda te irias sentir mais quente — disse a voz do outro lado, a ficar em tons de sussurro ao ouvido.
— Tornaremos a falar disso. Um beijo. Agora tenho de ir.
E desligou.
Juliu estava espantado com a colega, a qual, a propósito, se chamava Suraya.
— És uma actriz nata — declarou ele, convicto.
— Oh, isto não foi nada. Puro divertimento. Vamos continuar, claro?
— Claro.
E Juliu, a imaginar que a via a tocar-se na coisa, decidiu convidá-la para jantar.
— Para comemorar — disse.
Ela aceitou. Depois do jantar, foram para casa dele, e acabaram por dormir (dormir é eufemismo, claro) juntos.
No dia seguinte, foi a vez do fictício Pêdru receber resposta. Dizia o amigo de Juliu que também gostava muito de cavalos, de mulheres e de música (até tinha tocado bateria num grupo de rock, quando tinha dezasseis anos). Mas na pintura é que eles, com certeza, se iriam entender. E aí fazia ele desfilar uma lista dos seus pintores preferidos. Dizia mais, até: que já fizera uma série de exposições, e que tinha quadros para vender.
Juliu reconheceu claramente o amigo: era típico dele aquele género de esquemas, sempre à procura do lucro, sempre com grandes ideias, e sempre a não conseguir levá-las para diante, porque havia sempre alguma coisa que falhava.
Prosseguiu. Vinha agora o convite para se encontrarem, depois de referenciar que o seu pénis não era assim tão avantajado, mas que as mulheres o costumavam achar muito viril. "Responde e um abraço", terminava ele, muito fraternal. E, neste caso, não enviava o número de telefone. Claro, o que eram vinte centímetros contra cento e três?
Quando entrou no escritório, Suraya veio logo ter com ele, saber de novidades, enquanto, subrepticiamente, lhe apalpava o caralho.
Ele deu-lhe a carta a ler, mas ela disse que primeiro queria chupá-lo. Juliu estava mesmo admirado com o modo como ela se transformara. Até parecia que só tinha estado à espera de um pretexto para se revelar perante ele, e que ele, ingenuamente, lho dera de bandeja.
Tornaram a dormir juntos, mas antes tiraram a fotografia do caralho dele em pé, para o que ela muito contribuiu, nua e de pernas abertas à sua frente, a acariciar-se. Suraya era mesmo uma esfomeada, de tal modo que nessa noite só adormeceram às três da manhã, ao ritmo de uma foda por hora, com começo anotado (uma olhadela lateral e sem razão de Juliu ao relógio sobre a mesa-de-cabeceira) por voltas das dez.

4
No dia seguinte, enviou a carta com a fotografia do famigerado Pêdru, esse garanhão das praias desertas, e voltou a industriar Suraya para um novo telefonema enquanto Lygya, o qual ela logo concretizou.
— Olá, sou eu, a Lygya. Então, as fotografias que te pedi já vêm a caminho?
— Já. Mandei as duas, tal como me pediste.
— Vê-se tudo bem?
— Logo verás. Então, quando é que nos encontramos?
— Em breve. Espero que tenhas escrito uma carta bonita.
— Todas as minhas cartas são bonitas.
— Tens tido muitas respostas ao teu anúncio?
— Algumas. Mas a tua foi a melhor.
— Cuidado com os bissexuais.
— Hã?
— Não são de confiança.
— Ninguém é.
— Vês? Até contigo vou ter de ter cuidado.
E continuaram assim mais um bocado, a falarem sem nada dizerem, até que Suraya, brusca, uma vez mais, disse que tinha de desligar, e desligou. Depois virou-se para Juliu e disse:
— E agora vou chupar-te.
Mas ele impediu-a, enchendo-lhe a boca de beijos.
Nessa tarde, com o auxílio do colega perito em fotomontagens, Juliu fez as duas fotografias que faltavam (uma de Lygya, nua, e outra de Pêdru, envolvido numa aula de equitação sem cavalo mas com senhora), e depois saiu mais cedo, de modo a evitar Suraya. Sentia-se cansado, mas não queria dizer-lho. Começava a achá-la uma mulher estranha em demasia para o seu gosto (tarada, pensou ele, mais do que uma vez), e agora tinha de começar a pôr alguma água fria em toda aquela fervura, antes que as coisas fossem longe de mais, pois ele não estava a ver-se envolvido com ela numa relação de facto séria.

5
As duas semanas seguintes decorreram, para Juliu, a um ritmo alucinante. Pedia desculpa a Suraya por ter feito isto ou dito aquilo, e depois punha-a a fazer novos telefonemas, e à noite faziam amor, e no dia seguinte ele escapulia-se outra vez da vista (e do corpo) dela. Chegaram entretanto as fotografias, e Suraya achou que o amigo dele até nem estava muito mal, embora fosse, talvez, um bocado mais para o gordo do que aquilo que ela achava razoável num homem.
Nesse mesmo dia, Juliu enviou a fotografia em pêlo da hipotética Lygya, no esplendor de todos os seus centímetros, e com um tufo de pintelhinhos loiros que dava mesmo gosto ver. Como dias antes, em relação ao inventado Pêdru, já enviara o close-up do seu pénis em garbosa pose, agora era só vir a resposta na volta do correio para enviar a fotografia que faltava, e encerrar, assim, a segunda fase do plano.
Suraya disse que tinha um amigo homossexual, do tipo passivo-activo (ou seja, do tipo de ir a todas), e que podiam enviá-lo a casa do amigo de Juliu, fazendo-se passar pelo fulano que lhe enviava as cartas, e o seu amigo, garantiu ela, de certeza que ia alinhar nisso, porque ele adorava este género de coisas, e, além disso, era mais uma foda que dava, o que é coisa que sabe sempre bem a qualquer um, etc. Bastava que ele lhe desse a morada do outro, que ela tratava do resto. A Juliu agradou a ideia, mas sentia que aquela era só uma forma (mais uma) de ela se envolver ainda mais com ele. Apesar de tudo, cedeu à tentação de levar a brincadeira avante em tais moldes.
— E como é que o teu amigo sabe a morada? — lembrou ele.
— Através do apartado — disse ela. — Um suborno ou uma cunha nos Correios. Com dinheiro tudo se consegue, penso eu.
Depois, os dias a passarem, era ele que já não largava Suraya, para saber as novidades. Três dias mais tarde, enfim, já ela tinha muito que contar: o seu amigo tinha visitado o amigo de Juliu, que o tinha recebido muito bem. Tinham conversado e bebido uns quantos whiskies, e depois o amigo de Suraya tinha convencido o outro para que o deixasse fazer-lhe um broche. O broche foi feito. Depois o amigo de Juliu, aproveitando o balanço, enrabara o outro, e era tudo.
— Só isso?
— O que é que querias? Que se tivessem enrabado um ao outro?
Não: o que Juliu achava é que ela lhe estava a mentir. Mas não lho disse.
Fez a última carta do personagem Pêdru (agora já sem muito interesse, caso ela estivesse a falar verdade, mas enfim) e enviou-a.
À hora de sair, apercebeu-se de que era agora Suraya que se estava a escapulir dele. Seguiu-a, discretamente.
Alguns minutos mais adiante, já ele se sentia certo de que ela lhe mentira: estava a ir para casa do seu amigo. Ou então aquele percurso era uma grande coincidência.
Mas não: ela parou mesmo à porta do amigo, e tocou à campainha, e entrou.
Agora estava tudo estragado, pois com certeza ela já lhe tinha contado tudo. Não que isso constituísse algum mal — no fundo, não passava de uma brincadeira — , mas agora ele já não poderia continuá-la até ao fim.
Foi para casa, e esteve a beber até à hora do fecho da emissão da TV, que viu sem ver.
De repente, tocaram à campainha. Foi atender. Era Suraya.
Começou logo a chamá-la traidora, e disse-lhe que a tinha seguido. Ela, por sua vez, chamou-lhe porco, e ele deu-lhe uma bofetada. Ela quis sair, mas ele impediu-a. Queria saber o que é que ela dissera ao seu amigo.
— Não disse nada — quase gritou ela, lacrimosa.
— Então sob que pretexto é que o foste visitar?
— O que é que isso te interessa? Eu sou traidora e pronto, não é?
— Não. Diz.
— Vais acreditar em mim?
— Talvez. Depende de ti.
— Disse-lhe que era uma prima da Lygya, e que lhe apanhara as cartas.
— E a morada dele, como é que a sabias?
— Através do número de telefone, claro. Estás parvo ou quê?
— Fodeste com ele?
— Fodi. Bom, não propriamente.
— Não propriamente? O que é foder “não propriamente”? Eu só conheço sim ou não.
Ela não respondeu. Abriu a mala e mostrou a Juliu um pénis artificial, ligado a um cinto que possibilitava que alguém o segurasse no seu corpo, no local onde habitualmente está, se considerarmos o peculiar caso dos homens.
— Fodi com isto — disse ela. — Fodi-lhe o cu com isto.
Juliu deu uma gargalhada.
— É inacreditável.
A brincadeira continuava, afinal.
Com uma voz muito meiga, Suraya perguntou-lhe então:
— Deixas que te foda também assim? É uma fantasia minha.

O QUERIDO PAI

1
AuGustu separara-se da mulher quando Lydya fizera oito anos, e esta ficara com o pai, por decisão judicial, dado que a mulher de AuGustu fora considerada, pelo tribunal, como circunstancialmente pouco responsável pelos seus actos. Ficara provado, de facto, que o seu comportamento instável e leviano — pouco faltou para que a apelidassem de ninfomaníaca, ou até pior — não lhe permitiria constituir o ambiente familiar saudável que a educação de Lydya requereria, nos anos mais próximos. Ficou AuGustu incumbido, portanto, da árdua tarefa de, sozinho, cuidar da educação de Lydya, à qual, após o tempo que diariamente gastava no seu trabalho, ele se dedicou de alma e coração. Talvez por isso, e embora possa parecer contraditório, não tornou a casar, não obstante ter tido, pelo caminho, umas quantas aventuras sentimentais, nenhuma delas de importância muito significativa. E foi isto de tal modo que ele se habituou: mulher, lá em casa, já ele tinha uma — Lydya ajudava-o sempre, tanto na lida da casa (AuGustu nunca apreciara a ideia de ter alguém de fora, criada, cozinheira ou mulher da limpeza, a trabalhar para si, em sua casa) como na organização dos gastos a fazer — e, continuando AuGustu com boa figura e em boa forma física, as tais aventuras que fundamentalmente se protagonizavam na cama, e que o ajudavam a manter o necessário equilíbrio psicossomático, foram acontecendo com parcimónia e espaçada regularidade.
Assim alguns anos se escoaram, uns após os outros. Fizeram férias no estrangeiro, AuGustu subiu de posto no seu trabalho, por duas vezes, e Lydya, na escola, foi sempre passando de ano, com boas notas. A mãe, essa, acabara por se esvanecer algures, entre o tempo e o espaço, até desaparecer por completo, mas isso parecia não afectar a rapariga. Às “amigas”do pai que iam lá a casa, uma vez por outra, fazia ela sempre questão de as receber da melhor forma possível. O pai, por sua vez, abria as portas a todos os amigos dela, do liceu e da rua onde viviam, com a devida sobriedade nos dias comuns, e completamente festivo por ocasião do aniversário dela, do dele, do Ano Novo, ou de qualquer circunstância que se mostrasse favorável a uma comemoração especial.
Lydya, agora com quinze anos, estava uma mulher feita, alta, com o corpo já nitidamente arredondado nos sítios certos, apesar de o rosto revelar ainda uma frescura e uma candura quase infantis.
À noite, às vezes, ela e AuGustu sentavam-se no sofá grande da sala, a ver televisão, ou apenas a conversar.
Numa dessas noites de modorra caseira, após o duche, Lydya, com certos cuidados de rapariga a fazer-se mulher, alisou o cabelo comprido, castanho claro, e, descalça, em camisa de dormir, foi sentar-se no sofá, como de costume. AuGustu perturbou-se quando, ao olhá-la, viu, à transparência do tecido fino da camisa de dormir, os seios de Lydya, muito redondos, cheios e erguidos — de facto, parecidos com os da mãe. Estava a passar no écran um filme particularmente interessante, e Lydya não despegava os olhos do écran, do mesmo modo que AuGustu não despegava os olhos do seu peito (ou seja, afastava o olhar e logo lá regressava, como pedaço de ferro a pedaço de íman).
Nessa mesma noite, perto das quatro da manhã, AuGustu deu por si a acordar, de repente, e quando conseguiu ver alguma coisa mais que a escuridão em que o quarto se encontrava mergulhado, distinguiu sobre si o rosto de Lydya, que lhe perguntava:
— Então, não se sente bem?
— O que é que se passa?
— Não sei. Estava a sonhar, com certeza. Falou tão alto que me acordou.
— O que disse eu?
— Não se percebia bem. Só entendi as palavras “não pode ser, não está certo”.
— Deve ter sido um pesadelo.
— Foi o que me pareceu. Quer tomar alguma coisa? Um chá, talvez?
— Não, sinto-me bem.
— Está a transpirar.
— Está calor. Anda, vai deitar-te. Eu fico bem, a sério.
Ela ergueu-se.
— Está bem — disse. — Mas se precisar de mim, é só chamar.
Lydya foi-se deitar, mas o pai ficou acordado ainda mais uma hora. Lembrava-se do sonho: neste, via-se a beijar a filha, a despi-la... E ela a aceitar tudo isso, naturalmente, até ao momento em que era ele próprio que recuava, horrorizado. E fora assim que acordara. Aos gritos, assustado.
Tentou tornar a adormecer, tranquilizando-se com a ideia de que aquilo não passava de uma fantasia passageira, mas só conseguiu conciliar o sono muito tempo depois, já com o dia quase a nascer.

2
Dois dias mais tarde, de manhã, estava ele a entrar na casa-de-banho, para se barbear e tomar duche, quando viu a cortina da banheira a abrir-se e Lydya a sair lá de dentro, nua, molhada e bronzeada. Estacou, mas Lydya agiu como se não o tivesse visto também: apanhou a toalha, enrolou-se nela e começou a limpar-se. AuGustu pigarreou.
— Bom dia — disse Lydya, jovial e inocente. — Estamos quase de férias.
AuGustu decidiu aderir a esse tom despreocupado.
— Estamos? — perguntou.
— Os dois, quero eu dizer.
— Ah, sim. Mas até lá o que eu quero é ver sempre esta casa num brinco. Entendido, mamã?
Chamava-lhe assim muitas vezes, e sabia que Lydya o estava a entender. Aquela era uma boa aprendizagem: ser dona de uma casa, aprender a geri-la nos mais ínfimos pormenores. Sem dúvida que era algo que lhe iria ser útil para o futuro, quando ela tivesse uma casa — uma vida — própria.
— Tens razões de queixa?
— Não — disse AuGustu, já a barbear-se. — Nem quero ter, é só isso.
— Pois eu tenho. Apesar de seres meu pai, és como todos os homens: deixas a roupa suja em qualquer lado, não limpas a bacia do lavatório quando lavas os dentes e quando mijas sujas a tampa da sanita.
AuGustu, surpreendido, não pôde deixar de rir.
— Mas tu andas muito bem informada, menina. Que escola é a tua?
— A das mães das minhas amigas. A conversa delas para os maridos é sempre esta.
— Está bem — aquiesceu ele, ainda a sorrir. — Prometo que vou passar a ter mais cuidado com essas coisas.
— Assim é que é. Apesar dos tais maridos dizerem exactamente o mesmo. Bom, agora vou vestir-me e fazer o pequeno-almoço.
AuGustu esquecera já o sonho que tanto o perturbara, tanto mais que Lydya também não tornara a tocar no assunto.
Quatro dias depois, no entanto, lembrou-se novamente dele quando, por mero acaso, ao passar, deu com a filha de olhos fechados a cheirar-lhe as cuecas sujas, que ele pusera para lavar, desta vez, e como prometera, no cesto respectivo. E o que ele viu não foi só isso, mas os seus seios sob a combinação semi-transparente e as imagens todas do sonho, os beijos, a combinação a escorregar pela pele macia dela e a cair para o chão. Com o coração aos pulos, seguiu para o quarto. O que é que estava errado? Ele? O desejo dele? Mas havia desejo nele por ela? E ela, porque é que ela lhe estava a cheirar as cuecas, de olhos fechados, inebriada? Poderia ele pensar mesmo “inebriada”? Quando se cheira alguma coisa e se fecha os olhos, o que é que se está a sentir? Que imagens pululam à solta pela cabeça? Que devia ou podia ele supôr? Tentou achar nos seus pensamentos um qualquer fio que o conduzisse da confusão à clareza. Que idade tinha Lydya? Quinze. Ia fazer dezasseis. Com essa idade, como tinha sido ele próprio? Já não se lembrava muito bem. Mas claro que devia ter a cabeça cheia de sonhos e fantasias. E claro que já olhava com aquele olhar muito peculiar para as raparigas. Afinal, os tempos mudam, mas há coisas que ficam sempre iguais. Ela devia estar a sentir o mesmo: as conversas “secretas” com as amigas, a atracção pelos rapazes, um qualquer que a olhava então mais atentamente. E ele que só sentira uma energia secundária a sair dela, irresistível mas com outras direcções... Como é que pudera descurar a atenção sobre a filha, nesse aspecto tão importante da vida de uma adolescente?
Respirou fundo, de puro alívio, agora que entendera o que se passava. Ia ter de falar com ela o mais depressa possível. Ainda nessa mesma noite, decidiu ele. Depois do jantar.

3
Depois de terem estado juntos a lavar e a enxaguar a loiça, enquanto conversavam acerca das coisas do dia, sentaram-se ambos à mesa, de novo, desta feita à volta com papéis, ele com trabalho que trouxera do escritório, e ela com os livros e os cadernos da escola.
AuGustu, apesar da sua decisão, não sabia bem como introduzir o tema. Frente à página três de um relatório pouco convincente, optou, inesperadamente, por uma abordagem directa.
— Lydya — começou ele.
— Sim?
— Queria falar contigo acerca de uma coisa. Abertamente.
Lydya levantou os olhos do seu caderno aberto numa página cheia de notas a tinta verde e vermelha.
— Então diz.
— Bom, eu estive a pensar. Estás quase a fazer dezasseis anos, e há alguns aspectos da tua educação que me parece tenho vindo a negligenciar. Quero com isto referir, especificamente, tudo o que diz respeito à sexualidade. — Olhou para a filha, à espera de um qualquer sinal para continuar. Mas ela falou:
— Já tive umas quantas aulas de Biologia, sabes? — Sorriu. — Sei muitas coisas agora acerca das flores, das borboletas, dos passarinhos e da cegonha que vem de França.
— O ensino está a evoluir.
— Exactamente.
— Mas há coisas que por lá nunca se dizem, creio.
— Oh, isso interessa-me.
Apoiou-se nos cotovelos e debruçou-se para a frente, com particular entusiasmo. AuGustu pigarreou, antes de começar com a sua prelecção. Não queria parecer cabotino, nem queria soar demasiado liberal. A conversa continuou baseada num jogo, por vezes equívoco, de perguntas e respostas. Por exemplo: já se sentira ela atraída por alguns rapazes? Não, não tinha namorado. Mas atraída como? Não sei, atraída. Os olhos, os cabelos, a forma de ser. O corpo.
Tudo normal, ia concluindo AuGustu, apesar de, por uma ou duas vezes, lhe ter vindo à memória a imagem de Lydya a cheirar as suas cuecas.
Afastou tais confusões com mais um discurso, afinal uma baralhação, acerca das diferenças entre o amor e o sexo. Lydya disse que era coisa que lhe era difícil de entender.
— Creio que temos aí uns livros com umas boas imagens — disse AuGustu.
— Pois — queixou-se Lydya. — Uns quantos esquemas e uns quantos desenhos que até parecem feitos para ilustrar a Bíblia.
Augustu corou um pouco.
— Tu estás muito atrevida.
— Não. Apenas não tenho paciência para hipocrisias. Eu gosto de ti, tu de mim, e não devíamos ter segredos um para o outro. Porque é que não me mostras antes aquelas revistas que tens escondidas no teu armário? E um daqueles filmes, hum...?
AuGustu abriu a boca de pasmo, corou decididamente, e acabou em riso.
— Tu és mesmo um diabinho — disse, enfim. Mostrava-lhe o que ela pedira ou não? E porque não? Que melhor forma de ilustrar o que estivera a tentar explicar-lhe, desde que fizesse os devidos enquadramentos?
— Está bem. Mas tens de prometer que também me vais escutar com muita atenção. Afinal, já viste tudo isso, segundo me parece.
— Não, só as capas e os títulos — mentiu Lydya.
AuGustu foi ao quarto buscar as revistas. Quando retornou à sala já Lydya ligara a TV, o vídeo e pusera uma cassette pronta a rodar. Sentaram-se um ao lado do outro e começaram a folhear uma das revistas.
— Sabes o que eles estão a fazer?
— Estão a fazer amor — respondeu Lydya, muito expedita. — A mulher é muito bonita. Porque é que as pessoas se deixam fotografar a fazer estas coisas?
AuGustu explicou-lhe: por dinheiro. Por isso, só por delicadeza de linguagem poderiam dizer que estavam a fazer amor. Seria talvez mais correcto dizer: estão a fazer sexo. E qual a diferença? A diferença estava no amor. Aquelas pessoas ali nas fotografias não se amavam. No seio de um amor verdadeiro, o sexo era algo muito melhor, muito maior, algo que dava equilíbrio, paz e felicidade.
Viram mais duas revistas. Numa delas, um homem entretinha-se com duas mulheres ao mesmo tempo; na outra, era o contrário, dois homens e uma mulher.
— Isto é muito estranho — comentou Lydya. — Dá a impressão de que há sempre um que acaba por receber menos atenção.
AuGustu aproveitou o comentário da filha para se lançar em mais uma dissertação, onde vieram à baila temas como sexo natural e contranatura, adolescência e namoro, virgindade e gravidez, autoconhecimento, maturidade, prazer, desejo, sonhos eróticos, beleza, prostituição, homossexualidade, carências afectivas e tantos mais que seria ocioso estar aqui a enumerá-los a todos. Ia-se interrompendo de vez em quando para confirmar que Lydya estava a perceber tudo o que ele dizia.
Finalmente, passaram ao filme. Era como nas revistas: não havia amor no que estavam a ver. Mas percebia ela como se fazia? Percebia ela o que era o sexo de um homem e o sexo de uma mulher e como se juntavam e se moviam e percebia o prazer e o suor e os gemidos e o esperma? Sim, ela estava a perceber. E o que é que tudo aquilo lhe fazia sentir? Não sabia dizê-lo bem, era tudo tão novo para ela. Uma coisa estranha na barriga.
AuGustu sorriu. Lydya estava esclarecida.

4
Quinze dias se tinham passado sobre aquela noite. Lydya continuava a cheirar as cuecas sujas do pai, e ele tornara a vê-la a fazê-lo, mas nada disse. As suas rotinas permaneciam as mesmas. Quando viam filmes na televisão, ela gostava de se encostar a ele, ou de enroscar-se-lhe no colo, uma mão a entrar-lhe por baixo do casaco de pijama e a brincar-lhe com os pêlos do peito. AuGustu sentia os seios de Lydya a roçar nele, e aquelas carícias displicentes mas muito macias excitavam-no um pouco, mas, agora que Lydya já conhecia os mistérios do sexo (agora que estava preparada para não confundir os sinais de afectividades e de impulsos distintos), AuGustu achava todos aqueles mimos naturais, e não se preocupava.
Nesse dia, depois de sair do trabalho, e antes de ir para casa, passou pelo clube de vídeo e alugou um filme de terror que tivera muito êxito nas salas de cinema, no ano anterior, mas que eles não tinham tido oportunidade de ir ver na altura. Lydya adorava filmes de terror, embora tivesse muito medo de os ver: excitava-se, roía as unhas, tapava os olhos (depois pedia para puxar a fita atrás, para ver o que deixara escapar) e gritava.
Quando chegou, já ela estava a acabar de fazer o jantar. Conversaram acerca das coisas habituais. Ele não trouxera trabalho do escritório, e ela, com as férias à porta, também não tinha já nada de especial para estudar. Assim, depois do jantar, Augustu exclamou “surpresa!” e mostrou-lhe a cassette que trouxera. Lydya atirou-se-lhe ao pescoço e beijou-o efusivamente, de tão contente que estava.
— Há tanto tempo que eu queria ver esse filme — disse.
— A sessão começa às dez. Exijo uma cerveja e pipocas.
Lydya foi a correr fazê-las. Trouxe-as para a sala numa terrina enorme, cheia, sobre uma bandeja, e com uma lata de cerveja e outra de coca-cola, frescas, ao lado.
— Os seus desejos são ordens, meu senhor — disse Lydya, com uma vénia, poisando a bandeja sobre a mesinha baixa frente ao sofá. Depois sentou-se ao lado de AuGustu, muito agarrada a ele, e, com a voz tremelicante, afirmou: — Pode começar.
Tudo correu como habitualmente, ou seja, Lydya fez o seu espectáculo paralelo de aterrorizada. Mas AuGustu também achou o filme deveras impressionante. Por isso não estranhou quando, à hora de deitar, Lydya lhe pediu para dormir com ele, pois de outra forma não iria, com certeza, conseguir adormecer.
Deitaram-se, pois, na cama de AuGustu, e desejaram-se mutuamente boas-noites. Lydya encostou-se a ele.
— Ainda parece que estou a ver as imagens do filme — disse ela.
— Tenta não pensar nisso — aconselhou AuGustu. — É só um filme.
— Vou tentar.
Cinco minutos de silêncio passaram pelo quarto, até que a voz de Lydya se fez ouvir de novo, numa pergunta:
— Amas-me?
— Amo-te.
— Eu também te amo.
E, dito isto, estava sobre AuGustu, a beijá-lo na boca.
— Que estás a fazer? — perguntou AuGustu, a tentar livrar-se dos lábios desajeitados de Lydya. Às apalpadelas, achou o interruptor do candeeiro na mesa-de-cabeceira, e acendeu-o. Lydya colou-se mais a ele, e disse, num sussurro frenético:
— O que estou a fazer? O que estou a fazer? Estou a amar-te. Olha, vê.
E, num ápice, tirou a camisa de dormir pela cabeça e ficou nua, com os seios a bailar frente aos olhos de AuGustu. Uns seios mesmo iguais aos da mãe, não pôde ele deixar de confirmar. Lydya deu-lhos a beijar, enquanto lançava uma mão ao sexo do pai, que começou a crescer, independentemente da vontade dele.
— Lydya, pára, isto não está certo.
— Isto está mais que certo — afirmou ela, decidida. — Isto é amor. E o amor está sempre certo.
E desapertou-lhe o casaco de pijama. O pénis do pai já estava totalmente erecto. Ela tirou-o para fora das calças do pijama.
— Tens um belo caralho, paizinho — observou Lydya, com um sorriso malicioso. — E agora vais dá-lo à tua filhinha, vais dá-lo todo à tua filhinha, na boca, na cona, no cu, porque eu te amo e tu me amas.
E chupou-o, ainda desajeitada, mas com determinação. AuGustu rendeu-se-lhe, finalmente vencido. E quando ela, minutos depois, se sentou sobre ele e se fez penetrar, com um grito abafado, foi AuGustu que a puxou para ele e a beijou, muito carinhosamente, enquanto dizia:
— Amo-te, amo-te, amo-te, minha querida.

O COZINHEIRO

1
Aos dezasseis anos, HãBróziu descobriu as duas vocações fundamentais da sua vida: a cozinha e o sexo. No primeiro caso, tratava-se de uma opção profissional: gostava realmente de cozinhar, e assim ficou para si decidido que era isso que iria fazer na vida. A outra questão, entretanto, era mais complicada: descobrira que sentia atracção por rapazes, e não por raparigas. Era um miúdo esperto, e fez algumas leituras sobre o assunto, pois já ouvira dizer, num programa televisivo, que essa sua peculiar inclinação era de alguma vulgaridade na adolescência. Todavia, nenhum dos esclarecidos textos que leu teve a qualidade de contrariar o que a realidade cada vez mais afirmava. É certo que, na escola, tinha uma ou outra amiga, mas a maior parte das raparigas, sempre prontas para se iniciarem nos mistérios da carne através de uns quantos apalpões e beijos nas traseiras dos pavilhões do liceu, intimidavam-no, e nem mesmo as tímidas, que também as havia, mais próximas da sua própria maneira de ser, tinham alguma vez logrado, na prática, contrariar o que as teorias mais pessimistas declaravam. Acabou por se resignar, pois, à sua condição de homossexual, nem assumido nem por assumir, socialmente, mas com a opção perfeitamente definida na sua cabeça.
Anos mais tarde, já adulto, chegara a defender, numa conversa de certa intimidade com um amigo, enquanto jantavam num restaurante de uma cidade que ambos visitavam pela primeira vez, a tese, no seu caso particular algo vaga, de uma qualquer limitação mais ou menos edipiana, baseada na ausência da mãe do lar, desde o tempo em que ele fizera três anos, e no ódio entretanto tomado ao pai, indivíduo castrador, inculto e autoritário. Agora, se se fosse a recordar de tal conversa, com certeza concordaria que tais razões não passavam de justificação fácil, num processo circunstancial de tentativa de sedução do outro, regado com bom vinho (o qual, aliás, acabara por fracassar).
Entretanto, o tempo continuava a passar, e a verdade é que ele ainda permanecia virgem. Estava com vinte e cinco anos, masturbava-se quase todos os dias, nadava na cama em fantasias sem fim, mas a verdade é que nunca tivera coragem para sair à noite até um desses bares para homossexuais que agora abundavam na cidade, e tentar a sua sorte. Não era apenas uma questão de coragem: achava que, de facto, tais ambientes não passavam de centros de pré-prostituição, e ele não queria ver-se envolvido em semelhantes situações. Por outro lado, também não se via a viver com outro homem, a dormir com ele, a dizer-lhe, por exemplo: “Amo-te”. HãBrósiu não queria nada com o amor. Queria cozinhar, viver e foder. A sua indecisão em relação às atitudes a tomar provinha mais, pois, das suas idiossincracias que de qualquer espécie de medo.
A masturbação, as revistas e os filmes pornográficos, já nada disso tinha novidades para ele. Que fazer? Perder os escrúpulos e perder-se na sordidez da vida dos outros, frustrados, camuflados, temerosos da moral vigente? Não, teria de haver outra solução. E tanto magicou, em busca de uma, que, a pouco e pouco, começou a arquitectar um plano.
Tinha ele então um colega de trabalho que lhe agradava particularmente. Era um tipo falador, brincalhão, mas sensível e delicado. Talvez até delicado de mais. HãBrósiu desconfiava de que a sexualidade do outro, tal como a sua, também não era muito ortodoxa. Trabalhavam juntos no mesmo restaurante, mas o outro era somente ajudante de cozinha e, portanto, seu subalterno. Assim, se HãBrósiu o convidasse para sua casa para um jantar, não haveria grande surpresa do outro, pois HãBrósiu era o grande cozinheiro, o grande feiticeiro que, num ambiente íntimo, surgiria com as melhores iguarias do mundo numa mesa mágica, passe-se o exagero.
A surpresa, afinal, foi de HãBrósiu, quando o outro não só aceitou o seu convite como perguntou se poderia levar um amigo. HãBrósiu hesitou. Lembrou-se dos últimos dias, de como preparara tudo meticulosamente, as conversas havidas, os géneros que desviara (não lhe agradava a palavra “roubo” — afinal, levar alguma coisa da copa do restaurante era uma espécie de direito seu). Mas acabou por aquiescer. Marcaram o solene jantar informal para o seu dia de folga. HãBrósiu insistiu para que não chegassem em cima da hora de comer. Às cinco da tarde seria óptimo: poderiam conversar, talvez ver um filme, tomar um aperitivo. Sim, às cinco seria óptimo, confirmou o outro. E faltavam quatro dias.

2
À hora combinada, chegaram os outros dois. O amigo do colega de Hãbrósiu era um tipo alto, de porte quase atlético, e com um sorriso aberto de orelha a orelha. Chamava-se Tiágu. O colega de HãBrósiu, Fernãdu, para quem ainda não sabe, e estavam todos apresentados.
Sentaram-se nos sofás, a ouvir música, e HãBrósiu serviu aperitivos, enquanto dizia que o jantar já estava praticamente pronto, e que por isso podiam estar ali um bom bocado a conversar. Sentou-se também. Tiágu disse que Fernãdu lhe falava amiúde dele, e dos seus extraordinários dotes culinários. HãBrósiu sorriu, envaidecido.
— Cada um é como já nasce — disse, no entanto. — Por isso, o meu mérito não é muito.
Mais meia dúzia de frases, de cá para lá, e os aperitivos acabaram. HãBrósiu foi buscar mais. Quando retornou à sala, Tiágu estava ajoelhado junto à sua estante, a ver os discos e as cassettes de vídeo que havia.
— Espero que não te importes — disse ele para HãBrósiu.
— Claro que não, está à tua vontade.
— Tens aqui uma boa colecção de pornos. É tudo gay?
— Quase tudo.
— És gay?
HãBrósiu corou.
— Acho que sim.
— Achas? — Fernãdu, do sofá, fez um ar algo espantado.
HãBrósiu confessou que ainda era virgem.
— Oh oh — fez Tiágu. — Nem sequer uns beijinhos?
— Nem isso.
— Temos que cuidar de ti.
— Acho que foi até a pensar nisso que ele nos convidou — insinuou Fernãdu, com ar malicioso.
HãBrósiu não teve outro remédio senão concordar. Estava admirado consigo próprio. Aquilo não lhe custara nada. És gay? Acho que sim. Sim, claro. E eles iam cuidar dele. Simples. Fácil.
— Olha — disse-lhe Tiágu — , vamos já tratar disso. Um bocadinho, pelo menos.
Avançou, encostou-se a HãBrósiu, agarrou-o pelas nádegas e beijou-o na boca. Fernãdu, por sua vez, encostou-se-lhe por trás e agarrou-lhe no sexo, que começava a crescer rapidamente.
— Tens aqui uma coisa toda grande — disse Fernãdu, já a abrir-lhe o fecho das calças.
— Vocês não perdem tempo — ainda comentou HãBrósiu, mas já Fernãdu lhe inclinava a cabeça para trás, para o beijar também, enquanto Tiágu lhe fazia deslizar a língua pelo pescoço, para de seguida se ajoelhar à sua frente e logo começar a chupá-lo, a boca cheia e ainda a baixar-lhe as calças, ajudado por Fernãndu, que depois encostou o caralho ao cu de HãBrosiu, sem o penetrar, mas sugerindo tal ideia com os seus movimentos incisivos. Tiágu parou de o chupar, e foi então a vez de Hãbrósiu, conduzido pelos outros, se ajoelhar frente a Fernãdu e chupá-lo, enquanto era Tiágu que brincava agora com o seu cu, caralho em riste e aqueles movimentos que estavam a perturbar HãBrósiu de uma forma que ele não entendia. Depois, de repente, pararam.
— É melhor não fazermos tudo de uma vez — explicou Fernãdu. — Tempo não nos falta, aliás.
Beijou ainda HãBrósiu na boca, e depois perguntou-lhe se não precisava de ajuda na cozinha. HãBrósiu disse que não: fazia questão de o jantar ser só obra sua.
Sentaram-se outra vez, a ver um filme porno onde o leitmotiv aparente também era a comida, disseram umas quantas piadas, excitaram-se e beberam mais um aperitivo.
Depois, batiam os relógios de todo o país as sete horas, HãBrósiu anunciou que o jantar estava pronto. Serviu-o na sala, onde o ambiente era mais acolhedor, e a mesa maior.
A cada nova iguaria, os elogios subiam de tom. As garrafas de vinho também se foram esvaziando a um ritmo generoso, e, quando acabaram, estavam já todos a rir em grandes gargalhadas. Pelo meio, tinham feito uma série de brincadeiras equívocas, como passar pedaços de comida de uma boca para outra, presa entre os dentes, e concluir com um beijo, dar apalpões suaves nos caralhos uns dos outros por baixo da mesa. Pelo meio, Tiágu untara o caralho com chantilly e Fernãdu chupara-lho, e depois andara a gatinhar por baixo da mesa, até abocanhar também o de HãBrósiu. Agora estavam todos razoavelmente excitados, mas o estômago cheio impediu-os, durante um bom bocado, de avançar para novos jogos eróticos.
HãBrósiu decidiu, assim, servir os cafés e os digestivos, um whisky velho, magnífico, que andava a guardar já há algum tempo para uma ocasião como aquela.
Tiágu como que se lembrou de que lhe tinham trazido do estrangeiro um bocado de haxixe que era mesmo do melhor, e o qual, por acaso, até estava no bolso do seu blusão, e sugeriu que fumassem um charro. HãBrósiu, que também nunca tivera quaisquer contactos com drogas, mostrou-se algo apreensivo, mas os outros tranquilizaram-no: o haxixe era uma droga fraca, e ele ia gostar de experimentar, na certa. Isso e tudo o mais. Bom, quando se estava a fazer a digestão poderia afectá-la um pouco, mas nada de mais. E eles, afinal, não tinham comido assim tanto, tinham era comido muito bem. HãBrósiu disse que então o melhor seria esperarem um pouco, pois não queria, de modo nenhum, sentir-se mal. Os outros aquiesceram.
— Há tempo, há tempo — disse Tiágu. — Eu faço já o charro mas só o fumamos daqui a bocado.
Gastaram então tempo a conversar. Depois jogaram às cartas. Depois viram um pouco de televisão, e entretanto já se passara uma hora e meia e eles já não aguentavam mais, HãBrósiu ia deixar de ser virgem, ora aí estava algo de importante, coisa profunda. Fumaram o charro.
— Então, o que é que sentes? — perguntou Fernãdu a HãBrósiu, dois minutos depois.
— Uma série de sensações esquisitas — começou Hãbrósiu. — Para já, estou com uma enorme vontade de rir.
— É normal — garantiu Tiágu. — É sempre assim, nas primeiras vezes.
— E agora está a apetecer-me foder — prosseguiu HãBrósiu, um pouco admirado consigo próprio. — Tenho a boca seca.
— Também é normal. Bebe água.
HãBrósiu bebeu um copo cheio, sôfrego.
— Vamo-nos despir? — sugeriu Fernãdu.
Despiram-se. Estavam todos com os caralhos em pé.
— Gostava de fazer um jogo que acabei de inventar agora mesmo — afirmou HãBrósiu, com entusiasmo exagerado. — É assim: apagamos as luzes e vamos fugir uns dos outros, e depois começamos a procurar-nos. Quando um encontrar outro, o que é apanhado tem de chupar o que o apanhou. Depois, pode fugir outra vez.
O jogo não tinha pés nem cabeça, mas eles estavam prontos para tudo, e concordaram de imediato. Assim, apagadas as luzes, aí andaram eles pela sala, a tropeçar nos móveis, a praguejar, a apanhar e a serem apanhados. Depois de uma atribulada sessão de chupadelas, encontraram-se de novo, e por acaso, os três. Deram por concluído o jogo, mas não o sexo. HãBrósiu pôs-se a chupar com mais calma o caralho de Tiágu, e Fernãdu chupou-lhe o seu. Depois fizeram com que HãBrósiu chupasse Tiágu e Fernãdu ao mesmo tempo.
Hãbrósiu sugeriu que fossem para o seu quarto, pois que a cama era sem dúvida mais confortável que a alcatifa, e eles assim fizeram.
— Agora, o que é que queres fazer primeiro? — perguntou-lhe Fernãdu.
— Não sei. Quero tudo.
— Tudo é bom. Olha, então primeiro vais ver, apenas. Tens alguma coisa que sirva de lubrificante?
HãBrósiu tinha vaselina, que usava para as queimaduras, frequentes no lidar com o fogão. Foi buscá-la. Tiágu lubrificou o cu de Fernãdu e penetrou-o, com HãBrósiu a olhar. Fernãdu estava apoiado nos joelhos e nas mãos, sobre a cama, e disse então a HãBrósiu que se deitasse sob ele, com os pés para a sua cabeça, de modo a que se pudessem chupar um ao outro. Ele assim fez. Minutos depois, era Tiágu que o chamava, para que o substituísse. HãBrósiu viu-se então pela primeira vez na vida a penetrar no cu de alguém. Era fácil, e era bom. Fernãdu chupava agora Tiágu, que comentou:
— O nosso amigo aprende depressa.
Hãbrósiu estava de tal modo excitado que, a dado momento, para não se vir, teve de sair do cu de Fernãdu. Este virou-se rapidamente, enfiou o caralho de Tiágu, que estava sentado à sua frente, no cu, e chupou HãBrósiu furiosamente. Instantes depois, já ele estava a dizer, ofegante:
— Chupa-me agora tu, que eu vou-me vir. Vou-me vir na tua boca.
E assim foi: o esperma esguichou para a boca de HãBrósiu, que quase se engasgou.
— Engole-o — disse-lhe Fernando. — Engole-o todo.
E Hãbrósiu engoliu, e Fernãdu soltou-se do caralho de Tiágu e disse a Hãbrósiu que chupasse também Tiágu, até este se vir, e Hãbrósiu chupou Tiágu, e este veio-se, e Hãbrósiu engoliu-lhe o esperma, e cada um caiu para seu lado, todos cansados. Fernãdu é que não estava capaz de parar. Foi buscar água, bebeu, deu água aos outros e pôs-se a chupar Hãbrósiu, até que este também se veio, num extertor aparentemente sem fim.
— Não há nada melhor que o esperma de um cozinheiro — proclamou Fernãdu, a rir. — Então meninos, já estafados? Então olhem para aqui. — E mostrava o seu caralho, de novo a empinar-se. — Vou-te foder agora. Sempre gostei de inaugurações. Vira-te.
Hãbrósiu obedeceu. Fernãdu abriu-lhe as pernas e besuntou-lhe o cu com o lubrificante. Enfiou-lhe um dedo, e disse, ao ouvir Hãbrósiu gemer:
— A princípio vai-te doer um bocado, mas depois vais gostar.
Abriu as nádegas de Hãbrósiu e encostou-lhe a ponta do caralho ao buraco do cu. Fez um bocado de força e sentiu a cabeça a entrar, a custo.
— Está a doer?
— Sim, mas não muito.
Fernãdu fez mais força e sentiu que o seu caralho entrava agora mais um bocado. Deu um golpe de rins mais incisivo e entrou todo. Hãbrósiu sentiu-se como se lhe faltasse o ar. Estava qualquer coisa a enchê-lo lá atrás, no cu, mas mais parecia que o estava a encher todo, de alto a baixo. E estava a doer-lhe, era facto, mas não demais. Fernãdu começou então os movimentos de vaivém, Hãbrósiu a encher e a esvaziar, ciclicamente, e aquilo a começar a dar-lhe gozo. Tiágu, já recuperado, veio pôr-lhe o caralho na boca, e Hãbrósiu chupou-o gulosamente. Fernãdu aumentou a cadência, enquanto puxava Hãbrósiu da posição deitada em que se encontrava para a posição de gatas. Mais uns instantes e veio-se. Logo Tiágu saiu da boca de Hãbrósiu e tomou o lugar de Fernãdu. O caralho de Tiágu era razoavelmente maior, mas o caminho já estava aberto, e Tiágu não teve dificuldade em se enfiar até ao fundo em Hãbrósiu, desta feita em outra posição: Hãbrósiu deitado de costas sobre a cama, as pernas erguidas, o seu próprio caralho caído para cima da barriga, e Tiágu por cima dele, como se estivesse a foder uma mulher, missionariamente. Fernãdu, esse, estava completamente endiabrado, agora a enfiar o caralho murcho e sujo na boca de Hãbrósiu e com o cu aberto frente à cara de Tiágu, que lho lambeu. Depois, Tiágu inclinou-se um pouco para trás, e Fernãndu sentou-se no caralho de Hãbrósiu. Estiveram assim um bom bocado, até que Tiágu quis mudar de posição. Fernãdu desencavou, Tiágu encostou Hãbrósiu à parede e tornou a penetrá-lo. Fernãdu deslizou pela parede até conseguir colocar-se à frente de Hãbrósiu, e disse-lhe então que o fodesse, enquanto era fodido. Era como um comboio ao contrário, com a máquina Tiágu a empurrar as duas carruagens à sua frente. Depois, Tiágu, ainda, deitou-se no chão e disse a Hãbrósiu que se sentasse sobre ele. Assim foderam mais uns minutos, e depois Tiágu disse a Hãbrósiu que o fodesse ele agora. Foi o que Hãbrósiu fez, de boa-vontade, aliás, pois já estava a precisar de algum descanso no cu. Hãbrósiu veio-se, minutos depois. Tiágu virou-o rapidamente e enfiou-lhe outra vez o caralho. Fernãdu voltou à boca de Hãbrósiu. Tiágu veio-se, enfim, e Fernãdu, pela terceira vez nessa noite, derramou também o seu esperma. E antes de qualquer um dos outros ter fôlego para falar, ainda disse:
— Isto é que se chama perder a virgindade, hã?

3
A partir dessa data, mantiveram um contacto semelhante ao anteriormente descrito duas a três vezes por mês, durante alguns meses, até que Hãbrósiu, inesperadamente, anunciou a Fernãdu o seu casamento para breve com uma das raparigas que trabalhava no bar do restaurante. Disse Hãbrósiu aos seus amigos, também, que vendera a sua colecção de vídeos porno, e que o esperma já não lhe sabia como antigamente.
Depois do casamento, ainda se encontraram mais duas ou três vezes, desta feita em casa de Fernãdu, mas já não era, de facto, a mesma coisa. Depois, um dia, Fernãdu arranjou trabalho num restaurante em outra cidade, e nunca mais se viram.
A mulher de Hãbrósiu gostava de levar no cu, e ele fodia-a assim muitas vezes. Uma noite, em que tinham bebido um pouco mais ao jantar (um dos fabulosos jantares confeccionados por Hãbrósiu), ele contou-lhe a sua iniciação sexual. Ela foi muito compreensiva. Uns dias depois, comprou um pénis artificial, que prendia à cintura, com um cinto especial, e, de vez em quando, fodia Hãbrósiu no cu através desse artifício. Estava alcançado o equilíbrio. E Hãbrósiu achou-se, finalmente, um homem realizado.

A BABY-SITTER

1
Somente com dezanove anos, Suzz Anna grangeara já uma razoável reputação como baby-sitter, e era tão procurada que tinha chegado à situação de ter de recusar algumas crianças, pois que a qualidade existe, normalmente, numa relação diametralmente oposta à da quantidade. O mais que conseguia atender, em simultâneo, eram, assim, quatro crianças. Todavia, o êxito do seu negócio fê-la pensar que não seria má ideia ampliá-lo. Nessa perspectiva, mesmo tendo que pôr outras pessoas a trabalhar consigo, os clientes por certo que continuariam a aparecer, pois ela asseguraria a todos os interessados que a sua supervisão lá estaria, para continuar a garantir a excelência dos serviços prestados.
Graças a um subsídio comunitário, dirigido em especial às mulheres empresárias, mormente às que dessem trabalho a outras mulheres, e que fora criado no âmbito de um quadro quinquenal de desenvolvimento geral das estruturas do país, Suzz Anna viu-se a inaugurar, um ano depois, a sua própria creche, a que chamou, muito naturalmente, “A Baby-sitter”. Tinha mais cinco mulheres a trabalhar com ela, todas com formação como educadoras de infância, e começaram a actividade logo com vinte crianças. Como já fazia em sua casa, todos os dias era ela que se incumbia da mudança das fraldas, operação durante a qual as crianças recebiam um tratamento especial, de sua invenção: depois de lavadas, e antes de colocar a nova fralda, Suzz Anna perdia sempre um ou dois minutos a lamber e a chupar os pequenos sexos dos bebés, e eles adoravam-na. De facto, nas suas mãos nunca choravam, fosse por que razão fosse, nem se recusavam a comer, quando estavam doentes, atitude tão vulgar em outras crianças não criadas com tais mimos.
Os anos foram passando, a creche aumentou de tamanho, as crianças cresceram e vieram outras, mas o comportamento de Suzz Anna manteve-se inalterável, sempre terna e atenciosa, sempre fiel ao seu tratamento especial para bebés. O seu fascínio sobre as crianças, entretanto, ficava para lá do tempo em que elas estavam a seu cargo, e eram muitas — não todas somente porque algumas, por causa dos trabalhos dos pais, tinham ido viver para outras povoações — as que a visitavam regularmente, agora já crescidas. Mesmo assim, Suzz Anna sabia lidar perfeitamente com elas: não era só com os bebés que ela era exímia, afinal. E assim, “A Baby-sitter” estava sempre em festa, com gente a entrar e a sair, a trazer presentes, a ajudar de alguma forma.
Aos trinta e cinco anos, ainda solteira, e tendo acumulado um pé-de-meia considerável, Suzz Anna decidiu, inesperadamente, retirar-se. Mil foram os pedidos de mil pais para que reconsiderasse, mas nenhum conseguiu demover Suzz Anna das suas intenções, e “A Baby-sitter” encerrou efectivamente as portas (as empregadas foram para outras creches, e o edíficio passou a albergar uma escola de informática, criada ao abrigo de um programa semelhante, de estímulo às jovens mulheres empresárias, que pelos vistos continuavam a necessitar de incentivos). Outra porta, contudo, permaneceu aberta: a da sua casa, onde as crianças eram sempre bem-vindas. E elas lá iam, uns dias umas, outros dias outras, e acampavam na sala, a estudar, a ver televisão, a comer os lanches maravilhosos que ela lhes arranjava. Suzz Anna sentava-se a seu lado, ajudava-as nos seus trabalhos escolares, ouvia-lhes os problemas e dava-lhes conselhos. Os mais velhos, os do primeiro ano da creche, estavam agora com dezasseis anos. Às raparigas, tinham-lhe crescido os seios e alargado as ancas. Aos rapazes, surgia-lhes agora a primeira barba, ainda rala, mas que alguns já aparavam regularmente, e começava-lhes a voz a engrossar. Suzz Anna sabia o nome de todos, os tiques, os medos, as esperanças, e não lhe era difícil dar, a cada um, o que cada um realmente esperava dela.
No meio de tanta harmonia, acontecia, no entanto, desde há algum tempo, notar Suzz Anna que havia algo de estranho: uma espécie de inquietação em todos eles, manifestada através dos olhares, de vez em quando a mostrarem-se furtivos, e das conversas, de súbito a interromperem-se, assim que ela entrava, para se converterem, de seguida, em inexplicáveis minutos de silêncio. As suas visitas não abrandavam, antes pelo contrário, mas estes sintomas acentuaram-se. Que via Suzz Anna nos olhares deles? De repente, ansiedade, como se lhe quisessem dizer alguma coisa muito importante e não fossem capazes.
Um dia, achando-se, por acaso, sozinha com um dos rapazes, decidiu tirar o assunto a limpo.
— Passa-se alguma coisa?
— Alguma coisa como?
— Tens alguns problemas na escola, ou em casa?
— Não.
— E comigo? — Suzz Anna procurou-lhe o olhar, mas ele desviou-o. — Porque não olhas para mim? Já não és meu amigo?
— Claro que sou. É que... — Silenciou, e tornou a baixar o olhar.
— Podes dizer. Seja o que for.
— Está bem. Acho que é o melhor. Lembra-se de quando eu era bebé, de quando eu estava na sua creche?
— Claro.
— Lembra-se então, com certeza, daquele modo como me tratava, quando me mudava as fraldas? Aqueles beijos que me dava aqui? — E apontou o sexo, num gesto hesitante mas inequívoco.
— Sim. — E não pôde deixar de sorrir. — Continua.
— Pois nós temos falado uns com os outros, e todos nos lembramos do mesmo. Tratava-nos a todos da mesma forma, e era maravilhoso. Agora, não sabemos porquê, começámos a sentir umas saudades enormes desses beijos. Estamos aqui todos os dias, e olhamos para si, à espera de que, a qualquer momento, você se lembre de nos fazer o mesmo, apesar de já não usarmos fraldas. E olhe que não são só os rapazes. As raparigas sentem exactamente o mesmo.
Então era isso. Sempre calculara que um dia aquilo havia de acontecer, e estava preparada. Levou o rapaz para o seu quarto, baixou-lhe as calças e fê-lo deitar-se na sua cama. O sexo dele já não tinha, decididamente, o tamanho do de um bebé, mas isso não a impediu de lhe chamar assim, bebé, um momento antes de o introduzir todo na sua boca e de o começar a chupar, vagarosamente. Fê-lo tanto e tão bem que cinco minutos depois o esperma do rapaz lhe enchia a boca. Tinha um sabor delicioso, quente e fresco ao mesmo tempo.
Suzz Anna deitou-se ao lado do rapaz e beijou-o na boca. Ele retribuiu o beijo, desajeitado ainda, mas muito empenhado no que estava a fazer. Mas havia tempo: ele ia aprender, e bem, porque Suzz Anna o ia ensinar. Iam todos aprender.
Antes de o rapaz se ir embora, ainda o chupou outra vez. À despedida, disse-lhe:
— Não te esqueças de vir amanhã.
— Não é coisa que se esqueça, pois não? — disse ele.

2
A partir desse dia, a harmonia voltou à casa de Suzz Anna: acabaram-se os olhares esquivos, os silêncios, a ansiedade. Todas as tardes, agora, bebia Suzz Anna a sua dose de esperma, esguicho a esguicho, cada qual com o seu sabor peculiar, a sua textura própria, a sua força específica. Dose a dose se passou um ano de prazeres, agora já mensuráveis em litros, e Suzz Anna não dava mostra de quaisquer sinais de cansaço. Antes pelo contrário: passara a dar também o mesmo tratamento aos mais novos, eles também ansiosos pela recuperação dos seus beijos especiais. As raparigas, essas, derretiam-se em orgasmos sob a sinuosa e sábia língua de Suzz Anna, sempre pronta.
Ainda a meio desse ano, pensou ela que era bem sua missão ajudar aqueles rapazes e aquelas raparigas a prepararem-se de uma forma radicalmente diferente para a sua futura e próxima vida de adultos. Pois que adultos seriam eles se, mais tarde, se vissem nas suas casas, casados ou não, com filhos ou não, mas com certeza presos àquela infinidade de compromissos que a vida moderna implicava, e de repente se achassem tristemente a pensar em tudo o que não tinham feito na juventude? Pois a juventude, para ela, era isso mesmo: um disparar em todas as direcções, uma experimentação toda feita de vitalidade, ingenuidade e prazer. Depois, então, que a vida nos levasse pelas suas tortuosas estradas, mas sem olhar para trás com mágoa, mas antes com confiança, com certeza.
Assim investida deste espírito de missão, começou a encaminhar os rapazes e as raparigas para outras formas de se relacionarem. Estimulou os namoros, desvendou as homossexualidades latentes, conteve e recanalizou as sexualidades excessivas. Na sua cama, muitas raparigas perderam a virgindade, sempre sob o olhar atento de Suz Anna, cuja mão conduzia os sexos ao encontro uns dos outros, os olhos aos olhos, as bocas às bocas. Era ela ainda que, quando os rapazes se retiravam das raparigas, ia lamber o sumo para si sagrado da primeira vez, sangue, suor e esperma. Não, era bem certo que nem só de memórias eles podiam viver. Havia o presente, havia o futuro. Na sua cama, alguns rapazes e raparigas descobriram que a alegria dos pais por serem avós nunca iria acontecer, pois os seus amores eram de outro género. Na sua cama, ainda, algumas raparigas descobriram que gostava de sentir aquela coisa enfiada entre as suas pernas, sempre, a qualquer momento, e fosse ela de quem fosse. Eram como uma espécie de deusas do amor, simples, perfeitas, devotadas somente ao prazer dos outros. Tornaram-se as mais íntimas de Suz Anna, e começaram a ajudá-la na sua interminável tarefa de encher copos de esperma. Suz Anna, em dado momento, apercebeu-se de que as coisas estavam a acontecer como se tivesse dado início a uma segunda carreira, desta feita com os seus honorários a serem pagos em prazer e não em dinheiro. E era uma carreira que ia de vento em popa. Suz Anna tornara a concentrar-se nos mais novos, deixando os outros para as suas companheiras. Adorava chupar e lamber aqueles sexos ainda em crescimento, ainda sem sumo nem uso nem pêlos, tocar-lhe nas peles muito macias e cheirosas, estar assim de joelhos aos pés da vida horas sem fim, sonhos sem fim.
Uma noite ou outra, uma ou outra das raparigas que a ajudavam ficava a dormir com ela. De uma dessas vezes, já deitadas, calhou na conversa a rapariga presente falar-lhe no prazer imenso que sentia com os homens e, na sequência do que estava a dizer, perguntou a Suz Anna porque não entregava também ela o seu corpo a esses gozos, nem sequer com elas. Suz Anna disse que se sentia bem assim. De facto, ainda era virgem. A outra não coube em si de espanto, perante tal declaração. E tanto insistiu, após a surpresa inicial, que Suz Anna acedeu a ser lambida por ela. Delirou. Nunca tinha sentido nada de semelhante. Agora entendia a razão profunda pela qual os seus bebés nunca se tinham esquecido dela: não se tratava de uma memória do cérebro, mas de todo o corpo.
Entretanto, a rapariga, juntamente com as outras duas, arquitectara um plano. Estava na altura de também eles, todos eles, devolverem a Suz Anna algo do tanto que ela lhes dera. Tudo foi decidido e preparado no maior segredo, e desta feita, Suz Anna não conseguiu ler nada de estranho, nem nos olhares nem nos risos nem nos silêncios.
Assim, no dia combinado, todos os rapazes e raparigas, dos mais novos aos mais velhos, se encontraram em casa de Suz Anna. Não chegaram todos ao mesmo tempo, para que as suspeitas de Suz Anna não saltassem de repente.
Quando, finalmente, Suz Anna se apecebeu de que tinha a casa particularmente cheia, já era demasiado tarde. Conduziram-na para o quarto, despiram-na e deitaram-na. Não cabia mais ninguém, de tal modo que alguns também se tinham sentado na cama. Um dos rapazes mais velhos surgiu então, nu, aos pés da cama. Uma das raparigas beijou Suz Anna na boca, e disse-lhe: “Amo-te”. E um rapaz beijou-a também, e disse: “Amo-te; vais gostar”.
Então o rapaz nu avançou. De cada lado da cama, estava uma rapariga a segurar com gentileza as pernas de Suz Anna, e o rapaz deitou-se sobre ela, o sexo em pé, e começou a penetrá-la, muito devagar, centímetro a centímetro. Suz Anna sentiu uma dor, breve, e depois um prazer estranho, a crescer nela, da cabeça aos pés. O rapaz começou a movimentar-se cada vez mais rapidamente, cada vez mais fundo, e então disse: “Vou-me vir”, e veio-se, e Suz Anna, pela primeira vez na vida, recebeu um banho de esperma em outro lugar que não na boca.
Todos estavam felizes, e Suz Anna mais que todos. Recebeu de boa vontade os beijos de todas as raparigas, que, após esse beijo, foram saindo, até que só ficaram os rapazes no quarto. O que estava ainda em cima de Suz Anna também se retirou, e logo outro tomou o seu lugar.
Duas horas depois, Suz Anna tinha sido possuída por todos os rapazes que estavam no quarto. Os lençóis ficaram empapados de esperma. Suz Anna não sangrou nem um bocadinho.

3
Começou dessa forma uma nova fase na nova carreira de Suz Anna. Agora ela já não era só o objecto, a manifestação de uma memória viva. Era, acima de tudo, uma mulher completa. No seu quarto, na sua casa, o amor e o prazer tomaram então formas mais globais, com um envolvimento físico complexo com as raparigas e os rapazes. Agora, os rapazes perdiam a virgindade com Suz Anna. Agora, Susana fazia amor com todos, absolutamente, e estava feliz como nunca.
Um ano mais se passou, neste ambiente de festa. Os pais dos jovens achavam estranha, talvez, aquela frequência nas visitas à casa de Suz Anna, mas os antecedentes eram bons (afinal, ela tinha sido a sua ama), e, se bem que alguns, no íntimo, sentissem alguma inveja pelo ascendente que Suz Anna tinha sobre os seus filhos, nunca tiveram para com ela nenhuma atitude menos delicada. Antes pelo contrário: também eles lhe ofereciam, sob os mais variados pretextos, inúmeras prendas, e, alguns, até se davam ao trabalho de perder algum do seu tempo para também a visitarem. Claro que saíam de sua casa compensados, ao ver todos aqueles miúdos e miúdas na sala de Suz Anna, a estudar, a lanchar, ou somente a divertir-se. Uma mulher chegou mesmo a dizer-lhe: “Afinal, você continua a trabalhar”. E Suz Anna, a sorrir, respondeu que não era trabalho, mas prazer.
Chegou então mais um verão, e Suz Anna, inopinadamente, como era apanágio seu, decidiu tirar umas férias, sozinha. Para aplacar o desânimo dos seus pupilos, disse que um mês era só um instante, e que de novo se encontrariam, depois. Todos, como sempre. Para sempre.

4
Afinal, tudo se passou de outra forma. Nas férias, Suz Anna enamorou-se por um homem. Uma noite, depois de um jantar em que bebeu um pouco de mais, coisa a que não estava habituada, confessou-se ao homem: contou-lhe a sua vida, sem, no entanto, entrar em excessivos pormenores. Não estava, de modo algum, à espera da reacção dele, que também tinha uma confissão a fazer: também ele cultivava uma relação semelhante com os miúdos, se bem que ao contrário, pois não era ele que os chupava e lambia, mas os miúdos e as miúdas que o lambia e chupavam a ele. E também ele, tal como Suz Anna, não queria ter filhos. De facto, para quê? Os filhos dos outros eram muito mais interessantes.
Nessa mesma noite, decidiram viver juntos.
Assim, quando, já em casa, outra vez, Suz Anna recebeu as suas primeiras visitas, após as férias, havia lá mais uma pessoa, e todos se sentiram estranhos, como se já não soubessem como se comportar ali. Suz Anna, já prevendo tal reacção, tranquilizou-os: estavam à vontade; a casa dela era deles, também; e aquele homem estava disposto a partilhar dos seus jogos — a renová-los, até, com a sua maneira própria de fazer as coisas.
As raparigas ninfomaníacas foram as primeiras a aceitar a nova situação: gostavam demasiado de Suz Anna para deixarem que algo tão simples como a presença de uma pessoa a que não estavam habituadas perturbasse a sua relação. Com tal exemplo, também os outros, a pouco e pouco, se foram habituando àquele novo companheiro, o qual se veio a demonstrar, tal como Suz Anna, um bom amigo, sempre pronto para uma boa conversa, para dar um conselho, para um momento de prazer. Neste campo, o seu vício, se é que assim o podemos chamar, era mesmo o de ser chupado. Era capaz de estar horas nisso, e agradavam-lhe todas as bocas, independentemente do sexo ou da idade. Mas agora, em tal acto, só Suz Anna lhe bebia o esperma.
Como o tempo não pára de escorrer no leito do rio da vida, outro ano mais desaguou para o passado. Alguns rapazes e algumas raparigas casaram-se, e, o que muito agradou a Suz Anna, dentro daquela irmandade. Mesmo assim, continuaram a ir visitá-la, com a frequência que as suas novas vidas lhes permitiam. Em breve teriam filhos. Garantiram a Suz Anna que, quando tal acontecesse, seria ela a ama dessas crianças. “Um dia destes vou ter de me reformar”, avisava Suz Anna, mas nem ela acreditava muito nisso.
Agora estavam todos a ficar mais velhos. Um rapaz começava, com êxito, a lançar-se no mundo da moda, como estilista. Outro, músico, já gravara dois discos, os quais tinham sido muito bem recebidos pelo público, e obtido boas vendas. Uma rapariga era apresentadora numa estação de televisão. Outra, acabara de editar o seu primeiro livro de poemas, e uma instituição qualquer concedera-lhe um prémio que a designava como Revelação do Ano. As quatro raparigas companheiras de Suz Anna, enfim, postas perante a necessidade de também ganharem a vida, tinham entretanto investido no que melhor sabiam fazer: com a ajuda de Suz Anna, criaram uma empresa de prestação de serviços muito especial, onde recebiam, aconselhavam e acarinhavam todos os solitários e infelizes. Suz Anna chorou quando soube que a nova empresa se chamava “A Baby-sitter”, e, tal como a primeira, estava a ter uma enorme procura. A solidão e a infelicidade enchiam o mundo, e as raparigas perceberam então porque é que existiam tantos males e tantos erros entre os homens. Havia, assim, imenso para fazer. E Suz Anna lá estava, sempre a dar-lhes a força que, por vezes, tais os esforços que lhes eram exigidos, lhes parecia faltar.
Quando fez quarenta anos, ofereceram-lhe uma grande festa de homenagem nas instalações da nova “A Baby-sitter”. Todos os bebés compareceram. Não, já não usavam fraldas. Mas eram ainda os seus meninos e as suas meninas, e sempre o seriam. Suz Anna teve, nesse dia, a certeza de que ia ter uma velhice muito, muito feliz.

A QUERIDA MÃE

1
O marido de Trêza passava grandes períodos fora de casa, dada a sua condição de embarcadiço — era chefe de máquinas num petroleiro de uma grande companhia internacional — , e Trêza tivera de criar quase sozinha o filho único do casal, Rnátu. Claro que quando o pai chegava a casa das suas longas viagens era sempre uma festa, pois nunca havia volta em que não viesse carregado com prendas exóticas, e com histórias, mais exóticas ainda, das grandes cidades onde o seu navio aportava.
Trêza, uma ou outra vez, ainda tentou, através de algumas perguntas subtilmente colocadas, levá-lo a cair em contradição, para que ele se deixasse de tantas maravilhas, pois não acreditava na maior parte das coisas que ele contava, mas o marido defendia-se com igual habilidade, e o filho, bebendo-lhe as palavras como se do mais precioso néctar se tratasse, legitimava todas essas histórias, fossem elas reais ou não. Trêza, em função disso, deixou de intervir: se o tempo sempre se encarrega de acertar todas as coisas, então ele também haveria de intervir ali, e a vida prática haveria de tomar o lugar que nunca há-de pertencer à fantasia: a terrível, enfadonha e infinita realidade.
A verdade é que Trêza não era feliz. Amava o pai de Rnátu quando se casara com ele, dez anos mais velho, e acreditara que, embora ele passasse muito tempo fora de casa, ela seria capaz de aguentar tais ausências, pois o amor é forte, e essas ausências só serviriam para ainda mais o enfortalecer. Mas depois, quando os anos começaram a passar, ela apercebeu-se de que a verdade não era assim tão simples. Achava-se uma mulher atraente, mesmo sensual, e a cama tantas vezes vazia começou a assustá-la, depois a amargurá-la, e por fim a deixá-la num estado sonâmbulo de quase indiferença. Sabia, ou pressentia, que algumas amigas suas tinham aventuras de circunstância com outros homens, mas ela nunca o tentou sequer, pois sabia que mais tarde se sentiria mal com isso. Procurou antes convencer o marido a procurar, dentro da empresa, outra posição, de preferência em terra. Na sua opinião, se ele tentasse, e dado o seu comportamento profissional até aí exemplar, com certeza o seu pedido seria atendido. O mesmo não pensava o marido: agora, cada vez menos homens queriam sair para o mar, e ele tornara-se quase insubstituível. “O feitiço das sereias instalou-se em terra”, gracejava ele, às vezes. “Mesmo assim tenta”, insistia ela. E ele tentou: durante meses, andaram cartas e impressos de uma repartição para outra, de um gabinete para outro. Mas era como ele dizia, cada vez menos homens queriam ir para o mar, ficando longe das suas famílias tanto tempo, e de algum modo arriscando a vida, pois que o mar é como uma amante imprevisível, ora apaixonada ora traiçoeira.
Trêza, perante esta incontornável realidade (mais uma), mulher virtuosa mas carente, entregou-se então aos prazeres solitários. Vinham-lhe à cabeça imagens fantasistas, que ela ficava a acarinhar horas sem fim, enquanto se ia tocando muito devagar, e depois mais depressa, e mais e mais, até explodir em orgasmos tão fortes que a deixavam prostrada por mais de meia hora.
É bem verdade que a necessidade aguça o engenho, pois, quando a certa altura, esses prazeres planantes começaram a tornar-se insuficientes, descobriu, em alguns objectos de uso corrente na casa, todos com forma mais ou menos fálica, uma forma de concretizar uma nova etapa na sua conquista pessoal do prazer. Mais um passo e percebeu que o corpo era uma fonte inesgotável de gozos profundos. Bastava apenas imaginá-los, e depois fazê-los sair cá para fora. Um ovo escorregava lentamente para o interior da sua cona muito molhada. Contraía-se, o ovo rebentava e ficava a escorrer para o chão. Com um ovo cozido, ainda quente, também não era coisa que lhe tivesse escapado. E um pepino, seria grande de mais, grosso de mais? Não, com certeza. E o cu, o que pedia ele? E aquelas ferramentas todas na caixa de ferramentas do marido, com cabos de plástico redondos e muito polidos, de cores translúcidas e brilhantes? E porque não deitar-se na banheira e espalhar por todo o corpo umas quantas garrafas de óleo de cozinha e fritar no calor de todos os seus orifícios sexuais essas ferramentas, esses ovos, esses pepinos, bananas, cenouras, garrafas?
E tudo isso ela fez, sozinha no novo castelo do seu prazer. O marido lá ia chegando, periodicamente, ficava uma semana ou duas, trazia prendas e contava novas histórias a Rnátu — menos histórias, agora, e menos fantásticas, e que Rnátu ouvia agora com menos entusiasmo. O rapaz já somava dezasseis anos de existência, o pai nunca estava, e as suas referências mais concretas tinham passado, gradualmente, a ser outras: os amigos, a televisão, os computadores, o dia-a-dia. O pai apercebia-se disso, de algum modo, e voltava-se então para Trêza, muito enamorado, a fazerem amor duas e três vezes por dia, como se ele, de repente, quisesse garantir, por esse meio, que na próxima volta não iria encontrar outro homem na sua cama. Trêza gostava dessas atenções, claro, se bem que desconfiasse que ele era como todos os marinheiros, com uma mulher em cada porto (embora já se saiba, nestas coisas de homens são mais as vozes que as nozes, principalmente as vozes deles). Assim, entregava-se toda àqueles momentos em que o prazer era rei, tanto mais que quinze dias passam depressa, e a viagem seguinte podia ser ainda mais longa.
E pronto, já estava: lá ia ele outra vez, Trêza de novo sozinha entre os pepinos e a educação do filho, um banho de óleo de cozinha, um lume de cona à volta de um ovo.

2
Um dia, estava Trêza a fazer a limpeza geral da casa — fazia-a sempre às quartas-feiras, porque preferia ter o fim-de-semana completamente livre, para passá-lo com o filho, em idas ao cinema, jantares fora e passeios pelas terras vizinhas, ou só para si, se ele tinha outras coisas combinadas com os amigos — , quando, ao limpar a estante do quarto de Rnátu, descobriu, debaixo dos livros escolares, duas revistas de inequívoca temática, pois, logo na capa, o que se via era uma mulher a chupar o sexo de um homem. Sentou-se na cama, a folheá-las. A cada nova imagem, a sua excitação crescia. Ficou particularmente presa a três: um homem a vir-se na boca de uma mulher, um homem a enrabar uma mulher e uma mulher a ser possuída por dois homens. Perdera a virgindade com o marido, e nunca conhecera outro homem, e ele nunca lhe fizera aquilo, nunca o esperma dele lhe enchera a boca e lhe escorrera pelos cantos dos lábios até aos seios, nunca o seu cu sentira um caralho vivo a entrar e a sair. As chaves de fendas tinham melhor sorte. Leu: “E então, pela terceira vez nessa tarde, esporrei-me, agora na boca da minha mãe”. Leu outra vez. Sorriu, certa de que aquela prosa não era verdadeira, mas apenas uma invenção para excitar, enquanto se olhava para as imagens. Na outra história, entretanto, ao lado das fotografias dos dois homens a possuírem a mulher, o texto era igualmente estranho: “Enquanto eu entrava na cona sumarenta da minha mãe, o meu melhor amigo enfiava-lhe o caralho na boca, que ela chupava gulosamente”. Os fulanos que tinham feito a revista escreviam particularmente mal, e a questão edipiana, pelos vistos, era o seu forte. Os homens tinham pénis grandes e escorreitos, a mulher era bonita, e o resultado final impressionava: toda aquela entrega, a forma como ela se dava e pedia e fazia, era, não obstante aquilo não passar de uma puta e de dois “clientes”, todos pagos a dinheiro, de uma perturbante beleza. Trêza sentiu-se incomodada, enfim, com aquela constante referência a um filho a fazer amor com a mãe.
A chave a abrir a porta da rua fê-la sair precipitadamente dos seus pensamentos.
Quando o filho entrou no quarto, estava ela, corada mas aparentemente serena, a limpar de novo o pó, as revistas já de volta ao seu lugar. Não, tinham ficado com uma ponta de fora. Mas Rnátu aí estava.
— Olá, filho. Então, como foi o teu dia?
— Uma chatice. Dois testes.
— Correram bem?
— Um sim, o outro não.
— Ora aí está uma relação equilibrada. — Olhou à volta. — Pronto, aqui já está. Podias era dar-me uma ajuda.
— O que é que queres que eu faça?
— Nada. Basta apenas que não deixes a tua roupa suja espalhada por todo o lado.
Ele riu. Disse:
— Ainda bem que é só isso.
Ela saiu e foi limpar o pó da sala. Um filho fodia a mãe. Era mentira, porque era pornografia, mas era verdade, porque era possível. Que pensaria Rnátu disso? Seria caso de ele olhar para ela e pensar assim também, assim mesmo, macho, fêmea, sexo e nada mais, qual mãe qual filho qual quê? Bom, ele estava com dezasseis anos, as miúdas da mesma idade já tinham mamas, e ele por certo que de vez em quando se masturbava a pensar nelas. Porque não, então, a pensar nela também, uma mulher inteira, próxima, atraente?
Mais uma prateleira. Sacudir o pano à janela. E ela, com é que sentia isso? O marido longe. Não abandonada, não viúva, mas como se o estivesse, viúva de um vivo. Estranhos escondidos algures, só a vê-los. Como nas revistas. O filho estava ali, também próximo, mas conhecido. Íntimo.
Nessa noite, só adormeceu muito tarde. Tentava levar a imaginação mais longe. Rnátu, nu, sobre ela. Não, ele a entrar no quarto, para lhe desejar uma boa noite. Ela beijava-o. Não sentia nenhuma repulsa perante tal imagem. Antes pelo contrário, parecia-lhe natural. Ele a deitar-se sobre ela. O sexo dele. Ele a penetrá-la, a penetrá-la. O sono a vir, enfim, lá do fundo, muito devagar, com passos dengosos de lã macia.

3
Dois dias depois, ao almoço, decidiu pôr as cartas na mesa. Rnátu não tinha aulas de tarde, dissera que ia ficar em casa, estava tudo bem. Não havia nenhuma pressa, mas Trêza sentia, no seu íntimo, uma inquietação que precisava de resolver. Não lhe agradava ter dificuldade em conciliar o sono.
— Rnátu, tenho umas quantas perguntas a fazer-te. — Estava disposta a ser o mais directa possível.
— Diz. — Rnátu distraído.
— Na quarta-feira, quando estava a fazer a limpeza, encontrei no teu quarto umas revistas...
— Não são minhas — justificou-se ele de imediato, muito atrapalhado.
— Isso não me importa. — Olhou-o nos olhos, e ele mal conseguiu encará-la de frente. — Estive a vê-las. — Fez uma pausa. — E gostei de vê-las.
O olhar dele passou de defensivo a surpreendido.
— Achei-as excitantes — continuou Trêza. — Mas, quando li o texto, encontrei uma coisa que estranhei, e que me perturbou. Importas-te de as ir buscar?
— Já não as tenho.
— Porquê?
— Troquei-as por outras.
— Trás essas então.
Um minuto depois Trêza estava com as novas revistas à frente. Os intervenientes eram outros, mas as posturas e o texto anexo eram da mesma casa: numa, um pai e um filho faziam amor com a mulher e mãe, na outra era uma filha que fazia amor com o pai.
— É isto — disse Trêza — que eu não percebo. Em todas há uma relação sexual entre pretensos familiares próximos. A figura da mãe, então, é quase omnipresente. Olha para mim. Desejas-me? Gostavas de ir para a cama comigo?
— Tu és a minha mãe!... — começou Rnátu, num perplexo tom de protesto.
— Não foi isso que perguntei. Mas não interessa. Já foste para a cama com alguma rapariga?
— Não. Já fiz umas marmeladas, mas...
Trêza ficou a olhá-lo, por um tempo que a Rnátu parecia que nunca mais ia acabar. Estava um belo rapaz, alto, musculado, bonito, o cabelo brilhante, o rosto sem borbulhas. Sentiu claramente o sexo a ficar húmido. Após uma inspiração profunda, tomou uma decisão. Ainda pensou se estaria errada, de algum modo, mas, de facto, já não sabia como recuar. O seu desejo, a sua solidão, a sua maturidade falavam mais alto. Só não sabia qual seria a reacção de Rnátu. Já lhe fizera a pergunta certa, mas a resposta dele não fora concludente, pois ele hesitara, mesmo sem hesitar. Tanto melhor. Tanto pior. Ergueu-se.
— Anda comigo — disse.
Ele seguiu-a, até ao quarto dela. Ela fechou as cortinas e o quarto mergulhou numa semi-‑obscuridade embaladora. Voltou-se então para Rnátu, aproximou-se dele, enlaçou-o pela cintura e pediu-lhe que a abraçasse também.
— Desejas-me?
E Rnátu disse, muito baixinho:
— Sim.
— Queres fazer amor comigo?
— Sim. — A sua voz estava rouca.
Beijaram-se. Trêza desapertou o cinto de Rnátu, depois o botão de cima das calças, depois correu para baixo o fecho, e depois o sexo dele estava ali, completamente caralho, prestes a explodir.
— Desaperta-me a blusa.
Rnátu assim fez, botão a botão, e os seios de Trêza surgiram em todo o seu esplendor, dentro do soutien branco quase transparente.
Peça a peça foram-se despindo, até ficarem nus, e ambos desvairados de desejo, Trêza numa fome há muito por saciar, e Rnátu noutra semelhante, por mais imberbe que fosse. Não foram para a cama, mas antes se deitaram no chão, no tapete grande e felpudo, selvagem.
Em duas horas, Rnátu aprendeu com a mãe o que com uma rapariga da sua idade por certo não aprenderia em seis meses, passe-se a diferença da firmeza das carnes de uma e de outras como elemento de excitação.
Eram então três da tarde quando Rnátu se veio pela primeira vez na cona de uma mulher. Às quatro, pela primeira vez na boca. E às seis, após uma hora de repouso em semi-sonolência, na qual se limitaram a ficar deitados, imóveis, enlaçados um no outro, no cu. Para Trêza, como já se sabe, também era a primeira vez que saboreava esperma, que um caralho lhe entrava no cu, e ambas as coisas ela adorou. Rodeou o sexo do filho de mimos, até o ter de novo em pé, e pediu-lhe: “Fode-me outra vez no cu, mas não te venhas”.
E Rnátu fodeu-a, ainda mais meia hora, sem se vir, até que Trêza lhe pediu que acabasse, enfim, com aquela tortura, que desse cabo dela, pois não se achava merecedora de tanto prazer, e Rnátu, num esforço último para um dia de emoções tão intensas, verteu no cu da mãe as últimas gotas de esperma que ainda lhe restavam nos seus depósitos portáteis.

4
Um mês depois, já o marido tinha vindo de uma viagem e partido para mais outra — e logo ela correra a deitar-se com o filho, pois tinha ainda muitos dias de carência para recuperar e apagar — , deu consigo, em certa tarde, a ver-se ao espelho. Sentia-se feliz. Até a sua pele, estranhamente, retomara o antigo brilho. Fizera um corte de cabelo que lhe era mais favorável. Passara a frequentar, entretanto, um ginásio, onde ia três vezes por semana, e o corpo começava a mostrar os efeitos de todo esse regime: os músculos estavam mais firmes, o peito mais erguido, as curvas do seu corpo a tomarem nova harmonia. Tirava de tal facto um agrado que não se esgotava ali, mas que se concretizava também e principalmente na partilha com Rnátu desse seu corpo mais perfeito, para um prazer maior. Por outro lado, sabia que aquela situação não iria durar para sempre, pois Rnátu, mais dia menos dia, havia de conhecer uma qualquer rapariga de quem ia gostar, e ela não queria de modo algum interferir na ordem natural das coisas. Assim, noutra perspectiva, cuidar de si era também cuidar do seu futuro, quando tal se viesse a verificar.
Ainda sob os auspícios de todas estas ideias, avançou para aquilo que ela chamava, para si só, a “depravação”, ou, em outras vezes o “branqueamento moral” de Rnátu. Levou-o então a passear ao reino das suas fantasias antigas: os jogos com os pepinos, as ferramentas, os ovos. Fizeram a experiência com o óleo da cozinha, e foi fantástico, dez vezes melhor do que quando o fazia sozinha. Rnátu, entretanto, trouxe novas revistas, e filmes, e as suas sessões amorosas passaram a ser imitações de tudo o que viam um homem e uma mulher fazer juntos e eles ainda não tinham feito. Fumaram droga e fizeram amor, urinaram um sobre o outro, Rnátu introduziu-lhe uma mão entre as pernas e o sexo dela abriu-se gigantesco para a receber.
Mas as imagens de dois homens a fazerem amor com uma mulher estavam sempre a surgir, sobre todas as outras, e desde a primeira vez, quando descobrira aquelas revistas no quarto de Rnátu, e ela agora já não conseguia esperar mais. Disse a Rnátu o que queria. Ele nem sequer pestanejou. Só quis saber como é que havia de fazer. Trêza explicou-lhe. Rnátu achou que a ideia (o estratagema) dela era boa. E já não eram mãe e filho, ou amantes, mas cúmplices.

5
Rnátu entrou em casa com o amigo e levou-o para a sala. Serviu-lhe um whisky, pôs a rodar um filme, previamente preparado, serviu-se também de uma bebida e sentou-se ao lado do amigo. Claro que era um filme pornográfico, e claro que ficaram ambos excitados. Mais dois whiskies e uma hora depois, o filme acabou, e Rnátu, erguendo-se, disse para o outro:
— Anda. Quero que vejas uma coisa.
Entraram no quarto de Trêza. Ela estava deitada sobre a cama, de bruços, nua, adormecida.
— Queres fodê-la?
— O quê? A tua mãe? — E o rapaz parecia que lhe faltava o ar.
— Não te agrada? Não te preocupes, ela vai julgar que é o meu pai, ele faz-lhe isto muitas vezes. És homem ou não?
O outro, perante tal apelo ao seu orgulho de macho e tanta insistência, e após os whiskies e o filme, cedeu. Baixou as calças, deitou-se sobre Trêza e penetrou-a.
— Agora vou acordá-la — disse Rnátu, tirando o seu caralho para fora. — Mas continua, não tenhas medo.
Ergueu a cabeça de Trêza e colocou-lhe o caralho na boca. Trêza fingiu acordar, com um suspiro. Perguntou ao outro rapaz, que entretanto tinha parado:
— Tens muitos amigos como tu, ó fodilhão?
— Sim — respondeu ele, um pouco a medo. Percebia agora que tinha caído numa armadilha, mas, enfiado como estava naquela mulher magnífica, parecia-lhe que não fizera mau negócio, afinal.
— Ainda bem — disse Trêza. — Mas agora não pares. Eu sei que tu és capaz de ficar aí muito tempo.
Rnátu, esse, tornou a ocupar a sua boca. Agora estava livre, e já podia ter uma namorada, ou quantas quisesse: Trêza ia lá para a frente, muito ao longe, sozinha no seu delírio de prazer total. E aí, todos os seus amigos iam cuidar bem dela.

O INDIFERENTE

1
Ao fim de cinco anos de casamento, Judh’it fartou-se. Tinha um marido excepcional, e estava cansada disso. Era excepcional de mais: tudo o que ela queria, ele dava-lhe; tudo o que ela queria fazer, ele concordava; tudo o que ela lhe pedia para fazer, ele fazia. Era como comer sem pôr temperos na comida. Não que lhe agradassem as discussões, mas um pouco de discordância, de vez em quando, até lhe saberia bem. Costuma dizer-se que das discussões nasce a luz, e era essa luz que estava a fazer-lhe falta. Havia apenas uma outra, baça, uniforme, que não a iluminava nem aquecia. Durante cinco anos aceitara-a — cada vez, cada dia menos, na verdade — , com toda aquela forma meio-desligada meio-conscienciosa que o marido, Flip, tinha para fazer todas as coisas: amor, ou lavar o carro, ou atender o telefone, ou conversar com os amigos, ou trabalhar, ou comentar um programa de televisão. Era tudo o mesmo, no mesmo tom, e ela estava farta, pronto. Principalmente porque, com o tempo, descobrira que ele não era excepcional, nem bom, nem altruísta, nem perfeito. Era, e vivia, acima de tudo, num estado de absoluta indiferença, que camuflava através de um comportamento socialmente correcto, atencioso e cortês. Que pior gelo para o fogo do amor, que pior balde de água fria que a indiferença do ser amado? Judh’it estava certa do que sentia. Sabia que ainda amava o marido. Sabia que não o poderia suportar por muito mais tempo daquela forma. Que fazer? Tinha de tentar alguma coisa. Porque não acordá-lo? Porque não confrontá-lo com uma realidade qualquer que o obrigasse a sair do seu torpor de vegetal civilizado? Decidiu, por via de dar resposta a tais questões, arranjar um amante, e a escolha recaiu sobre o melhor amigo do marido. Não foi muito difícil seduzi-lo, até porque este passava o tempo a flirtar com ela, se bem que de forma mais ou menos discreta, e sempre em tom de brincadeira. Assim, quando o marido saía, entrava o seu melhor amigo, para dentro dos lençóis ainda quentes. Judh’it não se sentia totalmente bem com a situação, mas o facto de o outro homem ter um bom comportamento na cama ajudava-a a calar as inquietações da consciência. À noite, duas ou três vezes por semana, ele vinha visitá-los, e Judh’it logo punha em prática a segunda parte do seu plano: fazia com que o flirt se tornasse mais ambíguo (e menos brincalhão), encostava-se ao outro, poisava-lhe a mão no braço ou em cima da perna quando falava com ele, inventava pretextos para lhe apalpar os músculos (“essas idas ao ginásio parece que começam a ter os seus efeitos; Flip, porque não vais também com ele?”). Flip olhava-os, sorria, dizia que não tinha tempo, mas nada mais, como se nada visse.
Judh’it, perante o pouco êxito dos seus esforços, decidiu então arranjar segundo amante: um colega de trabalho do marido, do qual ele, segundo lhe constava, não gostava muito. Parecia-lhe (continuava a parecer-lhe) um bom argumento para que Flip prestasse mais atenção ao que se passava com ela, na sua própria casa.
Depois de um mês de fodas tempestuosas, alternando entre o primeiro e o segundo amante, Judh’it convidou-os a ambos para um serão em sua casa, com o pretexto de comemorar o começo da primavera. O colega de Flip traria a mulher, e o amigo, velho solteirão, viria sozinho. Consultou Flip, para saber se ele teria alguma objecção a colocar à sua ideia, mas ele limitou-se a dizer que comemorar o começo da primavera era uma ideia um bocado estranha.
Assim, no dia aprazado pelo calendário, encontraram-se todos à mesma mesa, perante um jantar que aparentava ser delicioso. Judh’it esmerara-se, não só com a comida, mas também com a sua imagem: vestira um vestido curto e muito decotado, florido, a condizer com a estação que começava nesse dia, pusera uma maquilhagem leve, brincos, e apanhara o cabelo num carrapito ondulante por cima da cabeça. Estava muito bonita, e Flip disse-lho.
— Ainda bem que gostas. Beijas-me?
Flip beijou-a nos lábios, mas sem encontro de línguas nem de salivas nem chamas bruxuleantes na alma derretida. Como sempre.
Entretanto, a campainha tocou e chegaram os convidados, e ali estavam eles agora, à mesa, Judh’it a servi-los e as conversas levemente a aquecer, depois dos aperitivos. A mulher do colega de Flip era uma fulana baixinha e apagada, mas simpática, e que logo se prontificou para ajudar Judh’it no que fosse preciso. Mas não era preciso nada, pois estava tudo muito bem organizado. À primeira garfada, choveram elogios sobre a cozinheira, que ela agradeceu com uma vénia amaneirada, e uma gargalhada jovial. Os copos encheram-se e esvaziaram-se repetidas vezes, em brindes vários, à Primavera, ao amor, ao sucesso e à beleza. Quando acabaram, já todos estavam um pouco embriagados. Tomaram café, conhaque e fumaram umas cigarrilhas e uns charutos que Judh’it comprara de propósito para a ocasião.
O conhaque por cima do vinho deu asas à imaginação de Judh’it. Apetecia-lhe dançar. A sala era grande. Judh’it apagou as luzes, excepto a do candeeiro de pé a um canto, e pôs música lenta. Convidou Flip, mas ele disse que se sentia muito cheio para isso. Ela não insistiu, e pediu autorização à outra mulher para dançar com o marido dela. “Esteja à vontade”. Oh, ela estava. Dançou então um pouco com ele, só para abrir o baile, e depois foi convidar o outro homem para mais umas voltas. Flip conversava com a mulher do colega.
Judh’it encostou-se ao seu par, e bichanou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Ele riu, e as suas mãos poisaram nas nádegas dela, conduzindo-a para um balanço mais sensual. Judh’it atirou a cabeça para trás, numa gargalhada onde se podia ouvir o tinir dos copos de vinho que já bebera. O homem fez que lhe cheirava o pescoço, e depois soltou-a. Flip continuava a conversar.
Judh’it pegou na mão do seu par e levou-o para fora da sala. No corredor, abriu-lhe a braguilha, tirou-lhe o caralho para fora e chupou-o até ele se vir. Regressaram à sala. O colega de Flip estava a dançar com a mulher, e Flip continuava sentado no sofá, a vê-los e a fumar. Judh’it sentou-se a seu lado e beijou-o, a boca ainda com um ténue sabor a esperma. Flip sorriu-lhe. Disse: “Estava óptimo, o jantar”. Judh’it devolveu-lhe o sorriso, mas era amargo o seu. Nada daquilo fazia sentido, afinal. Porque é que ele era assim? O que é que ele estava a fazer dela? Onde é que aquilo ia acabar? Bebeu mais um conhaque, e sentiu-se tonta. Quando os outros saíram, já ela tinha adormecido, sentada no sofá.

2
Acordou no dia seguinte, ainda no mesmo sítio, mas deitada, e com um cobertor a tapá-la. Flip já tinha saído. Doía-lhe a cabeça. Tomou duche e saiu também. Esteve todo o dia fora e só voltou tarde. Encontrou Flip na sala, a ler.
— Onde estiveste? — perguntou ele, em tom neutro.
— Andei por aí. Já jantaste?
— Já. Fui a um restaurante.
Judh’it sentou-se. Olhou para ele.
— Tenho um amante — disse.
Ele olhou-a.
— Queres falar disso? — perguntou.
— E tu?
— Se tu quiseres.
— Está bem. É um amigo teu, e fode bem.
— Sabes que não gosto de ouvir esse tipo de linguagem.
— Azar teu, por que eu gosto de a usar. O tipo fode bem, mas começo a fartar-me dele. Estou a pensar em arranjar outro. Que achas?
— Sabes que eu não interfiro em nada do que tu fazes, mesmo que não entenda, como é o caso, porque o fazes. Não me parece correcto o teu comportamento, mas só tu podes chegar a uma acertada conclusão acerca disso.
Ele não entendia? Ele não entendia? Então ele ia explicar-lhe. E Judh’it falou, disse tudo o que lhe ia no espírito há já tanto tempo, a magoá-la, a destruí-la, a indiferença dele, o silêncio, aquela infinda e estúpida aquiescência com tudo o que ela fazia, a humilhação de se sentir invisível perante ele, e então aquela coisa dos amantes, para ver se ele reagia, por uma vez que fosse, e ele ali estava, afinal como sempre, a dizer que não entendia.
E a resposta dele foi:
— Eu sou como sou, e não vejo mal nenhum no meu modo de ser. Talvez não te agrade, mas tu já me conhecias, quando casaste comigo, e mesmo assim casaste comigo.
Claro, pensou ela. Confundi indiferença com reserva, e casei contigo. Por isso, eu é que estou errada. Por isso, não importa que nada disto faça sentido, porque o sentido é mesmo esse, não ser nada e seguir para diante, até ao fim do erro.
Ergueu-se.
— Estou cansada — disse. E foi-se deitar.

3
De dois amantes passou a três, e depois a quatro, e depois a cinco. Às vezes recebia dois ou três ao mesmo tempo. Eles não se importavam de partilhá-la, e Judh’it reencontrava nesses prazeres bizarros de total possuída a vida que perdia por todos os outros lados.
Uma vez Flip chegou a casa quando ela estava acompanhada. Quando ele quis entrar no quarto, a porta estava fechada. Ela disse-lhe lá de dentro:
— Vem mais daqui a bocado. Agora estou ocupada.
Flip, enquanto se afastava, ouviu ainda as suas gargalhadas, bem como as do homem que estava com ela.
Noutro dia, aconteceu a mesma coisa, mas a porta do quarto estava aberta, e Flip entrou, julgando, talvez, que ela não estivesse em casa.
— Ah, desculpem — disse, quando os viu.
— Está à vontade — respondeu-lhe Judh’it. — Não queres juntar-te a nós?
Flip, mudo, tornou a sair.
Sim, Judh’it matara finalmente o amor. No seu lugar, apenas ficara um desprezo que a cada dia se tornava maior. Agora, ela só pensava em humilhá-lo. Ainda havia de pôr um letreiro na porta: “A puta do 111, fodas oferecem-se”. Ou foderia na varanda: um bom espectáculo para os vizinhos.
Em vez disso, reuniu, em certa noite, todos de uma só vez, os seus cinco amantes. Quando o marido chegou, eles agarraram-no, despiram-no, amordaçaram-no e, depois de o terem amarrado, fizeram-no sentar no sofá, de onde, impotente, ele viu Judh’it a fazer um strip-tease de circunstância, após o qual os cinco homens a possuíram. Depois, ela, malévola, sugeriu que fizessem também qualquer coisinha ao marido, que estava para ali abandonado e triste, e foi assim que, um após outro, todos o violaram, enquanto ao lado, ao mesmo tempo, Judh’it se fazia possuir de novo pelos que não estavam ocupados com Flip, e por todas as formas que a imaginação lhe ia sugerindo.
Quando eles saíram, ela deixou-se ficar no chão, ao lado de Flip, ainda amarrado. Tirou-lhe a mordaça.
— Então, satisfeito? — perguntou ela, a ofegar, triunfante.
E ele respondeu, depois de um longo silêncio:
— Amo-te.

O MELHOR FILME DO MUNDO

1
Depois de ter realizado três filmes que redundaram em estrondosos fracassos comerciais, apesar de um deles ter ganho um prémio num festival de cinema lá para os cus de judas, Juzué, Juzué de Kástru, de seu nome artístico, retirou-se das suas lides, durante dois anos, para “reflexão profunda”, conforme ele referiu numa entrevista dada a uma revista da especialidade.
Durante esses dois anos, em que reflectiu pouco e viajou muito, Juzué foi começando a arquitectar o monumental argumento para o filme do seu regresso, enquanto, em simultâneo, ruminava a sua nublada bílis contra todos aqueles que estavam contra ele: os críticos, que o invejavam; o público, que não o compreendia, e que, primeiro, acreditava nos críticos; e os produtores, que nunca lhe davam dinheiro que chegasse e depois queriam obras-primas, que, para mais, deveriam ser comerciais. Pois todos eles iam ver do que ele era capaz. O seu regresso ia ser fulminante, ou ele não se chamaria mais Juzué de Kástru, um verdadeiro realizador de cinema, um artista.
Entretanto, numa dessas suas viagens, conheceu ele, por mero acaso, um produtor ligado à área do cinema pornográfico, o qual, surpreendentemente, avançou para ele com uma proposta: tendo visto os seus filmes, e gostando deles (conhecia de cor cenas das quais já nem Juzué se lembrava bem), achava-o o autor ideal para levar avante uma ideia que ele, produtor, há muito acalentava, e que seria um filme porno capaz de cativar não os tarados do costume, mas a intelectualidade, e, porque não?, as pessoas de bem.
“Pessoas de bem” não soou mal a Juzué. Mas “porno” soou-lhe ainda melhor. Doce mas implacável seria a vingança, pois então. O destino encarregara-se de lhe mostrar o caminho. Já via os títulos: “Cineasta polémico vai ainda mais longe”, “As obras-primas não são escandalosas”, “Óscar para o melhor realizador estrangeiro”, “Esconda os filhos e veja dez vezes — este é o filme”. E aceitou a proposta.
O argumento que andava a esboçar mudou logo de direcção, mas a história de base manteve-se sensivelmente a mesma. No encontro seguinte, apresentou uma sinopse para apreciação, bem como excertos de alguns possíveis diálogos para as primeiras cenas, já corrigidos segundo a nova perspectiva. O produtor mostrou-se francamente entusiasmado, e estiveram a tarde inteira a estudar o desenvolvimento da ideia, os pormenores, os materiais, o casting, os cenários, a iluminação — os custos — , e tudo o mais, enfim, que diz respeito à feitura de um filme, desde a concepção da ideia até à exibição nas salas.
Quando chegou a altura do casting, foi a vez do entusiasmo de Juzué crescer em flecha: o outro mostrou-lhe uma colecção de fotografias dos actores possíveis — rosto e corpo inteiro, nu, em vários ângulos, os homens com e sem erecção — , e Juzué ficou particularmente impressionado com a beleza e a perfeição física de algumas mulheres.
— Ainda faço melhor — disse o outro, a dado passo. — Tenho aqui duas cassetes de vídeo com excertos de filmes em que todos estes actores e actrizes participaram. Leve isso tudo, analise o material e depois comunique-me as suas escolhas. E esteja à vontade, que todos eles estão disponíveis. E se não estão, passam a estar. Vamos avançar ainda este mês com o filme. Estou muito satisfeito consigo.
Juzué também estava. Com tudo o que se estava a passar. Saiu da reunião a uma velocidade mach 4 e só parou quando se achou em casa, frente à TV, a primeira cassete de vídeo pronta a rodar. Carregou no play do telecomando e recostou-se no sofá. Cada cena não durava mais de cinco minutos, mas em cinco minutos cabia muita coisa. Cada nova cena acrescentava mais uma linha de conhecimento ao caderno sexual de Juzué, afinal ainda tão vazio, conforme ele estava a constatar. Havia coisas que ele nem sequer sonhava que se fizessem, e apercebeu-se assim, pela primeira vez, da verdadeira dimensão e da grande seriedade do projecto em que se envolvera.
Nessa noite não dormiu. As cassetes rodaram, cada uma, quatro vezes. As fotografias, essas, ainda mais. Às sete da manhã, enfim, o casting estava definido: quatro homens e quatro mulheres (ele sempre tivera a obsessão dos números pares). Para cenas menores, mais três mulheres e dois homens. Uma das mulheres era especialista em relações íntimas com animais. E todos, mas mesmo todos, já tinham tido desempenhos bissexuais. Para a cena final, conforme o guião a fazer-se, um transexual.
Enviou a sua escolha para o produtor, por fax, e foi-se deitar. Teve um sono agitado, de uma ponta à outra povoado por estranhíssimas imagens. Eróticas, claro. Pornográficas, de facto. Naturais, portanto, dentro daquela azáfama.

2

SINOPSE:
Um homem põe um anúncio num jornal de encontros sexuais.
Nesse anúncio, apresenta-se como professor de sexo.
Começa a receber respostas.
Selecciona algumas, e avança no seu “trabalho”.
Ao fim, apaixona-se por uma das suas “clientes”,
afinal um transexual.
Em paralelo:
filmagem da filmagem do filme.

Juzué vivia numa casa antiga, mesmo no centro da cidade. Era uma casa enorme, com dezasseis divisões (fora a cozinha, as casas-de-banho e as quatro arrecadações), um pátio ajardinado nas traseiras, e ainda, ao lado esquerdo desse pátio, uma construção com uma só divisão, e que ele utilizava como armazém privilegiado para todas as porcarias que já não prestavam mas que ele não se decidia a mandar fora. Curiosamente, as arrecadações, nesse momento, encontravam-se praticamente vazias.
A primeira fatia do orçamento foi para algumas reparações e remodelações na casa, já que a maior parte das filmagens iria decorrer ali.
Assim, após umas super-atarefadas três semanas, Juzué tinha a casa como nova. Até as flores desabrochavam no pátio, por entre as duas ou três árvores velhas que lá havia. Entretanto, todos os contactos (e contratos) com os actores e actrizes estavam feitos, a equipa de filmagem definida e o guião escrito e reescrito.
Pelas contas de Juzué, as filmagens em interiores seriam feitas numa semana. Depois, mais outra semana para as cenas de exteriores. Enfim, mais duas semanas para o som e a montagem. Num mês — supondo que não havia atrasos, e havia-os sempre — , o filme estaria pronto para ser distribuído.
Por decisão do produtor, e caso Juzué não visse nisso inconveniente, ficariam os participantes do filme alojados em casa dele: era grande o bastante para isso, e assim sempre se poupava algum dinheiro. Juzué concordou com a ideia. A proximidade quotidiana com a equipa interessava-lhe: para além de acreditar que essa envolvência com o local de trabalho teria reflexos positivos no próprio trabalho, também sentia uma enorme curiosidade em conhecer em pormenor aquele género tão peculiar de actores.
Assim, no primeiro dia do mês seguinte, encontraram-se todos reunidos, conforme acordado, em casa de Juzué, que decidiu começar os trabalhos da melhor forma, ou seja, com um almoço colectivo. O produtor estava muito bem disposto; conhecia toda a gente, e contou anedotas, riu com grandes gargalhadas e comeu e bebeu por dois.
Juzué achou os homens todos parecidos: fato, lenço ao pescoço ( e até gravata), muitos anéis e todos mais velhos do que aparentavam. Mas a atenção dele caiu principalmente sobre as mulheres: eram todas despudoradas, maliciosas e com grandes decotes. No entanto, a maior surpresa, para si, foi o transexual: era de uma beleza espantosa, que inquietou Juzué. Ainda por cima, agia com maneiras de grande senhora. As próprias mulheres estavam fascinadas com ele.
Após o almoço, estiveram um bocado no pátio, a beber o bom brandy de Josué e a fumar, enquanto conversavam displicentemente acerca de trabalhos que tinham feito, da cidade e da sua vida nocturna, das vidas privadas uns dos outros, de sexo e de dinheiro.
Às cinco da tarde, reuniram-se na sala maior, e Juzué fez-lhes a explicação de como é que o trabalho ia decorrer. Entregou, a cada um, um cronograma das actividades e uma versão actualizada do guião (eles já tinham uma outra, mais antiga, e ainda sem diálogos). Pediu que o lessem com muita atenção, com especial ênfase nas partes que diziam respeito a cada um. A dado passo da explicação, quando Juzué já se estava a perder no desenvolvimento da ideia de que aquele iria ser um filme diferente, um filme sério, com diálogos pertinentes e inteligentes, um dos actores, fechando com firmeza o guião, que estivera a ler precisamente com a atenção que lhe fora solicitada, interrompeu-o:
— Mas isso quer dizer que vamos ter de estar a falar enquanto estamos a foder?
Juzué, perante tal questão, achou por bem passar a palavra ao produtor. Este não se fez rogado.
— A pornografia não é futuro para ninguém. — Começou ele, com muita certeza. — O tempo passa, as pichas e as mamas ficam caídas, e os vossos cus, as vossas conas, as vossas bocas, acabam por se parecer mais com saídas de esgoto que com qualquer outra coisa. Assim, quando as portas deste cinema se fecharem sobre as vossas caras e os vossos corpos artificialmente bronzeados, o que é que vocês vão fazer? Montar sex-shops? Editar revistas pornográficas? Não. Eu digo-vos: vão passar fome. E porquê? Também tenho a resposta para essa pergunta: porque não souberam precaver o vosso futuro. Este filme que agora vão fazer talvez possa ser, então, a solução de que precisam. Se for feito como nós pretendemos, acreditamos que chegará muito longe, a um público que vocês nunca tiveram. A crítica falará de vocês como actores, e, se essa crítica for como nós a desejamos, ou seja, boa, será muito possível que alguém vos convide para fazer outro tipo de filmes. Sejam belos como sempre foram, e o primeiro passo estará dado. Mas, atenção, isso não bastará. Têm também de ser sensíveis, e capazes de transmitir aos espectadores as mais variadas emoções. Dizer: “oh, sim, querida, chupa-mo todo” ou: “vá, força, mete-mo todo”, isso, aqui, não é nada. Vão estar a foder e vão falar, sim. Por isso, podem começar já a rever as vossas aulas de arte dramática, se é que as tiveram alguma vez, pois vão mesmo precisar delas. Amo-vos a todos. Tenho dito.
Soou um grande aplauso. Ele agradeceu, e Juzué retomou então o seu próprio discurso, agora já centrado nas questões práticas. Começariam a filmar daí a uma semana, e os próximos dias seriam dedicados a ensaios. Os dias de filmagem começariam às oito da manhã, com uma hora para preparar os espaços onde decorreria a acção, tomar o pequeno-almoço, e dar os últimos ajustes nas cenas do dia. Três horas de filmagens até à uma. Da uma às duas, caso não houvesse atrasos, almoço. Depois, duas horas de descanso, “para a digestão”. Das quatro às sete, filmagens. Das sete às oito, uma hora livre. Das oito às nove, jantar. Das nove às dez, visionamento, em vídeo, do material filmado durante o dia.
Finda a exposição, perguntou se havia algumas dúvidas. Não, não havia (apesar do facto de terem de se levantar cedo não fosse do agrado da maioria). Fosse como fosse, estava tudo muito bem explicado no cronograma. Juzué frisou que aquilo era mesmo para cumprir. Quando estava a filmar, o que mais apreciava era a disciplina. Ah, sim, uma última coisa: no dia seguinte, o guião já era para estar lido. Oitenta páginas também não era assim muito, pois não?

3
No dia seguinte, só quatro pessoas tinham lido o guião todo. Uma das actrizes disse a Juzué que tinha gostado da história, que estava, de facto, muito imaginativa, mas que, no fundo, afinal, era só mais uma história de foder até partir.
— Há as situações, no entanto. Os diálogos.
— Pois — contrapôs a actriz, simplesmente, com se ele estivesse a falar de outra coisa qualquer.
O actor que ia fazer de “Professor” mostrou-se, desde o início, um tipo algo problemático: considerava-se já uma vedeta, e não parou de sugerir modificações a todas as cenas. Quanto a uma delas, em particular, recusou-se pura e simplesmente a fazê-la: de modo nenhum cagaria na boca de uma mulher. Mijar, ainda mijava, mas cagar, nunca. Nem o facto de a actriz com que ia contracenar com ele nessa cena dizer que não se importava o fez mudar de ideias, e Juzué não teve outro remédio senão mudar a cena, com recurso à trucagem (um cagalhão feito de chocolate) e uma filmagem meio atabalhoada (“psicadélica”, disse alguém), para não se notar a falsidade da coisa.
Depois, quando começaram a ensaiar os diálogos, os problemas tornaram-se mais sérios. As mulheres, de um modo geral, portaram-se melhor que os homens, mas estavam todos muito teatrais, o que era a última coisa que Juzué pretendia. Não, nada daquilo estava bem, e ele deu por si, em dado momento, aos berros, descontrolado.
— Então, filhinho — acalmou-o uma das actrizes, em tom displicente e nua dos cabelos às unhas dos pés — , assim é que não vamos a lado nenhum.
Juzué deu um pulo de entusiasmo com o tom da intervenção dela:
— É isso mesmo, é só isso. Sejam naturais. Sejam vocês próprios. Os personagens acabarão por aparecer.
Ninguém o percebeu, mas prosseguiram. De facto, os resultados não melhoraram muito, e Juzué pensou se estariam, de facto, a fazer as coisas da melhor maneira.
À noite, como tinham filmado todo o ensaio em vídeo, fizeram o primeiro visionamento, com Juzué a parar sistematicamente a fita, quase imagem a imagem, para apontar os erros um a um, e eles a dizerem que sim, que entendiam, que era fácil, que iam fazer melhor, sem dúvida.
Na manhã seguinte, mais dois tinham concluído a leitura do guião.
— Isto está a melhorar — comentou Juzué, irónico.
E a semana prosseguiu, no mesmo ritmo. Todos os dias Juzué fez modificações nos diálogos, até que a versão final já pouco tinha a ver com a original. Mesmo assim, parecia-lhe, conseguira salvaguardar as intenções fundamentais do filme. E, o que era o melhor de tudo, tinha posto os actores a representar verdadeiramente, e bem.
No último dia da preparação para as filmagens, fizeram um ensaio final, de manhã, e à tarde um check-up aos corpos, para ver se estava tudo bem, sem cicatrizes, sem período, com tesão. Por aí, tudo bem. Juzué pensou que seria tudo mais fácil se os sexos falassem. (E ora aí estava uma boa ideia para um filme. Talvez a seguir àquele, se tudo corresse bem).
À noite, fizeram uma pequena festa, em que todos se embriagaram, mas não em excesso.
Uma das actrizes fez questão em dormir com Juzué.

4
— Acção!
Mal a palavra mágica foi pronunciada, o actor que fazia de Professor, sentado frente a uma televisão onde passava um filme pornográfico, começou a masturbar-se. Fazia-o de um modo calmo, metódico, um pouco como se estivesse a acabar de bater umas claras em castelo.
— Envolve-te mais — disse Juzué.
— Como? — respondeu o outro. — A ver um porno?
— O que é que queres?
— Motivação. Qualquer coisa nova.
— Por exemplo.
— Olha, a anotadora podia mostrar as mamas, ou levantar a saia.
Juzué olhou para a anotadora. Ela disse que não fazia isso.
E foi a maquilhadora que salvou a situação.
— Eu não me importo. Achas que sirvo para ti? — Estava frente ao actor, a cabeça erguida, altiva.
— Novidade é novidade — disse ele.
Recomeçaram. Aparentemente, para a câmara que o filmava, o actor continuava a olhar para a televisão, mas de facto quem estava na mira do seu olhar era a maquilhadora, uma mulher dos seus quarenta e cinco anos, alta e com grandes seios.
— Filmem-na também — ordenou Juzué, para uma das outras câmaras. Uma terceira câmara mais filmava tudo, a maquilhadora a despir-se, o actor a masturbar-se, a anotadora de olhos muito abertos e Juzué de um lado para o outro.
Depois de tirar a bata de trabalho, a maquilhadora punha agora os seios para fora do soutien e da blusa. Depois ergueu a saia, deitou-se no chão, tirou as cuecas e afastou os lábios da cona com os dedos. O actor estava a conseguir fazer um bom trabalho. O esperma saltou.
— Corta — disse Juzué. — Excelente.
A maquilhadora ergueu-se e compôs-se. Juzué agradeceu-lhe.
— Não foi nada — disse ela, descontraída. — Sempre foi meu desejo fazer um dia uma coisa destas. Mal posso esperar para contar ao meu marido.
Na cena seguinte, o Professor contracenava com um hipotético casal. Quando chegaram à parte em que os dois homens possuíam a mulher ao mesmo tempo, um enfiado no cu e outro na cona, Juzué começou a transpirar.
— Sente-se bem? — perguntou-lhe a anotadora.
— Sim, sim — respondeu Juzué, apressadamente. A verdade é que estava com tesão há mais de duas horas, e já não aguentava mais.
Mal a cena acabou, disse:
— Almoço.
E foi a correr para a casa-de-banho. Masturbou-se furiosamente, e depois de se vir sentiu-se mais aliviado.
Almoçaram — um almoço ruidoso e animado pelas conversas mais obscenas — , felicitaram a maquilhadora pelo seu desempenho, e às quatro recomeçaram, tal como estava planeado.
A cena que agora iam filmar era complexa, envolvendo cinco actores, e gastaram toda a tarde nela, com breves intervalos para a recuperação das tesões e a lubrificação artificial dos cus e das conas, pois nenhum deles estava particularmente excitado.
— Está muito calor aqui — queixou-se um, à laia de justificação.
— Ainda devia estar mais, não acham? — afirmou Juzué.
O “Professor”, sempre com novas ideias na manga, disse que, para aquilo funcionar mesmo em pleno, toda a gente no quarto devia estar nua: os cameraman, o realizador, os luminotécnicos, a anotadora.
Juzué percebeu muito bem o que ele queria. Disse-lhe que se deixasse de gracinhas. Mas os outros actores protestaram: o “Professor” tinha razão, todos nus é que era. E que já não se faziam filmes como antigamente. E que fazia ali muita falta um bocado de coca.
— Eu tenho aqui um bocado — confessou-se um dos cameraman. — E não me importo de me despir.
Foi a confusão geral, com uns a despirem-se, outros a snifar o pó e Juzué a clamar por ordem. Cinco minutos depois, só Juzué e a anotadora ainda estavam vestidos, mas os ânimos já se encontravam mais calmos. Agora estavam todos a olhar para eles. Juzué conferenciou com a anotadora em voz baixa.
— Você é casada?
— Não.
— É virgem?
— Não.
— Quer ajudar-me?
— É esse o meu trabalho.
— Então dispa-se, querida. Tem vergonha?
— Tenho.
— Não tenha. A sua figura é bastante agradável.
Nem ele sabia quanto. Ela despiu-se, muito devagar, a medo, com Juzué a seu lado a fazer o mesmo, e quando ficou toda nua todos estavam a olhá-la: tinha um corpo magnífico. Juzué, numa súbita inspiração, tirou-lhe os óculos e soltou-lhe o cabelo. Sim, era perfeita. Não pôde evitar que o sexo lhe crescesse uns centímetros. Uma das actrizes, mais atenta, aproximou-se, agarrou-lho e afirmou, maliciosa:
— Nada mal, senhor realizador.
— Vamos mas é ao trabalho — comandou Juzué, embaraçado.
À noite, depois do visionamento das filmagens, pediu à anotadora para ficar mais um pouco, porque queria fazer algumas modificações ao que estava preparado para o dia seguinte.
Sentaram-se os dois, portanto, à mesma mesa, um de cada lado, mas Juzué não estava a conseguir concentrar-se. Não tirava os olhos dela, e perdia-se a meio das frases. De repente, apercebeu-se de que se tinha apaixonado, e agora não sabia como lho dizer. Que pensaria ela dele? E de tudo aquilo?
— Acho que estou muito cansado — disse ele, enfim. — Pode ir para casa. Amanhã acabamos.

5
As filmagens decorreram bem até ao fim, havendo apenas a assinalar uma cena de uma mulher com um cão que deu um tremendo trabalho a fazer. O cão nunca mais se resolvia a montá-la — andava só à volta dos caralhos dos homens, a cheirá-los — , e foi preciso um dos actores enfiar-lhe um dedo no cu para que ele se excitasse a sério.
— O Walt Disney também tinha problemas destes com os animais — disse alguém.
— Mas não com cães maricas — ripostou outro.
Houve ainda um breve incidente com a vizinha que morava por cima da casa onde estavam a fazer as filmagens, porque o marido, homem de sessenta anos mal vividos, passava o tempo a espreitar as mulheres que no pátio das traseiras apanhavam banhos de sol com os seios à solta. Juzué pagou-lhe pelo incómodo causado, e ela não lhe tocou mais à campainha.
Chegou, enfim, o último dia das filmagens. Fizeram a cena com o transexual, que tinha um caralho enorme, afinal, e, por contraste, o tal rosto perfeito de donzela. Uma vez mais, Juzué foi a correr para a casa-de-banho. Andava agora a masturbar-se quatro vezes por dia. Felizmente que aquilo estava a acabar.
À tarde, Juzué fez uma filmagem suplementar com cada actor, individualmente, uma espécie de entrevistas, em que os diálogos eram mais ou menos assim:
PERGUNTA: Sexualmente, o que é que mais gosta de fazer?
MULHER: Bom, eu gosto que me enrabem. Também gosto de fazer broche. Gosto de foder com três tipos ao mesmo tempo. E gosto que se venham na minha boca e nas minhas mamas.
PERGUNTA: E sente prazer?
MULHER: Às vezes.
/.../
PERGUNTA: É mesmo bissexual ou isso é só para os filmes?
HOMEM: Quando comecei, as coisas eram diferentes, percebe? Era tudo mais simples. Depois comecei a fazer isto assim. Quer dizer, um tipo habitua-se. Não é mau de todo.
PERGUNTA: E sente prazer?
HOMEM: Depende. Mais com as mulheres. E com alguns homens também, porque não?
À noite, fizeram uma grande jantar de despedida, com toda a gente em grande euforia. Depois de comerem, ninguém ficou à mesa. Embriagados, todos muito alegres e satisfeitos, andavam pela casa a correr uns atrás dos outros, com o cão maricas a ladrar atrás de todos e a música alta. Mais tarde, acabaram todos a foder com todos, por onde calhava, no chão, nas camas, na cozinha, nos corredores. Juzué, como o visitante de um museu, andava por ali a pairar, de câmara de vídeo em punho, a apanhar as melhores imagens.
De súbito, estacou. À sua frente, ajoelhada, a anotadora chupava o caralho do actor-‑”Professor”. Desligou a máquina e deu meia volta.
Estava então no pátio, a fumar um cigarro, um copo com whisky na mão e o coração destroçado, quando uma voz atrás de si perguntou:
— Posso sentar-me?
Era a anotadora.
— Faça favor — disse ele, com um sorriso contrafeito.
Ela sentou-se.
— Então, como se sente? Satisfeito?
— Com o filme?
— Sim.
— Acho que estou. Só depois da montagem é que lhe poderei dar a resposta final.
— Desculpe a pergunta, mas é que vi-o aqui tão sozinho que pensei que estivesse aborrecido com alguma coisa. E agora, que estou a olhar para si, vejo que está triste. Porque é que não vem para dentro? Vamos dançar um pouco, a música está óptima.
— Não, vá você, eu estou bem aqui.
— Ora, deixe-se disso. Eu tenho a certeza de que deseja dançar comigo.
Pegou-lhe na mão e ergueu-se.
— Venha.
Juzué resignou-se a acompanhá-la. Amava-a, e contra isso não conseguia fazer nada. Nem quanto a isso nem quanto ao que vira ela a fazer na sala.
Dançaram. Ela encostou-se a ele, e Juzué começou a sentir-se muito bem, afinal, a cheirá-la, a receber o seu calor, a entesar. Agora ela agarrara-se a ele num abraço muito encorajador, envolvente, apaixonado. Juzué não resistiu a aflorar-lhe o pescoço num beijo tímido.
— Sim — sussurrou ela. — Beija-me.
Ele beijou-a nos lábios. Ela deu-lhe a língua. Juzué subiu ao céu, ofegante.
— Amo-a — confessou, enfim.
— Eu sei — disse ela.

6
Finalmente, o filme ficou pronto. O produtor trabalhara bem, e a estreia fez-se quinze dias depois.
Uma vez mais, Juzué de Kástru assinara um flop. A crítica desancou-o, dizendo que não era inteligível que um realizador sério se perdesse em exercícios de gosto duvidoso numa área que nem um género cinematográfico era. Desancavam ainda o argumento, que era demasiado pretensioso, os actores, que eram bons naquilo em que eram, e péssimos em tudo o resto. Havia um que até o cão criticava.
O público, por outro lado, também não aderiu grandemente ao filme. Aparentemente, os diálogos aborreciam, e nem as cenas de sexo, bem filmadas, pareciam compensar esse aborrecimento. Numa espécie de sondagem levada a efeito pelo produtor, um espectador resumiu tudo na seguinte frase: “Sexo é sexo, e o resto é conversa”.
— Que se lixe — disse o produtor a Juzué. — Nós sabemos que é um bom filme. Mais que isso: um filme pioneiro.
Juzué também era dessa opinião. Mas isso agora não lhe importava. A anotadora estava em sua casa, à sua espera, magnífica. Tinham decidido casar. O que era um bom filme, comparado com isso?
— O que é que vai fazer agora?
— Agora vou descansar. E depois, vou fazer outro filme. — Juzué olhou-o nos olhos. — Posso contar consigo?
— Um filme sério?
— Um porno sério. Outro porno com ideias.
Andava a preparar a sua futura mulher. Ela ia ser a actriz-revelação do seu próximo filme. Nenhum crítico o faria desistir.
— Pode contar comigo — afirmou o produtor, impressionado.

O MELHOR AMIGO DO HOMEM

1
— Bléque.
O homem chamava o seu cão, que andava no Parque à caça dos coelhos que não havia.
— Bléque — tornou ele a chamar, mais incisivo.
E lá vinha o cachorro, a correr que nem um doido.
— Agora vamos para casa. Hoje ainda tenho muito para fazer.
O homem chamava-se Tumé, e trabalhava como tradutor. Não ganhava mal, mas, para isso, tinha de trabalhar bastante. Assim, as suas únicas distracções eram as saídas com Bléque, e uma ou outra ida ao cinema. Vivia sozinho, e ele é que cuidava de tudo em casa: cozinhava, lavava a roupa, passava a ferro, limpava, mudava as lâmpadas fundidas, sacudia os cobertores e os tapetes. Gostava de viver assim, e Bléque era uma óptima companhia. Falava muito com ele, e às vezes tinha a impressão, pelo modo como o cão o olhava, de que ele o percebia realmente. Assim, a pouco e pouco, habituara-se a dizer, de viva voz, tudo o que lhe ia no espírito, sempre com Bléque como ouvinte privilegiado, o olhar atento e as orelhas erguidas.
Sem desejo de viver com uma mulher, mas com desejos sexuais normais, Tumé resolvia tal questão com uma ida quinzenal às prostitutas. Quando chegava esse dia, dizia para Bléque, às vezes:
— Pois é, meu amigo, nisto não me podes acompanhar.
Já pensara em lhe arranjar uma companheira canina, mas a carteira não se compadecia dessa despesa solidária, e Tumé só esperava que Bléque soubesse aproveitar os seus passeios, sempre que houvesse uma cadela por perto.
Andava Tumé nessa altura às voltas com duas traduções em simultâneo, ambas com um prazo de entrega definido, e por isso havia dias em que trabalhava mais de dez horas, praticamente sem interrupções.
Ao fim de uma semana neste ritmo, Bléque começou a protestar. Então o seu passeio diário? Então as corridas no parque? Tanto ele ladrou que Tumé outro remédio não teve que sair com ele. Já na rua, Bléque puxava a trela com uma força e uma ansiedade pouco habituais nele.
— Calma, rapaz. Parece que marcaste um encontro e já vais atrasado.
Bem Tumé podia dizê-lo, pois dez minutos depois confirmava que essa era a verdade. Bléque desaparecera, mas aí estava ele de novo, acompanhado por uma cadela com metade do seu tamanho. Tumé sorriu.
— Ah, sempre seguiste o meu conselho.
E já Bléque se encavalitava na cadelita, a dar furiosamente aos quadris.
Tumé sentou-se: aquilo ainda ia demorar um pouco.
Estava Bléque no melhor da festa quando apareceram, de trás dos arbustos, dois rafeiros de mau aspecto, o pêlo sujo, escanzelados, uns verdadeiros fora-da-lei. Logo se acercaram do par formado por Bléque e a cadela, a farejar, furtivos. Um deles, de repente, tentou morder uma das patas de Bléque.
Tumé ergueu-se e tentou enxotá-los, mas eles não fizeram caso. Bléque não teve outro remédio senão sair de cima da cadela, que se afastou prudentemente, a cauda entre as pernas, e enfrentar os outros dois. Bléque não estava habituado às manhas e aos truques baixos dos cães da rua, mas era mais forte que aqueles, e por isso atirou-se destemidamente ao adversário que lhe estava mais próximo. Este esquivou-se habilmente, e contra-atacou, mordendo Bléque de raspão. Não, aquilo não era brincadeira nenhuma.
Tumé atirou uma pedra a um dos cães vadios mas falhou. Bléque, entretanto, fez nova investida, desta feita com êxito. Não teve tempo, no entanto, para cantar vitória, pois foi atacado, por sua vez, pelo outro cão, que o feriu numa orelha. O que Bléque atacara aproveitou a momentânea hesitação deste para tornar a atacá-lo. Mais um instante e estavam os três engalfinhados, em grande confusão de dentadas, rosnadelas e ganidos. Tumé, tendo achado um pau, aproximou-se deles e começou a bater-lhes, procurando não acertar em Bléque. Depois de duas ou três bordoadas particularmente certeiras, os rafeiros fugiram, enfim, em debandada, um deles a coxear visivelmente. Bléque sacudiu-se e ladrou. Tumé observou-o cuidadosamente. Os outros dois tinham-lhe dado um tratamento de luxo: várias feridas, pêlo arrancado, um leve manquejar da pata dianteira direita. Regressaram a casa. Bléque, apesar dos ferimentos, lá ia a trotar a seu lado, como se estivesse muito satisfeito consigo próprio.
Tumé deu-lhe banho e tratou-lhe os ferimentos. Um deles, em particular, inspirava mais cuidados, e Tumé levou Bléque ao veterinário, que lhe fez novo tratamento e lhe deu uma vacina, pelo sim pelo não, que com esses cães vadios nunca se sabia o que é que podia haver, assim ele afirmou.
De novo em casa, Tumé deu o episódio por encerrado com um comentário lacónico:
— Eu bem te avisei que não podias ir às putas.
Afinal, se calhar ia ter mesmo de lhe arranjar uma companheira.

2
Um mês depois, após muitas reflexões, muito controle da conta bancária, muita análise do espaço disponível, e perante a insistência muda de Bléque, Tumé lá se decidiu a comprar uma cadela, para alegria de Bléque e mais dores de cabeça suas. Não foi fácil, mas, finalmente, conseguiram encontrar um animal da mesma raça, bonito, com dois anos, e com o algo estúpido nome de Pinque. Tumé ainda pensou em mudar-lho, mas depois achou que não valia a pena. No fundo, dar nomes a animais pouco diferia de dar nomes a pedras ou a cenouras. A diferença maior, de facto, era que, quando se chamavam cenouras ou pedras, elas não vinham ter connosco. Com dois anos, parecia tarde para mudar. Era Pinque? Ficava Pinque.
Ao contrário do que seria de esperar, Bléque, a princípio, não se mostrou grandemente entusiasmado. Andou mesmo um bom bocado às voltas a Pinque, desconfiado, antes de se atrever a cheirá-la. Mas Pinque era uma rapariga dócil e bem disposta, e aceitou muito bem aquele comportamento de Bléque. Depois, como uma verdadeira senhora, deixou-se cheirar de uma ponta à outra, e só então deu também a sua cheiradela.
— Então, Bléque? — perguntou Tumé, já mais divertido que apreensivo com a situação. — A rapariga está aprovada?
Bléque ladrou para Tumé, e Pinque para Bléque, que ficou a olhá-la, algo surpreendido. Depois ladrou-lhe também, após o que se aproximou dela e a lambeu no focinho, duas ou três vezes. Estavam feitas as pazes, se é que alguma vez tinha havido alguma guerra.
Tumé, que concluíra finalmente as traduções que tinha em mãos, concedeu a si próprio uma semana de absoluto descanso, em que se dedicou, acima de tudo, aos seus cães. Fez a sua visita quinzenal, mas, quando estava ainda longe de se vir, surgiu-lhe no écran da memória a estranha — porque inesperada — imagem de Bléque e Pinque a foder, e ele apressou-se. Quando acabou, a mulher perguntou-lhe:
— Gostaste?
Ele disse que sim, mas já não estava ali. Regressou a casa sem parar em lado nenhum, nem sequer para tomar alguma coisa, como sempre fazia depois daquelas visitas.
Quando entrou, a imagem real era aquela que a sua memória evocara há nem uma hora atrás (mas que nunca poderia lá ter estado antes, porque ainda a não tinha visto como acontecimento, realmente): mesmo no meio da sala, Bléque cavalgava Pinque, ambos com a língua de fora, ambos com um ar muito satisfeito. Quando acabaram, Tumé perguntou-lhes:
— Então, gostaram?
E lembrou-se da imagem da puta, a sua pergunta igual. Aquilo estava a ficar muito esquisito, o sexo, os cães, as imagens a cruzarem-se sem nexo.
À noite, enquanto se distraía a ver televisão, bebeu, sem dar por isso, quatro whiskies bem aviados, o que o deixou razoável e agradavelmente embriagado. Fiel ao seu hábito de falar com Bléque, agora estendido também a Pinque, perguntou-lhes se não queriam tomar também um copo. Julgando ver uma resposta afirmativa no olhar risonho dos animais, deitou uma boa dose de whisky num prato, que colocou no chão, e serviu-se de mais um para si.
Bléque e Pinque, depois de umas quantas caretas iniciais, lamberam o prato todo, até não restar uma única gota.
— Meninos, acho que estou um bocado bêbado. Mas vocês também já começam a andar um bocado tortos.
De facto, tanto Pinque como Bléque estavam com um comportamento estranho: rebolavam-se no chão, gemiam de forma lânguida e Bléque estava com uma tesão que só visto.
Tumé desceu do sofá para o chão e gatinhou até junto de Bléque. Agarrou-lhe nos tomates e sopesou-lhos, pensativo. Depois segurou-lhe na picha e começou a masturbá-lo.
— Se tivesses mãos, agora fazias-me o mesmo. Podias era lamber-me. Olha, acho que me vou despir.
Com gesto vacilantes, lá se desenvencilhou das roupas. Agora estava todo nu, entre os dois animais. Aproximou o pénis erecto do focinho de Bléque, que o cheirou e lhe deu uma lambidela. Fez o mesmo com Pinque e recebeu outra lambidela. Satisfeito com o resultado obtido, fê-los erguer-se e cheirou-lhes os cus, como se fosse um terceiro cão. Bléque também o cheirou, e deu-lhe uma lambidela mesmo no olho do cu. Depois, inesperadamente, montou-se nele e começou a dar aos quadris. Tumé sentia o caralho do cão a tocar-lhe no cu, sem o penetrar. Pinque, por sua vez, estava a lambê-lo, e Tumé, no auge da excitação, veio-se um pouco. Pinque lambeu o esperma conforme ele ia fluindo, não em esguicho, mas aos borbotões. Ainda cheio de tusa, Tumé livrou-se da ineficaz investida de Bléque e foi à cozinha buscar um pouco de manteiga. Untou com ela a cona de Pinque e tentou penetrá-la. Era um bocado apertado de mais, e Pinque tentou escapar-lhe. Não o conseguindo, ainda mostrou os dentes a Tumé, mas este acalmou-a com uma palmada seca e autoritária na cabeça. Enfim, depois de uma série de tentativas, mais frustradas pela embriaguez que pela falta de jeito, Tumé sentiu que o caralho entrava um pouco, e depois mais um pouco, e começou a foder a cadela. Bléque, ao lado, a olhar, tinha ar de quem não estava a entender nada daquilo.
— Não estejas triste que eu não te roubo a menina. Anda cá.
Bléque aproximou-se, e Tumé tornou a agarrar-lhe na picha e a masturbá-lo. A picha de Bléque tornou a crescer, e Tumé deve tê-la manuseado tão bem que num instante ficou com a mão molhada de esperma. Eram mais líquido que o dos homens, mas tinha igualmente um odor forte. E agora era a vez de ele também se vir, uma vez mais, e em definitivo. Saiu de Pinque, e a cadela voltou-se e veio lamber-lhe a picha, submissa, rendida aos factos, por mais bizarros que eles fossem. Bléque, seu companheiro para todas as circunstâncias, logo a secundou nesse acto. Tumé sentiu-se tonto, a sala a andar à roda.
Ainda conseguiu lavar-se antes de cair na cama, de bruços, já a dormir.

3
No dia seguinte, quando acordou, lembrou-se, de repente, de tudo o que acontecera na noite anterior, e sentiu-se chocado consigo próprio.
Na casa-de-banho, a ver-se ao espelho, apenas se achou, no entanto, mal-encarado. Não devia ter bebido tanto. Doía-lhe também a cabeça. Mas de resto, estava tudo normal. Bléque e Pinque vieram dar-lhe os bons-dias. Afagou-lhes as cabeças.
— Pregaram-me uma boa partida, vocês.
Sentiu, inesperadamente, que, em contacto com o pêlo macio dos animais, uma indefinida excitação ressurgia nele, de tal modo que o seu pénis cresceu, de uma forma muito definida.
Decidiu tomar um banho, para descontrair. Esteve assim um quarto de hora debaixo da água quente a cair, a tentar livrar-se de todos os pensamentos que o estavam a assaltar. Depois, já limpo, vestiu-se e saiu, sozinho e pela primeira vez nessa semana.
Viu-se no meio das pessoas, a correrem de um lado para o outro, olhos no chão, na mesma vida sem sentido de sempre. Uma vaga sensação de culpabilidade teimava em não lhe abandonar o espírito, mas, com o decorrer da manhã, acabou por se libertar dela. Afinal, o que fizera, embora inconfessável, estava feito. Mais: sentira prazer. E que culpa há no prazer? Para mais, estava embriagado.
De novo reconciliado consigo próprio, regressou a casa. Bléque e Pinque receberam-no com a alegria e vivacidade que eram seu apanágio. A olhá-los, ficou a pensar se seria capaz de o fazer sóbrio.
Com tal pensamento sempre a ir e vir na sua cabeça, fez o almoço para si, e encheu o prato dos cães com a sua comida própria. Mais tarde, depois de comer, levou-os a passear. Quando voltaram do passeio, já se tinha decidido.
Foi para o quarto, despiu-se, deitou-se na cama e chamou os cães. Eles vieram logo, e saltaram para cima da cama. Sentiu o focinho húmido de um deles junto ao seu sexo, a farejar. Depois, uma lambidela. Tumé lera algures que os animais domésticos são o espelho dos seus donos. Ainda segundo o escrito, tal afirmação aplicava-se em particular aos cães. Eventualmente, nem Bléque nem Pinque o entendiam, quando falava, mas agora estava certo de que o sentiam e entendiam, nos seus medos, ansiedades, alegrias e desejos.
E lá estava o seu sexo a crescer. Abriu os olhos, ergueu-se e abraçou Bléque. Era de facto excitante o contacto com o seu pêlo.
Bléque também estava com a sua coisa vermelha e luzidia saída para fora. Inclinou-se para baixo do animal e, vencendo aos poucos uma natural repugnância, tocou com a ponta da língua na ponta do caralho de Bléque. Não sabia mal. Lambeu-o. Depois começou a chupá-lo. Para o fazer melhor e mais confortavelmente, fez com que Bléque se deitasse. Sentiu que a sua língua também lhe tocava, a par da de Pinque. Continuou a chupar, até que Bléque se veio. Era um sabor estranho, o do seu esperma, quase agressivo, mas Tumé continuou a chupar. Só parou quando se cansou, ao mesmo tempo que outra ideia lhe surgia no espírito.
Viu-se no espelho grande do quarto.
— Depravado — disse-se.
E riu-se. Já não lhe importava. Gostava do que estava a fazer. Ninguém tinha nada a ver com isso, era só entre ele, Bléque e Pinque.
Tornou a usar a manteiga, mas desta vez em si próprio. Chamou Bléque, enquanto se colocava de cócoras. O cão, como se tivesse acabado de ler um livro de instruções, montou Tumé. Lá andava a picha dele às cegas, sem dar com o caminho. Tumé deu-lhe uma ajuda, e, ao fim de um bocado, sentiu que estavam a conseguir. Os quadris de Bléque começaram no seu vaivém vigoroso e incansável. Tumé agarrou-se a Pinque e untou-a também com a manteiga. Enfiou-lhe um dedo, e Pinque não protestou.
Bléque acelerou e veio-se. Saiu então de cima de Tumé e veio lamber-lhe a cara. Mas já Tumé se dedicava a outra tarefa: deitara Pinque com as patas para cima e estava a penetrá-la. Desta vez, conseguiu introduzir-se todo. A cona de Pinque era apertada como o cu de uma mulher toda virgem, e Tumé, excitado como já estava, não tardou a vir-se. Pinque gemeu, visivelmente perturbada. Depois, Bléque, incansável, tomou o seu lugar sobre Pinque, agora já na posição normal em que os cães fodem.
À noite, tornaram a fazer uma sessão semelhante.

4
Ao fim daquela semana memorável, Tumé retomou o seu trabalho. Dado que tinha novos prazos-limite, abrandou um pouco as suas actividades sexuais. Mas, às vezes, era impossível resistir. Estava à mesa, por exemplo, a escrever, ainda em pijama, quando sentia, por baixo da mesa, um focinho muito seu conhecido a enfiar-se por entre as suas pernas.
— Vai-te embora — dizia ele. — Estou a trabalhar.
Mas o focinho não se ia, e ele acabava por aceder a tão insistente pedido.
Entretanto, pela primeira vez em anos, faltou à sua visita quinzenal. Quando faltou pela segunda vez, já a decisão era a de nunca mais lá tornar a ir. Para quê? Sentia-se satisfeito. E não era isso o mais importante?
Assim se passaram meses, até que um dia, Pinque adoeceu. Tumé correu com ela para o veterinário. Este, após uma série de cuidadosos exames e análises, deu o seu veredicto: Pinque sofria de uma doença do coração.
— Não a poderia operar? — sugeriu Tumé.
— Não serviria de muito.
— Então que se pode fazer?
— Bom, vou receitar-lhe alguns medicamentos. Mas não se iluda, são só para simples prevenção de situações mais extremas. A verdade é que ela pode morrer a qualquer momento.
Tumé sentiu as lágrimas virem-lhe aos olhos.
— Lamento — disse o veterinário, sincero.
Uma tarde, quinze dias depois, estavam eles no parque, no seu passeio habitual, quando Pinque, a meio de uma das suas correrias, caiu, para não mais se levantar. Bléque voltou para trás, e cheirou-a. Depois uivou.
Foram dias tristes, os que se seguiram. Tumé entrou em abstinência sexual, apesar das solicitações de Bléque.
Depois, novos dias vieram, e o tempo começou a levar consigo as mágoas.
Uma manhã, ao acordar, Tumé sentiu-se vivo, de novo. Estava sol, e calor. Vivo. Chamou Bléque para a sua cama e abraçou-o.
— Anda cá, rapaz. Ainda nos temos um ao outro, não é?
E ainda podiam ser felizes.

O JANTAR COM O CHEFE

1
— Se Bastiãu, então esse relatório ainda não está pronto?
— Onde é que anda o Se Bastiãu?
— Se Bastiãu, isto assim não pode ser.
— Isso era para ontem, Se Bastiãu.
E aí andava o pobre do Se Bastiãu, sempre numa roda-viva, sempre a correr de um lado para o outro, a entregar papéis, a receber papéis, a atender telefones, a enviar faxes, a bater nas teclas do teclado do computador ao ritmo de cento e vinte caracteres por minuto, mas nem assim ele se livrava de ouvir, todos os dias, as mesmas admoestações. Não que fosse lento, ou de qualquer outro modo incompetente. O que acontecia é que o escritório tinha trabalho a mais para pessoal a menos, e, às vezes, não era possível dar uma resposta satisfatória a todas as solicitações e tarefas em lista de espera. Para tornar as coisas ainda mais difíceis, tinha Se Bastiãu dois colegas que embirravam decididamente com ele, e que, pelos vistos, tomando-o como bode expiatório, tinham deliberado fazer-lhe a vida negra. Se Bastiãu fingia que não era nada com ele, mas, de facto, aquela perseguição sistemática já o começava a aborrecer.
— Coitado do Se Bastiãu.
— Aqueles dois precisavam que lhes acontecesse alguma coisa má.
— Eu acho que ele, um dia destes, passa-se.
— Ah, sim, o Se Bastiãu já deve andar a preparar-lhes alguma.
Isto eram a telefonista e a rapariga da recepção a conversarem. Às vezes convidavam-no para almoçar, e era essa a sua forma de contribuírem para a vingança que Se Bastiãu tardava a pôr em prática. Todavia, não era por falta de vontade que ele não o fazia. A verdade é que ainda não encontrara nenhuma forma de a concretizar que o satisfizesse plenamente. Mas elas que estivessem descansadas, pois que a sua vez havia de chegar.
Numa manhã mais calma, tinham os dois chatos saído para tomar café, e Se Bastiãu estava sozinho na sala com as duas mulheres.
O chefe, La Dizláu, saiu de repente do gabinete. Deu uma palmada no traseiro da telefonista, que nesse dia usava uma saia particularmente curta, e disse, em tom trocista:
— Atenção ao assédio.
A verdade é que La Dizláu era um grande sátiro. Andava sempre a farejar a um lado e a outro, o olhar logo preso a qualquer rabo de saia que lhe passasse por perto. “As mulheres hão-de ser o meu fim”, dizia ele, às vezes.
— Então, Se Bastiãu, bem disposto?
Se Bastiãu acenou com a cabeça, afirmativamente.
— O relatório que pediu já está pronto — disse.
— Óptimo. Podes pô-lo na minha secretária. Agora vou tomar um café. Alguma das senhoras quererá fazer-me companhia?
Mas nenhuma quis, e ele teve de ir sozinho.
— Este tipo cada vez está mais tarado — disse a telefonista. — Se o meu marido soubesse das gracinhas dele dava-lhe um bom par de murros. Eu é que não quero problemas...
A verdade é que ela até gostava das atenções especiais de La Dizláu, e não poucas tinham sido já as vezes em que ia ao gabinete dele e por lá ficava longas meias horas, deixando a recepcionista numa azáfama doida, a correr do guichet para os telefones e dos telefones para o guichet. O que La Dizláu e a telefonista faziam juntos, à porta fechada, ninguém sabia, mas os comentários inerentes ao facto eram muito explícitos e objectivos.
Se Bastiãu levou o relatório ao gabinete de La Dizláu. A única fotografia sobre a secretária era de uma pin-up em roupa interior, a qual, tirando a cor do cabelo, era estranhamente parecida com a mulher de Se Bastiãu, Filu Mêna.
De repente, a par de uma certa inquietação, Se Bastiãu teve uma ideia. Mais precisamente, a ideia que o ia salvar dos outros dois, uma ideia de puro gozo e vingança.
Regressou à sua secretária. Os outros chegaram, a falar alto e a rir, mas Se Bastiãu mal os ouviu, a ideia a andar às voltas na sua cabeça, de trás para a frente e de cima para baixo, e a ficar cada vez maior, e mais perfeita. Sabia que podia contar com Filu Mêna para a concretizar.
— Então, não se faz nada? — começou um dos outros.
Se Bastiãu sorriu-lhe, mas não deu resposta. A telefonista, atenta, chamou a recepcionista.
— Olha — disse baixinho.
A cabeça de Se Bastiãu continuava a pensar, alheada da realidade. Avaliava prós e contras, e estava tudo bem. Agora, só faltava lançar o isco. E Yza Béle? Era a filha de Se Bastiãu, de um primeiro casamento que acabara ao fim de cinco anos. Vivia com ele e com Filu Mêna, porque a mãe natural se encontrava agora hospedada numa instituição para alienados mentais. Um dia acordara e estava assim, louca. Nunca mais recuperara. Também não haveria problema com Yza Béle. Na verdade, ela iria adorar. Era tão louca como a mãe, mas disfarçava muito melhor, o que lhe permitia andar à solta pelo mundo sem problemas de maior.
— Se Bastiãu, estás a gozar comigo ou quê? — tornou o outro, pondo-se frente à secretária de Se Bastiãu, muito direito no seu metro e setenta.
Se Bastiãu encostou-se para trás na cadeira.
— Estás nervoso — disse. — O que é que se passa?
— O que se passa? O que se passa é que és sempre a mesma coisa. Temos que andar sempre aos berros contigo para te ver a mexer um dedo que seja. Não há nada para fazer?
— E tu, que estás tu a fazer?
— Eu — cresceu o outro um pouco mais, acentuando o pronome — estou a mandar-te trabalhar.
Se Bastiãu endireitou-se e pôs-se também de pé, frente ao outro.
— E eu, daqui do meu silêncio, estou a mandar-te à merda.
Já os punhos se crispavam, de um lado e do outro, quando La Dizláu entrou de novo, de regresso do seu café habitual. Todos voltaram para os seus lugares.
— Então, estamos de férias ou quê? Senhor Páulu, o seu relatório?
Era o tipo que se estivera a meter com Se Bastiãu.
— Está quase pronto, senhor La Dizláu.
— Quase não serve. O Se Bastiãu já me apresentou o dele. Quero isso antes do almoço.
E foi para o seu gabinete.
— Não perdes pela demora — ameaçou Páulu, do seu canto, mas Se Bastiãu virou-lhe as costas ostensivamente. As mulheres piscaram-lhe o olho, e ele retribuiu a cumplicidade com uma piscadela semelhante.
À hora do almoço, Se Bastiãu deixou que La Dizláu saísse primeiro, e depois seguiu-o, discretamente. La Dizláu entrou num restaurante, uns metros mais adiante, e Se Bastiãu entrou dois minutos depois. Todas as mesas estavam cheias. Não podia ser melhor. Aproximou-se da mesa de La Dizláu e perguntou se se podia sentar.
— Está tudo cheio — justificou-se ele.
— À vontade, ó Se Bastiãu — disse La Dizláu.
Depois, já a comerem e a beberem, conversa puxa conversa, e Se Bastiãu lançou o isco: nada mais nada menos que um convite a La Dizláu para ir jantar a sua casa, um dia desses.
— Olha que me parece uma boa ideia — disse La Dizláu. — A tua mulher cozinha bem?
— Divinalmente.
— Óptimo, óptimo. Tens uma filha, não é?
— Sim.
— Que idade tem ela?
— Dezoito.
— Uma mulherzinha.
— Completamente.
— Óptimo, óptimo. Então está combinado. Que me dizes da próxima quinta-feira?
— Por mim, tudo bem.
— Óptimo. Bebes um whisky? Pago eu. O teu relatório estava bom.
— Obrigado.
— Continua assim.
Se Bastiãu realizara assim o primeiro passo do seu plano, e nem mesmo os outros dois lhe conseguiram estragar a boa disposição, durante o resto do dia.
Depois, à noite, já em casa, Se Bastiãu contou a Filu Mêna e a Yza Béle o seu plano. Tal como calculara, elas receberam-no entusiasticamente. Yza Béle achou mesmo que devia despedir o namorado que tinha no momento.

2
Estavam já nos cafés, e La Dizláu arrotou discretamente.
— Há muito tempo que não comia tão bem — disse ele, com um ar satisfeito.
Filu Mêna, depois de ir buscar a garrafa de whisky, conforme Se Bastiãu lhe pedira, sentara-se a tomar o seu café.
— Continuo a achar que já a vi em algum lugar — disse La Dizláu, pela segunda vez nessa noite.
— É possível — retorquiu Filu Mêna, também pela segunda vez.
“É mesmo o mais provável”, pensou Se Bastiãu, irónico. Confirmara com Filu Mêna aquela questão da fotografia da pin-up, e era mesmo ela. A história era simples: uns anos atrás, antes de se conhecerem, para ganhar algum dinheiro rápido, ela fizera uma série de sessões para um fotógrafo, mas deixara de trabalhar para ele quando a sugestão caiu para algo mais forte, com homens à mistura, e tudo muito explícito. Filu Mêna era mais nova que Se Bastiãu quinze anos, e a sua união, mais que um casamento, era um acordo. Ela era um bocado tarada, mas ele não iria contra isso, desde que ela não o deixasse sozinho.
Yza Béle, que passara o jantar a passear o vestido muito decotado frente aos olhos gulosos de La Dizláu, era outro caso. Mudava de namorado todos os meses (quando não era todas as semanas), e levava-os para casa para dormir com ela. Se Bastiãu estava quase certo de que alguns tinham passado sem pausas de Yza Béle para Filu Mêna, mas isso não lhe importava. Só não queria que algum tipo aparecesse lá em casa a dar-se ares de novo dono da mesma. Nem isso nem assaltos descarados à sua garrafeira. Elas estavam avisadas. E, de facto, até ao momento, ainda não tinha tido razões de queixa.
Passaram da mesa para os sofás, e então Se Bastiãu anunciou a surpresa que preparara para La Dizláu.
Apagadas as luzes, começou a ouvir-se uma música suave, de influências vagamente orientais. Se Bastiãu acendeu dois pauzinhos de incenso. Uma luz fraca acendeu-se então sobre uma parede onde só havia um quadro, e as duas mulheres, que tinham desaparecido, reapareceram. Vinham nuas, ou melhor: vinham cobertas, ambas, por uma série de voltas de um tecido transparente, que deixava ver com suficiente clareza, o contorno generoso dos seus corpos. Tinham o rosto tapado, e Filu Mêna usava uma peruca loira. Seguindo a cadência da música, começaram a dançar uma com a outra, de uma forma ostensivamente sensual. A cada momento que passava, mais elas se envolviam, até que se abraçaram e se beijaram na boca, e então começaram a despir-se uma à outra, muito devagar.
La Dizláu parecia colado ao sofá. Quando um primeiro seio nu surgiu, em todo o seu esplendor de nudez revelada, estremeceu. Se Bastiãu sorriu: estava tudo a correr bem, e a digestão do outro devia estar com grandes dificuldades para prosseguir com normalidade.
Filu Mêna e Yza Béle estavam agora deitadas no chão, em cima de um novelo desordenado de tecido transparente, e simulavam um sessenta e nove, número muito curioso para designar coisa ainda mais curiosa. La Dizláu via-lhes perfeitamente os sexos entreabertos, as línguas de fora a aproximarem-se, e depois, de repente, lamberam-se mesmo. A música começou a baixar. Elas imobilizaram-se. Se Bastiãu apagou a luz velada, e, após meio minuto de escuridão, acendeu as outras.
— Então, gostou?
— Magnífico, Se Bastiãu, magnífico.
— A minha mulher e a minha filha têm uma queda inata para o espectáculo.
— Mas onde é que elas estão? Foram-se vestir? — E parecia à beira de uma apoplexia. — Tenho de as felicitar.
— Venha comigo.
Se Bastiãu conduziu-o ao quarto de Yza Béle. Esta estava deitada na cama, de bruços, nua, atravessada, o traseiro (e que traseiro ela tinha!...) sugestivamente erguido graças a uma subtil almofada colocada sob o ventre, as pernas abertas.
— O que lhe parece isto? — perguntou Se Bastiãu.
— Um sonho.
— Pois a mim parece-me um convite. Descarado.
— Acha?
— Porque não experimenta responder-lhe?
La Dizláu despiu-se, num ápice, e penetrou Yza Béle, que disse:
— É assim mesmo, querido.
— Chame-lhe puta que ela gosta. — Era Filu Mêna, que entretanto também entrara no quarto, já de novo vestida.
Yza Béle dava ao cu como se estivesse ligada à electricidade, e La Dizláu não se aguentou muito tempo.
— Estou a vir-me, puta, toma, toma — bufava ele, completamente fora de si.
Recompuseram-se todos na sala, com mais um café e umas quantas bebidas. Se Bastiãu disse que Filu Mêna também não se importaria de lhe dar prazer, se ele assim o quisesse.
— A sua mulher? — admirou-se La Dizláu.
— Não ma vai roubar depois, pois não?
La Dizláu garantiu que nunca tal coisa lhe havia de passar sequer pela cabeça. Mas nessa noite não queria mais nada senão acabar a sua bebida e ir para casa.
— As mulheres hão-de ser o meu fim — acrescentou ele, pondo um falso ar de cansaço.
Só a caminho de casa é que se lembrou, finalmente, de onde é que conhecia a mulher de Se Bastiãu: era a pin-up na fotografia que tinha sobre a sua secretária. Desejou que a semana passasse depressa, pois tinham combinado outro jantar para a quinta-feira seguinte.

3
A semana passou muito devagar, mas, enfim, lá chegou a quinta-feira tão esperada e desejada.
E agora ali estavam eles, numa nova produção teatral. Desta feita, era uma orgia romana. Todos estavam vestidos a preceito. La Dizláu era um escravo que ia ser usado sexualmente pelas duas mulheres. Se Bastiãu, por sua vez, era um senador, marido de uma das mulheres, que ia chegar a casa e surpreendê-las em flagrante. De facto, estava escondido por trás de um biombo, a ver tudo e à espera da sua entrada, mas o teatro é mesmo assim.
Primeiro, as mulheres fizeram-se lamber por La Dizláu. Depois chuparam-no, as duas ao mesmo tempo.
— Agora fode-me, escravo — ordenou-lhe Yza Béle. — E estás proibido de te vir.
La Dizláu fodeu-a, e fodeu Filu Mêna de seguida, enquanto Yza Béle lhe dava a cona a lamber.
Nisto, entrou Se Bastiãu:
— É então este o respeito que me têm — vociferou ele, muito compenetrado do seu papel.
La Dizláu saiu apressadamente de Filu Mêna, mas logo Yza Béle o segurou.
— Quieto, escravo — disse, sentando-se no sofá, e puxando a boca de La Dizláu para o seu sexo molhado.
— Só há uma coisa a fazer, escravo — sentenciou Se Bastiãu. — Vais ser castigado.
Molhou os dedos na cona de Filu Mêna e passou-os pelo cu de La Dizláu. Este começou a protestar:
— Eh, que ideia é essa? Eu sou muito homem.
Mas já Filu Mêna o estava a chupar, tirando-lhe resistência, e Yza Béle segurou-o contra si com maior firmeza. Era uma rapariga com muita força.
— Com que então a foder a minha mulher e a minha filha. Ora então toma lá, que é para provares do mesmo.
E Se Bastiãu penetrou-o. La Dizláu gritou que o estava a magoar, mas Se Bastiãu estava bem enfiado dentro dele, e não parou. Filo Mêna saiu do seu lugar, e Se Bastiãu ergueu um pouco La Dizláu e empurrou-o para o sexo de Yza Béle, que continuava à sua espera, depois da breve interrupção que a investida de Se Bastiãu criara. Filu Mêna foi colocar-se sobre Yza Béle de modo a que esta a pudesse lamber no cu, e La Dizláu na cona. La Dizláu lambia furiosamente, e já não se queixava de nenhuma dor. Vieram-se todos assim, uns a seguir aos outros, e depois ficaram uma boa meia hora a descansar.
Quando La Dizláu, já vestido e refeito de todas aquelas emoções, se preparava para sair, Yza Béle perguntou-lhe:
— Até quinta, então?
— Até quinta — confirmou La Dizláu.
— Se Bastiãu depois diz-lhe qual é a próxima peça que vamos fazer.
Passou-se a sexta-feira, o fim-de-semana, a segunda-feira, e na terça La Dizláu chamou Se Bastiãu ao seu gabinete. Tinha boas notícias.
— Propus à direcção que fosse transferido para uma secção melhor, de mais responsabilidade. — Fez uma pausa. — E adivinhe o que eles disseram...
— Não faço a mínima ideia.
— Aceitaram. Parabéns. — Deram um aperto de mão caloroso. — Ah, e vai ser aumentado. — Fez uma pausa e, baixando a voz, não houvesse por ali espião com o ouvido colado à parede, perguntou: — Então, como é que vai ser a próxima quinta-feira?
Se Bastiãu estava muito agradecido.
— Decidimos chamar à nova fantasia “o jantar com o chefe”, simplesmente. É uma ideia e tanto, hem?
Voltou à sua sala. Aqueles filhos da mãe já não o iam chatear mais. Vencera-os. E agora, para além disso, havia aquelas quintas-feiras. Vencera-os mesmo.

A MULHER, O HOMEM E OS CÃES

1
Conheceram-se casualmente no parque, quando passeavam os respectivos cães. O primeiro contacto, aliás, foi precisamente entre os cães: começaram a cheirar o cu e a picha um ao outro, como os cães normais costumam fazer, e deram-se logo bem. Por isso, mais duas cheiradelas e já andavam a correr pela relva, um atrás do outro, vê lá se me apanhas, agora apanho-te eu, agora vamos rebolar um bocado a ver se apanhamos umas pulgas ou apenas nos sujamos, porque me apetece sentir a escova no pêlo depois do banho, e além disso hoje quero dormir em cima da cama, ora vamos lá a mais uma corrida, eu corro mais, agora corres tu, embora, vamos.
Meia hora depois, a voz dos respectivos donos fez-se ouvir, pois era preciso regressar a casa, vida de gente não é vida de cão. Mas eles fizeram orelhas moucas: a brincadeira era muito melhor, e meia hora sabia a pouco.
— Parece que gostaram um do outro — comentou a mulher, a aproximar-se do homem. — Tem um bonito cão, você.
— O seu também tem uma bela figura.
— Como é que se chama?
— Eu ou o cão?
Riram ambos, com aquela piada velha. Apresentaram-se: ele chamava-se Tumé, e ela Agus Tyna.
— E o meu cão Bléque — acrescentou Tumé.
— O meu chama-se Bráuni.
— Um é preto e o outro é castanho. Parece que seguimos a mesma lógica.
— Ou a mesma falta de imaginação.
Riram outra vez.
— Costuma vir muito aqui? — perguntou Agus Tyna.
— Todos os dias.
— Eu também, mas só de manhã. Agora acho que também vou passar a vir à tarde. Afinal, os nossos dois cães estão a dar-se tão bem que seria um pecado não os deixar estar mais tempo juntos.
Tumé também achou que era uma boa ideia. Conversaram mais um pouco. Ela era viúva, ele solteirão inveterado. Ele disse que pensava que as mulheres só gostavam de cães pequenos, e ela respondeu que os maiores são melhores para abraçar. Bráuni, de facto, era a sua única companhia e, por isso, mais valia que fosse uma grande companhia. Ele sentia exactamente da mesma forma, e ora aí estava outra coisa que tinham em comum.
Despediram-se então, não sem antes terem marcado encontro para o dia seguinte, à mesma hora, para que os seus animais pudessem tornar a brincar juntos, e eles, porque não?, poderem ir mantendo a sua conversa ligeira de meio da tarde.
Assim, no dia seguinte, lá estavam eles, conforme combinado. Sentaram-se num dos muitos bancos que havia no jardim, enquanto os cães andavam à solta pelo relvado, entre jogos de escondidas e provas de atletismo imparáveis.
Ela quis saber o que fazia ele na vida.
— Sou tradutor — disse Tumé.
— Ah, mas tem uma actividade interessante.
— Quando os livros são bons.
— Pois eu, aborreço-me. Vivo de uma pensão, e não sei mais que hei-de fazer. Se não fosse o Bráuni, acho que enlouquecia. — Fez uma pausa. — Não quero ser indiscreta, mas porque é que nunca se casou? Se não quiser não responda.
Mas ele respondeu: era tão simples como gostar de viver sozinho, e nada mais. Teve de confessar que nunca confiara muito nas pessoas, de tal modo que, realmente, preferia, sem dúvida, os animais por companhia. Aí, o seu rosto ficou subitamente entristecido, e disse que tivera outro cão — uma cadela, melhor dizendo — , que morrera de doença incurável, e às vezes, quando se lembrava dela, ainda sentia uma dor que não sabia explicar.
No dia seguinte, encontraram-se pela terceira vez, e ela ficou a saber que ele tinha quarenta dois anos, e ele ficou a saber que ela tinha trinta e cinco, não se pergunta a idade a uma senhora quando ela a diz.
— Nunca o diria — afirmou ele.
— Muito obrigado. Você também não parece já ter entrado nos quarenta.
Quanto aos cães, verificaram que era a situação contrária: Bráuni era dois anos mais velho que Bléque.
E, assim, embora nenhum deles o confessasse, com estas conversas vagarosas e o convívio fácil entre os seus animais, começaram a sentir-se atraídos um pelo outro.

2
Durante mais duas semanas mantiveram os seus encontros diários. Agora, já sabiam muito da vida e do sentir de cada um, e, quando se sentavam no banco para conversar, cada vez o faziam mais juntos. Ele sentia o calor da perna dela encostada à sua, e ela usava decotes cada vez mais sugestivos.
Foi num momento desses, de calor e entendimento mútuo, que ele a convidou para jantar, em sua casa.
— Aceita?
— Claro que aceito — disse ela, com um sorriso cheio de luz. — Estou sempre tão sozinha.
— Então pode ser amanhã?
— Pode. Claro.
— Em minha casa então. E cozinho eu. Às oito está bem?
— Perfeitamente.
— Não se esqueça de levar o Bráuni.
— Ele vai adorar.
— Eu também.
Deu-lhe a morada e disse que não se encontrariam à tarde, no dia seguinte, mas que o jantar por certo compensaria essa quebra da sua deliciosa e recém-adquirida rotina.
No dia seguinte, Tumé passou o dia numa roda viva, a decidir o que ia cozinhar, a comprar os ingredientes, o vinho, uma garrafa de bom champanhe, a aparar as madeixas rebeldes no barbeiro, a tomar banho, a arrumar a casa, a levar Bléque apenas para um curto passeio a cem metros do parque habitual, e enfim a cozinhar, a pôr a mesa com velas e flores, a tomar novo duche, a perfumar-se, a vestir-se, a dar os últimos retoques aqui e ali.
Às oito e dez a campainha tocou e ele foi abrir. Agus Tyna vinha bela como nunca ele a vira: usava um vestido comprido com uma racha que lhe subia até ao cimo da coxa direita e um colar ao pescoço. Tinha apanhado o cabelo, atrás, de tal modo que o contorno do seu rosto estava perfeitamente visível, redondo e macio. Tumé segurou-lhe o casaco, quando ela o tirou, e ficou fascinado com os seus ombros nus, a pele lisa, e um decote que deixava ver uma boa parte dos seios, grandes e firmes.
— Está linda — admirou-a ele, quase emocionado.
— Obrigado. — E aí estava aquele sorriso dela, satisfeito, simples, sincero, resplandecente. — E você também se esmerou.
— Sabe, em certas coisas, acho que sou ainda um homem à moda antiga. Mas venha, venha.
Bráuni, que também era visita, é que não esperou por qualquer convite para ir à procura de Bléque, de quem já sentira o cheiro. Quando Tumé e Agus Tyna entraram na sala, já eles lá estavam, completamente delirantes, a dar às caudas como pás de ventoinhas loucas.
— Compreendo o que quis dizer com isso de ser um homem à moda antiga — observou Agus Tyna, ao ver a mesa que Tumé preparara.
Tumé afastou a cadeira para que Agus Tyna se sentasse, acendeu as velas e serviu o champanhe, que já estava aberto. Depois disse a Bléque que fosse mostrar a casa a Bráuni, e o cão, bem ensinado, assim fez.
Tumé pôs ainda música a tocar, suave como convinha, antes de propor um brinde.
— A esta noite.
— A esta noite — repetiu Agus Tyna, com um brilho no olhar que foi o suficiente para deixar Tumé excitado.
A comida invadiu a mesa, fumegante. Agus Tyna insistiu em ser ela a servir.
— Já agora cumprimos toda a etiqueta.
A entrada de marisco casou divinalmente com o champanhe, e depressa a garrafa chegou ao fim.
— Tenho de beber com mais calma, senão depois não páro de rir — disse ela, com uma pequena gargalhada.
— Esteja como em sua casa.
Limparam as mãos e passaram ao prato seguinte, um peixe assado no forno, que Agus Tyna disse estar delicioso.
Quando acabaram, Tumé, eficiente, serviu a sobremesa e os cafés. Entretanto, já tinham bebido mais uma garrafa de vinho, por cima do champanhe, e ambos começavam a ficar muito sorridentes.
Fumaram um cigarro na varanda, a apanharem o fresco da noite, e então, sem nada dizerem, abraçaram-se e beijaram-se, Bléque e Bráuni a seu lado, a olhá-los, as línguas pendentes. Foi um beijo longo, apaixonado. Ele estremeceu.
— Agora estou a ficar com frio.
Regressaram à sala, Tumé pôs nova música a tocar e dançaram duas músicas, antes de se tornarem a sentar, desta feita no sofá. Ela tinha uma mão sobre a perna dele, e disse:
— Foi um jantar que nunca hei-de esquecer.
Ele segurou-lhe na mão. Olharam-se. Beijaram-se de novo.
Bráuni estava sentado no chão, aos pés de Agus Tyna, e Bléque no sofá, ao lado de Agus Tyna.
— Acho que estou apaixonada por ti — disse ela, quando se soltaram do beijo.
Ele sorriu.
— Eu sou um solteirão — disse Tumé, a olhá-la, sempre com o mesmo sorriso. — Mas acho que também estou apaixonado por ti.
— E agora, o que é que fazemos?
Bléque deve ter tido uma ideia, pois enfiou naquele momento o focinho pela racha do vestido de Agus Tyna e começou a lamber-lhe as pernas, e mesmo um pouco mais acima.
Ela riu-se. Disse:
— Parece que o Bléque está a fazer uma sugestão.
— Está a dizer que também gosta de ti.
Foram para o quarto. Tumé, na escuridão, ajoelhou-se aos pés de Agus Tyna, tirou-lhe as cuecas e enfiando a cabeça pela racha da saia, tal como Bléque fizera há instantes, lambeu-a. O sexo de Agus Tyna tinha um sabor doce, muito quente, e Tumé enfiou-lhe a língua, vezes sem conta. Agus Tyna, a derreter-se em prazer, deixou-se cair para cima da cama, sempre com Tumé entre as suas pernas.
Depois despiram-se, frenéticos, e fizeram amor, uma vez, e pouco depois ainda outra. Exaustos, adormeceram, e quando tornaram a acordar, já o sol tinha nascido.

3
A partir desse dia, à pergunta “e agora, o que é que fazemos?”, deram a resposta mais vulgar: decidiram viver juntos. Amavam-se, entendiam-se bem, completavam-se; era o melhor que tinham a fazer. Ele sugeriu que vivessem em casa dela, que era mais espaçosa, mas ela teve uma ideia que agradou ainda mais a ambos: porque não, já que tinham duas casas, viver uns tempos numa e outros na outra, ao sabor do que lhes fosse apetecendo? Rotinas, a havê-las, que fosse só a do passeio dos cães, que eles continuaram a fazer, juntos. Sentavam-se no banco mágico do seu namoro, conversavam, beijavam-se. Sentiam-se felizes, como nunca o tinham sido antes. E não precisavam de mais ninguém. Juntavam os dinheiros, e a vida era mais fácil. Ele fazia as traduções e ela ajudava-o, fazendo as revisões e indo também muitas vezes para o teclado, passar os trabalhos a limpo. Faziam amor todos os dias, cada dia atrevendo-se a ir um pouco mais longe um com o outro. Ela dizia que adorava beber-lhe o esperma, ele dizia que adorava penetrar-lhe o cu, e ela dava-lhe o cu, e ele dava-lhe o seu esperma a beber, e lambiam-se, gemiam, transpiravam, uivavam, sempre a nascer e a morrer nos braços um do outro.
Tinham percorrido meia vida sem verdadeiramente fazerem parte dela, mas agora alguma coisa começava a fazer sentido.

4
Uma manhã, depois de terem feito amor, estavam ainda deitados quando Bráuni e Bléque entraram no quarto a galope e saltaram para cima da cama. Antes que algum deles tivesse tempo de se aperceber do que se passava, estava já Bráuni com a língua enfiada na cona de Agus Tyna, a lambê-la, a lamber o esperma que há instantes Tumé lá deixara.
— Bráuni, pára com isso — protestou Agus Tyna, debilmente.
— Não, deixa-o estar, estou a gostar de ver.
E tanto estava a gostar que o sexo lhe cresceu outra vez. Bléque também o lambeu.
— Olha para isto — chamou-a Tumé.
Ela ergueu a cabeça.
— Eh cão, isso é meu. — Riu-se, ofegante. A língua de Bráuni estava a fazer um bom trabalho.
Tumé afastou Bléque e enfiou o caralho na boca de Agus Tyna, que o chupou. Agora Bléque pusera-se ao lado de Bráuni, e as línguas que lambiam Agus Tyna eram duas.
— Sabes? — disse Tumé, excitadíssimo. — Gostava de ver os cães a montar-te.
Ela parou de o chupar.
— Estás a falar a sério?
— Absolutamente. Mais: gostaria de ver um a montar-te e tu a chupares o outro.
Ela fechou os olhos.
— Está bem — disse. — Vou voltar-me.
Agus Tyna estava agora a quatro, o cu erguido, a cona aberta, a gotejar. Tumé incitou Bléque e o cão trepou para cima da mulher. Tumé ajudou-o a enfiar o caralho e o cão começou a fodê-la, a um ritmo alucinante. Agus Tyna chamou então Bráuni, e pô-lo em posição para poder chupá-lo.
Tumé perguntou-lhe se estava a gostar. Ela disse que sim, com um aceno da cabeça, e um sorriso nos lábios.
— Então fá-los vir-se, na tua cona, na tua boca. Eu estou a ver.
Agus Tyna chupou e agitou as ancas a um ritmo também canino, e Tumé acariciou-lhe os seios e depois colocou-se debaixo dela e lambeu-lhe a cona e estendeu-se de modo a que também ela o pudesse chupar, e ela agora tinha na boca o caralho de Tumé e o de Bráuni, encostados um ao outro, macios, molhados, e Bráuni veio-se, e Bléque veio-se, e Tumé saiu de baixo de Agus Tyna e enrabou-a, e enquanto o fazia, disse-lhe ao ouvido que, quando ainda vivia sozinho, antes de a conhecer, fodia com Bléque (e com a cadela que tivera, antes dela morrer), e ambos se vieram, com os cães à volta, as línguas caídas, e ela disse, enfim, que também ela, antes de o conhecer, fodia com Bráuni, e que tinha sido ele, o cão, o seu único homem, desde que enviuvara, e Tumé disse:
— Amo-te.
— Amo-te — disse Agus Tyna.
E beijaram-se, e beijaram-se mais, até lhe doerem os lábios.
Ainda nesse dia, à noite, fascinados com as novas possibilidades sexuais que se lhes apresentavam e libertos, pela confissão, de um segredo que era comum a ambos, tornaram a fazer uma sessão semelhante. Quando acabaram, Agus Tyna tinha sido fodida seis vezes de seguida, os cães pareciam querer continuar e Agus Tyna disse que era isso mesmo que iam fazer. Às duas da manhã, Agus Tyna tinha sido fodida mais seis vezes, e agora já todos pareciam estar satisfeitos, tanto o homem como a mulher como os cães.
Adormeceram, todos juntos.

5
Com o passar do tempo, a vida deles começou a girar hipnoticamente à volta da experimentação sexual pura, sempre com os cães no centro dos seus jogos.
Todos os dias passavam horas a praticá-los. Tumé comprara um vibrador, e ensinara os cães a enrabar Agus Tyna. Agora, muitas vezes, ela, quando fodia, estava toda ocupada, a cona, o cu, a boca, tudo ao mesmo tempo, e havia ainda, sempre, um caralho de fora à espera da sua vez de entrar na liça, o que lhes permitia prolongar extraordinariamente aquelas sessões bizarras, em que as peles se confundiam com os pêlos, os suspiros com os latidos e os odores com os sabores.
Agus Tyna estava mais elegante, e Tumé viril como nunca.
Um dia, Tumé teve uma ideia que Agus Tyna achou deliciosa: porque não punham eles um anúncio num jornal de encontros sexuais, a manifestar o seu desejo de conhecer pessoas com o mesmo gosto que eles pelos animais?
Tal como o pensaram, assim o fizeram.
Ao fim de dois meses, estupefactos, já tinham contabilizado duzentas respostas. Claro que tiveram de fazer uma triagem muito cuidadosa, pois, pelo meio, vinham tarados de toda a espécie, oportunistas, chantagistas, fotógrafos pornógrafos e quejandos, mas, mesmo assim, ainda conseguiram apurar perto de cem respostas francamente auspiciosas.
A ideia seguinte, esta da autoria de Agus Tyna, era a de criar uma associação de amigos (de amantes, de facto) dos animais, pelo menos daqueles animais capazes de manterem relações sexuais satisfatórias com seres humanos.
Os seus correspondentes aderiram entusiasticamente à ideia, e a associação foi criada, com uma designação legal de fachada, de modo a não ferir susceptibilidades morais de outros, e Agus Tyna e Tumé tornaram-se os seus óbvios directores.
Alguns dos sócios eram pessoas de muito boa posição económica, e fizeram avultadas doações à associação, que assim pôde comprar uma quinta nos arredores da cidade, onde todos os sócios se encontravam, para as suas festas muito particulares.
Um ano depois, a associação aumentara o número de sócios para o dobro, e já contava com alguns estrangeiros.
Em virtude do muito trabalho com a associação, Tumé abandonou as traduções, e tanto ele como Agus Tyna venderam as respectivas casas e mudaram-se definitivamente para a quinta.
Um casal de sócios, ambos veterinários, juntou-se a eles. A associação dispunha agora, também, de uma clínica, com profissionais qualificados, como se costuma dizer nas publicidades avulso. Faziam amor todos juntos, mais os cães, e sentiam-se bem assim.
Quando compraram um cavalo, Agus Tyna não resistiu a experimentá-lo. Por fim, com a ajuda dos outros, conseguiu receber dentro dela uma boa porção do caralho do animal, que a brindou, depois de umas esfregadelas, com um banho de esperma como ela nunca tinha levado.
Nessa noite, ela fixou possessa — Tumé chegou a recear pela sua sanidade mental — , e só depois de ter sido fodida vezes sem conta, novamente pelo cavalo, e depois pelos cães (eram seis, na quinta), pelos homens e pela outra mulher, é que ela descansou.
No dia seguinte, como se nada se tivesse passado, teve aquela que ela considerou a sua melhor ideias. Tumé ainda tentou aconselhá-la a desistir, pois podia tornar-se perigoso, mas ela estava decidida.
O encontro anual da associação estava marcado para daí a quinze dias, e durante todo esse tempo até lá Agus Tyna só permitiu a Tumé que a enrabasse, de dois em dois dias. Tumé, não habituado a tal abstinência, fodia, nos outros dias, com Bléque, ou com uma das cadelas, ou com a veterinária.
A proposta de Agus Tyna era então a seguinte: durante os dois dias que durava o encontro, ela foderia com todos os animais que os sócios trouxessem consigo. Os sócios, por sua vez, logo que o seu animal cumprisse a sua tarefa, deveriam fazer um donativo, igual para todos, destinado à expansão internacional da associação.
Perante uma prova tão acabada de dedicação à sua causa, todos os sócios, comovidos, concordaram com a proposta de Agus Tyna.
Assim, durante quarenta e oito horas, Agus Tyna foi fodida ininterruptamente duzentas e quarenta vezes. O seu olhar brilhava como carvões acesos, e tinha um sorriso estranho a ocupar-lhe todo o rosto, indelével. As pessoas vinham vê-la, admirá-la, encorajá-la.
O último foi Bráuni. Estava velho, quase cego. Entrou no quarto, onde imperava um cheiro forte, indescritível.
— Oh, Bráuni, querido! — gritou ela, quando o sentiu, num momento único de lucidez.
Ele montou-a e fodeu-a até cair para o lado. Estava morto. Agus Tyna desfaleceu. O veterinário disse que ela estava bem; apenas exausta. Tumé levou-a para um quarto e deitou-a. Depois beijou-a na testa, com infinda ternura, e afirmou, o olhar luminoso:
— Estou orgulhoso de ti.

vitória vitória acabou-se a estória

Minhas amigas e meus amigos, estimados leitores das porcarias que escrevi e escrevo (tão porcalhotas que, segundo parece, nem comentários vos merecem, que gente sacana, buracos de fechadura é convosco, hem?, mas o resto…), termina aqui a primeira série de estórias que as circunstâncias me levaram a escrever. Com muito prazer, confesso, e disso não me dou como culpada.

Da subterrânea versão que em tempos dei à estampa, só um conto ficou de fora, dado me ter parecido, à posteriori, que fugia ao conceito (não explícito) de divertimento que nas outras estórias procurei encenar.

Sei que lá para trás, algures, em resposta a uma leitora, disse que tinha já novo volume de contos para colocar em novo blog, mas outros valores mais altos se têm elevado no correr dos meus dias, e ainda não fui além de cinco novas invenções, desta feita a partir de coisas que me foram contadas. Assim sendo, proponho o seguinte:

Prosseguirei com a publicação das minhas estórias, sendo que o farei da seguinte forma:

a) Em primeiro lugar, o conto que ficou "esquecido", tal como atrás referi;
b) Depois, em outro blog, de que a seu tempo revelarei o endereço, dar-vos-ei então conta das novas estórias que estou a escrever (estas sob o título comum "Estórias da Flossi que lhe foram contadas").


Como sou vossa amiguinha e não quero que vos falte nada, aqui fica o índice das estórias já publicadas até ao momento:

O PROFESSOR
A PROTECTORA
COISAS DOS JORNAIS
O QUERIDO PAI
O COZINHEIRO
A BABY-SITTER
A QUERIDA MÃE
O INDIFERENTE
O MELHOR FILME DO MUNDO
O MELHOR AMIGO DO HOMEM
O JANTAR COM O CHEFE
A MULHER, O HOMEM E OS CÃES



Post scriptum
Terão notado, com certeza, que as imagens em movimento que separavam cada fragmento de cada conto e cada conto do que lhe ficava imediatamente antes e imediatamente depois se transformaram em curiosos buracos com nome mas sem significado. Pois é: o generoso sapo que guardava essas deliciosas imagens decidiu aplicar a legislação algo censória a que sujeita os seus sócios e, sem aviso prévio, incendiou o meu pequeno armazém de maravilhas animadas. Pois que se foda o bicho e quem o pariu. O que não tem solução solucionado está, e por isso irei, com o vagar que decorre de uma criteriosa escolha e do tempo disponível para o fazer, substituir gradualmente tais imagens em movimento por outras paradas, que para isso os senhores estrangeiros a quem hipotequei esta casa me dão, até ver, autorização. Desta forma, passará a ficar ao vosso critério o movimento que não se vê, mas que por certo lá esteve, no momento em que a máquina fotografou.

VIOLADORES

1
Roubaram o carro às nove da noite, num bairro com muito movimento, e rumaram para norte. Às onze já tinham assaltado duas gasolineiras, tendo conseguido com o feito uma razoável quantia em dinheiro. Para baralhar as pistas à polícia, tomaram uma estrada diferente e rumaram para sul outra vez. Dormiram no carro, escondidos num matagal.
Hãdré, o mais velho, era um indivíduo já com um longo cadastro, desenhado a sangue-frio e crueldade, e onde constavam inúmeros assaltos à mão armada, duas violações e pelo menos três homicídios. Nunca fora apanhado, à excepção de uma vez, já há muitos anos, quando, ainda adolescente, havia sido surpreendido, em flagrante delito, a roubar um rádio de um carro. Todavia, nem dessa vez cumpriu pena, graças a uma amnistia concedida aquando de uma visita do Papa ao país, que é para isso que um Papa serve. O outro, Márku, o puto, era viciado em heroína. Praticava pequenos furtos para pagar a droga que consumia, e a polícia, a meio caminho entre a incompetência própria e a sorte alheia, também nunca lograra deitar-lhe a mão. Tinham-se conhecido através de uma irmã de Márku, prostituta por vocação, e Hãdré, conversa após conversa, lá conseguira aliciar o outro para seu companheiro de crime.
Acordaram enregelados. Saíram do carro e deram uma pequena corrida, para aquecer. O sol estava a nascer.
— E agora? — perguntou Márku.
— Deixa por minha conta.
— Não me vais dizer?
— Digo.
Voltaram para o carro.
— Agora vamos tomar o pequeno-almoço — começou Hãdré a explicar-se, já com o carro em andamento. — Depois, vamos comprar uma razoável dose dessa merda que tu gostas de injectar. — Fez uma pausa. — Depois, vamo-nos divertir um bocado. — Riu. — Vamos apanhar para aí uma gaja qualquer, levamo-la para um sítio que eu sei e comemo-la todinha.
Márku riu-se também.
— Tu és mesmo maluco — disse.
— Porquê? Não te apetece uma foda? Uma foda barata? Barata de borla? Olha, eu já violei duas gajas: uma estrangeira, numa roulote, e uma viúva qualquer, na casa dela, quando a estava a assaltar e ela chegou de repente. É do melhor: as gajas ficam para ali a espernear mas a verdade é que estão todas borradinhas de medo, e um gajo é só dar-lhes dois estalos que elas amansam logo. Não me mate, não me mate. A estrangeira era dessas, insultava-me e dizia dont kil mi, iú són óf a bitch. Ficou com um olho negro num instante, e depois nem pio. Vá, abre lá as perninhas e foi sempre a andar. Mas a melhor foi a viúva. Depois da entrada habitual, com gritos e esperneadelas, quando o sentiu entalado começou a gemer e a dar ao cu que nem uma doida, e tive de lhe dar mais outra senão não acalmava. Aquilo era cá uma fominha...
Márku ria com a narrativa. Sim, com droga à discrição, uma mulher a espernear mas a abrir as pernas senão levas, essa ideia agradava-lhe.
— Vamos a isso — disse.
Depois do pequeno-almoço, seguiram com o plano. Márku comprou cinco gramas de heroína. Não se lembrava de ter visto antes tanta droga junta. E era sua. Injectou-se logo ali, dentro do carro, numa ruela com pouco trânsito, e a excitação abrandou, até o olhar se lhe tornar turvo, e o riso nervoso descambar num sorriso estático, apatetado.
— Agora vê se atinas — disse Hãdré. — A seguir vai ser a parte mais difícil.
Seguiram por outras ruas até chegarem a uma azinhaga que contornava um muro velho, e que ligava uma urbanização recente a um terminal de transportes públicos. Estacionaram e ficaram à espera.
Deixaram passar algumas pessoas — duas velhas, um velho, três miúdos, um homem, uma mulher à volta dos quarenta — , até que surgiu uma vítima potencial.
Tratava-se de uma mulher na casa dos trinta, e que usava uma gabardina por cima de uma saia curta, uma camisa branca simples e um pullover com decote em V. Trazia uma pasta na mão, e uma mala ao ombro.
Márku e Hãdré saíram do carro e abriram o capot. Fingiram que estavam a olhar para o motor, mas, de facto, não perdiam a mulher de vista. Não vinha mais ninguém pela azinhaga. Perfeito. A mulher estava a aproximar-se. Não era muito alta, mas tinha as pernas bem feitas. E não era feia. Hãdré deu a volta ao carro e, no momento em que ela passava por eles, atacou-a por trás, uma mão na boca e outra na garganta. Márku, pela frente, deu-lhe um murro no queixo que a deixou logo meio tonta, o que lhe permitiu meterem-na no carro sem muita dificuldade. Márku, com a rapidez ganha com a experiência, injectou-lhe de imediato uma razoável dose de droga, e ela deixou de se debater. Amarraram-na, amordaçaram-na e vendaram-na. Hãdré fechou o capot do carro, pôs o motor a trabalhar e arrancou azinhaga fora, até à estrada principal. Tinham gasto menos de dois minutos na operação, e nada falhara. Agora era preciso sair da cidade sem dar nas vistas. Márku estava outra vez tão excitado que Hãdré, temeroso de que o seu comportamento os pudesse de algum modo denunciar, acedeu a parar por momentos à beira de uma estrada para que Márku se pudesse drogar novamente. Apenas disse:
— Isso ainda te vai matar.
— Se não for isto — afirmou Márku — , é outra coisa qualquer.

2
Chegaram sem novidade ao seu destino. Era um velho palheiro perdido no campo, lugar onde só moravam ratos, cobras, morcegos e corujas. A casa mais próxima ficava a quilómetros de distância. Não havia água potável nem electricidade, mas conseguiram abrir a mala do carro, e descobriram um jerrican com água destilada, bem como duas mantas. A mulher ainda dormia. Carregaram com ela para o palheiro, mais o jerrican, as mantas e um pequeno caixote com enlatados e bebidas que, entretanto, tinham adquirido (agora, por algum tempo, mesmo que pouco, não lhes convinha dar mais nas vistas). Puseram as mantas sobre um monte palha e deitaram-lhe a mulher em cima, depois de lhe despirem a gabardina. Hãdré foi até ao fundo do palheiro e trouxe uma corda velha e um candeeiro a petróleo que lá guardara, em outras vezes em que usara aquele lugar como esconderijo. Depois subiu por uma escada ao patamar que ficava por cima da cabeça deles e passou a corda por uma roldana que se encontrava presa a uma trave próxima do tecto. Tornou a descer, descalçou a mulher, tirou-lhe as meias, amarrou uma ponta da corda aos pulsos da mulher e disse a Márku que a segurasse em pé, enquanto ele esticava a corda.
Quando acabaram, a mulher estava suspensa pelos braços, os pés nus, o corpo mole. Desapertaram-lhe dois botões da blusa. Tinha a pele muito branca, uns seios volumosos e um pouco pesados. Hãdré disse que ainda não estava satisfeito. Desapareceu por uns momentos e voltou com mais duas cordas. Abriram as pernas da mulher, ataram-lhe uma a um tornozelo e outra a outro, e amarraram as pontas soltas a dois pilares do palheiro.
— Assim ela já não esperneia — disse Hãdré. — Vamos lá ver quem a gaja é.
Viraram o conteúdo da mala da mulher no chão e vasculharam-lhe todos os cartões. Hãdré tirou-lhe o dinheiro da carteira e guardou-o no bolso. A mulher chamava-se Páu’La, tinha trinta e cinco anos, era divorciada e era médica.
— Olha só — disse Márku. — Vamos foder uma senhora doutora. Esperamos que acorde ou vai já?
— Não, deixa-a acordar. Quero que perceba o que lhe aconteceu. Quero que tenha medo, que implore, que rasteje. Quero ouvi-la dizer que é uma cabra.
Como se o tivesse escutado, a mulher agitou-se nesse momento. Estava a acordar. Continuava amordaçada e vendada. Márku e Hãdré aproximaram-se dela. Ao ouvi-los, ela parou de se debater.
— Páu’La — disse Hãdré. — Está a ouvir-me? Acene com a cabeça para dizer sim ou não.
Ela acenou que sim.
— Ora ainda bem — prosseguiu Hãdré. — Vou então explicar-lhe o que se passa. Você foi raptada. Não, não vamos pedir resgate nenhum. A razão pela qual a raptámos é outra. — Fez uma pausa. — Vamos violá-la. Vamos violá-la cinco, dez, vinte vezes. As que nos apetecer. Vamos violá-la de todas as maneiras que nos apetecer, e você não vai poder impedir-nos, por isso o melhor será colaborar connosco. Ah, é inútil gritar: ninguém a pode ouvir, porque pura e simplesmente não há ninguém quilómetros em redor. Depois, se nos dermos por satisfeitos, talvez a deixemos ir à sua vida, doutorazinha. Alguma objecção?
Márku ria-se. A mulher não se mexeu.
— Eu bem me parecia que não — disse Hãdré, aproximando-se mais da mulher. — Agora vamos ver o que temos aqui.
Soltou as cordas, ela quieta como um bloco de gelo, e tirou-lhe a saia, o pullover e a camisa. Depois de a prender de novo com a firmeza inicial, tornou a afastar-se, para a ver assim, semi-nua, só em cuecas e soutien. Não estava nada mal.
— Nada mal, pois não? — perguntou ele a Márku.
— Toda boa — disse este, aproximando-se por sua vez dela, e levando-lhe uma mão ao sexo. A mulher debateu-se, e logo Márku, com a mão livre, lhe deu um estalo.
— Desculpe — disse Hãdré — , mas o meu amigo tem alguns defeitos, e um deles é bater nas mulheres, quando elas não se portam bem. Porte-se bem, portanto, senão, quando chegarmos ao fim do dia já você tem o corpo cheio de nódoas negras. E chega de paninhos quentes. — Ordenou a Marku: — Vá, tira-lhe os trapos que faltam. Arranca-lhos.
Márku assim fez. Hãdré, já com as calças para baixo, colocou-se então por trás da mulher, agora completamente nua, e introduziu-se nela num só movimento das ancas, brusco e firme. Fodeu-a longamente, enquanto Márku se entretinha a acariciá-la, e também a torcer-lhe os bicos dos seios, a beliscá-la, a dar-lhe chapadinhas na cara, ora fortes ora fracas. Quando Hãdré acabou, Márku tomou de imediato o seu lugar, mas veio-se depressa. Hãdré, que entretanto se afastara, regressou, trazendo na mão uma bomba de bicicleta. Soltou a corda que estava a prender os pulsos da mulher e ela tombou no chão. Hãdré sentou-se em cima dela e enfiou-lhe a bomba no sexo o mais que conseguiu.
— Acabou-se a senhora Páu’La. Eu a baptizo agora como senhora Cona Cheia. Enquanto aqui estiveres, estarás sempre assim. A cona cheia. — Voltou-se para Márku. — Agora dá-lhe outra dose, mas não muito forte. Estou com fome e não me apetece ser interrompido por esta vaca.
Márku fez como Hãdré lhe dissera. Injectou-se também a si próprio e, enquanto Hãdré comia, entreteve-se a fazer entrar e sair a bomba de bicicleta na cona da mulher, num gesto mecânico e sem fim, sorridente. A mulher não se atreveu a mexer-se. Hãdré, a olhar para a cena, sorriu também. Agora ela estava mesmo com medo. Iam realmente divertir-se.

3
À noite, Márku carregado de droga e Hãdré já um pouco embriagado, viraram a mulher e, com ela deitada no chão, por cima de uma fina camada de palha, sodomizaram-na os dois, cada qual na sua vez, depois de lhe untarem o cu com o azeite que sobrara de uma lata de sardinhas em conserva. A mulher gemeu e agitou-se desesperadamente, mas não teve outro remédio senão aguentar as investidas dos dois bandidos.
Quando acabaram, Hãdré tirou-lhe a mordaça.
Então filha, estás a gostar?
— Água — ofegou a mulher, a pronúncia pastosa. Era a primeira vez que lhe ouviam a voz.
Tinham acendido o candeeiro, e as suas sombras vampirescas bruxuleavam por todo o celeiro, ao sabor do capricho da chama agitada pelo vento que entrava pela porta esburacada.
— Água? Talvez te possamos dar água. Mas primeiro vais responder: estás a gostar? Cuidado com o que respondes.
A mulher engoliu em seco.
— Estou.
— Queres fazer-nos felizes?
— Sim. Quando é que me deixam ir embora?
— Quando estivermos felizes, claro. Não te tens esmerado muito para isso, sabes? Vou fazer-te uma proposta: agora o meu amigo vai foder-te outra vez, enquanto tu me fazes um broche. Mas vais ter muito cuidadinho, pois se me magoas, não demoras um segundo a descobrir na pele a diferença entre a vida e a morte.
— Não me façam mal — implorou a mulher.
— Fazer-te mal? — indignou-se Hãdré. — Dar-te prazer é fazer-te mal? — Ficou a olhá-la por instantes, pensativo. — Mas eu pus-te uma questão. Só tem uma resposta válida. Então, o que vai ser?
— Eu faço o que vocês quiserem. Mas dêem-me água, por favor.
Deram-lhe a água que ela tão sequiosamente pedia, e tornaram a injectá-la. Depois possuíram-na uma vez mais. Hãdré veio-se na boca dela, Márku na cona, e depois deixaram-na cair para o lado, de novo amordaçada.
Márku começou a andar aos pulinhos à volta da mulher. Estava delirante, agora que bebera também uns quantos tragos de whisky. De repente, lembrou-se da bomba da bicicleta. Foi buscá-la e, sem muita cerimónia, introduziu-a no cu da mulher, que gritou de dor, embora o grito soasse abafado, por causa da mordaça. Claro que a dor da mulher ainda excitou mais Márku, que redobrou a velocidade dos seus movimentos com a bomba. A mulher, esgotada, desmaiou.
Hãdré decidiu que a iam colocar de novo em pé, presa pela corda, quase suspensa, e assim fizeram. Depois, com dois estalos, tornaram a acordá-la.
— Não é ainda hora de dormir — disse Hãdré. Tirou-lhe a mordaça. — Então, continuas a gostar da nossa pequena festa privativa?
A mulher tiritava de frio.
— Preciso de ir urinar.
— Já estás de pernas abertas, é só fazer. Vá, quero ver. Não te vamos tirar daí, por isso ou mijas ou rebentas.
E a mulher urinou, um longo e espesso esguicho que molhou o chão todo até fazer uma poça grande, que alastrou até lhe molhar os pés.
— Se quiseres também podes cagar. É bem verdade que, na vida, mais tarde ou mais cedo, todos nós acabamos a chafurdar na nossa própria merda.
— Vocês vão matar-me, não vão?
— Porquê? Viva és muito mais engraçada. O que vamos é ter uma longa noite. Uma noite que não vais esquecer tão cedo.
Tornou a amordaçá-la, e deu novas instruções a Márku. Este não hesitou. Tinha na mão uma velha correia de cabedal, provavelmente pertencente aos arreios de um cavalo, e começou a chicotear a mulher com ela, por todo o corpo, primeiro devagar, e depois com força, até que a pele da mulher começou a mostrar alguns vergões sanguinolentos. Ela bem que se debatia, mas era impossível escapar àquele castigo.
Quando Márku parou, Hãdré encostou-se à mulher e, molhado com o sangue dela, quente, tornou a possuí-la, mas sem se vir. Bebeu mais. Tornou a soltá-la, deitou-se no chão e fê-la sentar-se sobre o seu sexo. Depois disse a Márku que, em simultâneo, a fodesse no cu. Márku não se fez rogado. Estiveram assim um bocado, e depois desamarraram-lhe também as pernas e, com inesperada delicadeza, vestiram-lhe a saia e a blusa.
Assim, ali estava ela, vestida mas descalça, as mãos amarradas atrás das costas, vendada e amordaçada.
— Estamos a acabar — disse Hãdré, com um tom de voz suave.
— Espera — disse Márku. Estava a preparar-se para se injectar outra vez.
— Despacha-te com essa merda — ordenou Hãdré. E para a mulher: — Agora vais poder sair daqui. Podes ir. Mas descobre tu o caminho.
Aproximou-se dela por trás, agarrou-a, tirou-lhe a mordaça, e ainda perguntou:
— Antes de ires, diz-me: o que és tu?
— Não sei.
— És uma puta. Diz.
— Sou uma puta.
— Então boa sorte. — Tornou a amordaçá-la. — Vai.
A mulher avançou, às cegas, cambaleante, bateu contra um dos pilares, caiu, tornou a erguer-se, e depois de uma série de voltas em vão, pontuadas pelas gargalhadas de Hãdré e de Márku, achou finalmente a porta, que estava semi-aberta. Abriu-a mais, com um pé, e saiu para fora. Cheirava a campo. Correu, conforme pôde. De repente, ouviu passos atrás de si.
— Com que então a fugir, sua puta? — gritava Hãdré, lá atrás.
Apanharam-na e bateram-lhe, com murros e pontapés. Ergueram-lhe a saia, rasgaram-lhe a blusa e tornaram a fodê-la ali, no chão, ao ar livre. Depois levaram-na para dentro do celeiro outra vez, e tornaram a bater-lhe — erguiam-na e batiam-lhe até ela cair, e tornavam a erguê-la e a bater-lhe, como se de um boneco se tratasse, até que ela não se levantou mais. Márku tornou a enfiar-lhe a bomba de bicicleta no cu e deu-lhe uns últimos pontapés, já um tanto trôpegos.
Hãdré saiu para urinar. Quando voltou para dentro, Márku estava outra vez com a seringa enfiada no braço, mas quieto como uma pedra. Tocou-lhe, e ele tombou de lado, com a indiferença de um saco de batatas. Estava morto.
— Eu avisei-te — foi o epitáfio de Hãdré.
E a mulher? Ajoelhou-se junto a ela e tocou-lhe também. Estava fria como um congelador. Tomou-lhe o pulso. Em vão. Não resistira aos maus tratos. Hãdré não hesitou. Ergueu-se, foi ao carro e trouxe uma lata com gasolina. Depois, regou Márku e a mulher com a gasolina, e ia já a puxar de um fósforo quando lhe deu a vontade de se enfiar nela uma última vez. Como seria foder com uma morta? Tirou-lhe a bomba de bicicleta do cu e penetrou-a. O cheiro a gasolina não o incomodou, nem mesmo quando lhe começou a molhar a roupa, por cima do sangue já seco que resultara da sessão de chicote. Enquanto possuía o corpo morto da mulher, puxou de uma navalha e esfaqueou-a inúmeras vezes, no ventre e nos seios. Tirou-lhe a mordaça e a venda. O rosto dela estava sereno. De repente, pareceu-lhe que ela abria os olhos e o fitava. Tal foi o susto que se ergueu de um salto, de tal modo brusco que foi tropeçar no candeeiro a petróleo, ainda aceso. Este tombou, o petróleo entornou-se por cima da gasolina, e as chamas propagaram-se com uma rapidez alucinante. Hãdré apercebeu-se, já demasiado tarde, que também ele estava a arder. Sacudiu a roupa, correu, caiu, gritou, mas nenhum desses gestos desesperados lhe valeu de nada. Acabou por tombar, de vez, a dois metros da porta.
Estava a amanhecer.

A Flossi responde

Aqui estou eu de volta, caras e caros leitores deste infame blog em que o sexo e o riso são donos e senhores. Descansei muito, mas outros afazeres que não os da escrita impediram-me de concluir algumas das estórias que já tinha meio alinhavadas no meu caderninho de capa preta. Assim, vão ter de ser pacientes e continuar a esperar, pois um dia destes vou mesmo concluí-las, e então aqui as disponibilizarei, para novas e envolventes (assim espero) leituras e, porque não?, masturbações muito dedicadas e prazeres similares.
Não posso, no entanto, deixar de aproveitar a oportunidade para anunciar que, brevemente, darei início a um novo blog, desta feita dedicado às perguntas de natureza sexual que a tantos se colocam, algumas terríveis e angustiantes, e que sexólogos e quejandos insistem em não responder de forma clara. espero assim poder contribuir, mesmo que de forma modesta, para a saúde sexual (e mental, já agora), de todos os que me lêem. E para a continuação de boas gargalhadas, que o sexo também é aquela magia que nos põe um sorriso nos lábios e um brilho sem fim no olhar.
Estejam atentos e sejam felizes.

ÚLTIMO POST: novo ano, novas casas

É com enorme prazer que informo todos os meus queridos leitores de que os trabalhos de casa a que me propus estão a decorrer a bom ritmo, de onde sucederá que no começo de 2006 (já falta pouco, tenham lá um bocadinho de paciência) poderão contar com pelo menos duas novidades saídas aqui do meu laboratório gráfico dos bons orgasmos, a saber:

1
Criação de um novo blog, onde surgirão todos os contos que se encontram neste (ou seja, desaparecem daqui mas reaparecem ali) e que nunca tiveram publicação em livro, bem como os novos contos que planeei para esse 2º volume de estórias (as que me foram contadas), o qual espero venham também a tomar forma em papel impresso;

2
Criação, como já anteriormente anunciado, de um novo blog, desta feita dedicado às dúvidas sexuais de todas essas pessoas que não encontram as respostas correctas em mais lado nenhum, e que precisam delas para, de uma vez por todas, se lançarem numa vida sexual satisfatória, feliz e livre de preconceitos.

Prometo ainda outras novidades, lá mais para diante, mas essas vão mesmo ficar no segredo das deusas, para já.

A todos, um bom resto de ano, um bom começo do próximo e muitas e boas fodas, em todas as posições e a qualquer hora.

Novidades 2006

Então cá estou eu outra vez, para anunciar com maior precisão as novidades para este ano, conforme o já referido no post anterior.
Primeiro, comecei então a construir um segundo blog de contos (os que já aqui estavam mas que não tomaram ainda forma de livro, mais uns quantos inéditos, e que só terá interesse para os meus queridos e mais assíduos leitores quando efectivar a publicação dessas estórias inéditas, dado que as outras já vocês as conhecem), blog este que vai avançar devagarinho porque, entretanto, me pus também a escrever um romance...(de que a seu tempo darei notícias mais objectivas, se as coisas me correrem bem).
Em segundo lugar, e a um ritmo que pretendo igualmente bem respirado, ou seja, segundo a máxima de que devagar se vai ao longe, um outro blog onde me proponho esclarecer todas as vossas dúvidas sexuais, entre outros assuntos que suponho serem de grande interesse para todos os que não passam sem sexo, nem que seja em pensamento.
E, para já, é isto. Boas leituras e melhores orgasmos.