estórias da flossi

que ela inventou por divertimento enquanto se encontrava particularmente excitada

Nota introdutória de crescimento contínuo



AVISO À NAVEGAÇÃO: ESTE BLOG É UM LIVRO. ESTE BLOG LÊ-SE DE CIMA PARA BAIXO, E NÃO O CONTRÁRIO, COMO É COSTUME. OS POSTS NOVOS ESTÃO LÁ EM BAIXO. AQUI À ENTRADA, APENAS EU, A VOSSA PORTEIRA E CICERONE.
QUE O PRAZER ESTEJA CONVOSCO.

Sugeriram-me que diminuísse o tamanho dos posts de texto, porque são longos demais para o tipo de atenção a que os leitores estão habituados a dispensar nestas circunstâncias de écran pequeno e tanto para ler.
Permitam-me então uma sugestão de resposta: leiam só até onde lhes apetecer. E depois regressem e leiam o que restar. Assim, fica ao vosso critério a divisão do texto em unidades "lógicas" para lá da minha própria, e ninguém sai defraudado da leitura. Ou imprimam o texto e leiam-no aos amigos, no café, em voz alta, enquanto tomam uma bebidinha reconfortante e acariciam as partes por baixo da mesa.
Que o prazer esteja convosco.

Por sugestão de um comentário surgido no último post do conto "A Protectora", e em resposta a todos aqueles a quem possam surgir dúvidas semelhantes, aproveito para informar os meus queridos leitores:
- Os textos que aqui me encontro a apresentar já foram previamente publicados em livro, mas a edição não chegou sequer a atingir os 1001 exemplares, e não vejo porque não hei-de usar a expressão digital para levar os meus escritos a mais apreciadores da ficção do sexo;
- Não, não sou plagiadora: sou eu, de facto, a autora destes textos, de tal forma que fui a primeira (e espero que não a última) a sentir tesão com eles, se é que tal "estado de espírito" vos chega a atingir pela leitura;
- E sim, outras (novas) histórias estão neste momento a ser aprontadas, para um blog novo, que deverá surgir na sequência deste.
Que o prazer esteja convosco.

BREVE NOTA DA AUTORA


Alguém que teve a talvez ingrata oportunidade de ler, ainda na sua forma manuscrita, os contos que em seguida aqui apresentarei, disse-me que lhe custava a acreditar que fosse eu a autora. Explicou que se notava claramente que era uma voz masculina, a que estava por trás de todas as minhas palavras, pois que era tratado com maior cuidado e riqueza de pormenores o prazer dos homens que o das mulheres. Como se eu conhecesse mais um que outro, o que implicaria uma só forma de tal acontecer: os elefantes são os animais que melhor conhecem os elefantes (e para bom entendedor, isto deve bastar). Pois, pensei eu, e já agora quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro. E...

Sem utilizar o argumento possível da minha generosidade (diria então:
interessa-me mais o prazer dos outros que o meu próprio, e por isso predisponho-me naturalmente para uma maior atenção ao meu interlocutor por excelência, os homens), resta-me em boa fé supor, antes de tudo isso, que a escrita, realmente, não tem sexo. Eu, por mim, escrevo como sei, invento como sei, sinto como sou. Procuro com grande discernimento encontrar a minha liberdade. Tento não prejudicar ninguém. Não me devem exigir mais que isso, nem tentar julgar-me. Como sabem, tais atitudes tiram a tusa a qualquer um, e a solução acaba por ser emigrar (e melhor ainda se o fizermos com estatuto de turista, que ainda não é profissão).

Outra: ainda na sequência desta coisa da liberdade a conquistar (a fazer, a usufruir, e por aí adiante), é preciso que releve mais uma questão. Já várias pessoas (em quem confio, não obstante) me têm perguntado porque não quero assinar os meus trabalhos com o meu nome verdadeiro; porque "não dou a cara", como se costuma dizer. Suponho, à laia de resposta, que dar a cara mais que através da escrita parece-me um bocado difícil. Será — interrogo-me eu por eles, ainda — porque faço escrita pornográfica? Mas o que é isso da pornografia, ó vós (poucos) que fodeis todos os dias? O que eu faço, na verdade, é literatura: sem género, sem rede, sem falsas modéstias ou orgulhos. Pelo menos tento. Para lá disso, ninguém tem de saber quem sou, o que faço dos meus dias, quem amo e quem odeio. Nem sequer o que penso acerca do que eu própria escrevo. Algo mais que me apeteça dizer, entretanto, escrevê-lo-ei. E tenho amigos, conhecidos, amores; gente que me escuta discretamente. É esta a lógica em questão, e não há outra possível.

Enfim, escrevo e por todo o lado aparece sexo, alguém dirá. É verdade. E sabem porquê? Simplesmente porque gosto de sexo. Acho o sexo uma coisa fantástica, de tal modo que o vejo em todo o lado, que em todo o lado ele está. Estranho acho antes que haja tanta confusão à volta de coisa tão simples, já que todos nós, de uma forma ou doutra, somos risíveis, e o riso nunca foi caso de tanta celeuma.

A maior parte das minhas amigas, a propósito disto e de nada, têm revistas pornográficas em casa. Ficam húmidas enquanto as folheiam, geralmente devagar. Enquanto usam os vibradores que compraram ou que alguém lhes ofereceu. Ou tão somente os dedos, que são artistas dos mais dignos e habilidosos. Por mim, acho natural: acontece-me o mesmo e nunca pensei em ir a um psiquiatra, ou a qualquer especialista de generalidades similar.

Talvez porque sei que, no fundo, o melhor do mundo são os beijos na boca.

O PROFESSOR

1
Com sessenta anos já feitos, viúvo, reformado prematuramente por incapacidade física (um problema pulmonar que, com o passar do tempo, surpresa das surpresas, em vez de se agravar se desvaneceu quase por completo), mas a auferir, em paralelo, de outros rendimentos, não visíveis na anual declaração de impostos, Kárlus — Karlinhus, o Professor, para os amigos, dada a sua forma de falar, algo autoritária, e sempre demonstrando conhecimento seguro do que afirmava, apoiado em citações, datas e outras preciosidades sempre úteis em qualquer diálogo ocioso — deu por si, certo dia, a não saber mais que fazer da sua vida, perdida, de algum modo, naquela pequena vila lá a Norte, como diriam os jornais, entalada entre dois montes, entalados também os homens e as mulheres que a habitavam.
Sozinho, então, na sua casa, um piso térreo com quatro modestas assoalhadas e uma imitação de quintal sem galinhas nas traseiras, foi ele construindo, depois da morte da mulher, um mundo só seu, onde nem os velhos amigos da Sociedade Recreativa e Cultural, com quem todas as tardes jogava às cartas e às damas, entravam. Era um mundo simples e objectivo, que girava com suave monotonia à volta de um planeta de referências muito concretas: uma sala com lareira, uma tv, dois leitores de vídeo, inúmeras cassetes e uma estante com livros, alguns raros, e todos, cassetes e livros, subordinados ao mesmo tema: sexo.
Fosse verão ou inverno, lareira acesa ou apagada, Kárlus, em certas noites (quase todas, para sermos mais rigorosos), despia-se até ficar completamente nu, sentava-se no chão maciamente atapetado da sua sala, punha a rodar no vídeo um filme porno e masturbava-se. A sua forma de o fazer era algo peculiar: começava por olhar para as imagens, imóvel, atento mas de forma desprendida; depois, ainda como quem não quer a coisa, começava a tocar-se no sexo, à velocidade de um caracol adormecido, respirando fundo e sempre com a mesma cadência tranquila, e acabava então a fazer com a mão aquilo que a maioria dos rapazes faz, antes de conhecerem mulher (e muitas vezes depois, que a fome é grande e a caça às vezes espanta-se). Fazia-o, no entanto, com outros requintes: o segundo leitor de vídeo servia-lhe para coleccionar, só para si, as imagens que achava mais excitantes, e que era as que usava nesses momentos íntimos e decisivos. E não se ejaculava para qualquer lugar. De facto, não sendo já tão potente como um jovem de vinte anos, apesar de, para a idade, manter um vigor invejável, uma bandeja de prata (tinha três ou quatro, uma delas que a sua falecida mulher comprara para oferecer — contra sua vontade — a um governante do antigo regime, aquando de uma visita deste à povoação, oferta estúpida que ele, diga-se a verdade, em abono da sua boa consciência democrática, conseguira evitar) servia-lhe sempre de receptáculo para aquele líquido branco e viscoso como clara de ovo que tanto prazer lhe dava libertar de si, em golfadas serenas de bebé sobre-alimentado. A respiração, que entretanto se tornara ofegante, ia baixando, até normalizar completamente, e ele acabava a mexer no esperma com o dedo indicador, muito devagar, o olhar como se absorto, as imagens ainda a passar no écran.
Depois erguia-se, lavava o recipiente sagrado com meticulosidades de dona de casa, desligava o vídeo e o televisor e ia-se deitar.
A maior aventura da sua vida — e, consequentemente, o fim de tanto tédio — começou certa manhã em que, ao passar pelo quiosque onde habitualmente comprava o jornal diário, também sempre o mesmo, viu uma nova publicação à venda. A capa tinha uma fotografia grande, a cores, em que uma mulher nua segurava nos seios e, lançando para diante um olhar sedutor de baixo preço, dizia, segundo a legenda: Come-me. O jornal apelidava-se, sob o nome, como “o jornal de todas as intimidades”.
Excitado, quase gaguejante, ouviu-se a perguntar:
— Ena, isto é novo, não? — E depois, em busca de cumplicidade masculina, que nós os homens, etc.: — Bela rapariga.
Mas o vendedor, porventura pouco instruído nessas subtilezas da camaradagem e quejandos, respondeu apenas, em tom sorumbático:
— Parece que sim.
— Acho que vou levar um — disse Kárlus. Não gostava de adquirir aquelas coisas ali, onde todos o conheciam. Amiúde ia a trinta quilómetros de distância, a outra povoação, para alugar as suas cassetes, e à capital, a duzentos quilómetros, para comprar livros e revistas. Todavia, naquele momento, não achou outra alternativa: a gasolina que ia gastar versus o preço de capa não compensava. Aliás, era apenas uma mera curiosidade, ou não?
Pagou, enfiou o jornal suspeito no meio do jornal insuspeito, e, pela primeira vez em alguns anos, não foi tomar o pequeno-almoço ao café habitual: regressou a casa. Quase a chegar lá — era a pouco mais de cinquenta metros, em linha recta, do ponto onde estava — , olhou de soslaio para trás. O homem do quiosque, com nenhum cliente novo por perto, estava a olhá-lo. Ou seria só impressão sua? Já se conheciam há um ror de anos, mais de vinte, mas o outro mostrava-se sempre tão reservado que era como se de facto não o conhecesse. Que estaria ele a pensar? Tomou nova decisão, rápida: deixou o jornal suspeito em casa e tornou a sair, a caminho do pequeno-almoço.
Ao passar pelo quiosque, disse, em tom jovial:
— Estou a ficar velho, agora até me esqueço de coisas em casa.
E, embora se sentisse patético, sorriu. O outro, fiel a si mesmo, não deu qualquer resposta.
Tomou o pequeno-almoço, portanto, mas com uma inquietação crescente a incomodá-lo. Já não era aquela questão quase ridícula da compra do jornal, mas o jornal em si, aquela mulher nua, aquela demonstração de disponibilidade absoluta, o convite absoluto e cru: “Come-me”. Haveria alguma mulher realmente assim, para lá das que eram prostitutas? E mesmo essas, eram realmente assim?
Estava a terminar a torrada quando se apercebeu de que o verdadeiro ridículo, por maior que fosse o prazer inerente, era aquele seu jogo diário em que a fantasia mandava mas só a mão fazia.
Quando se ergueu, para pagar, sentiu que alguma coisa se começava a modificar nele: uma ideia, um desejo nubloso, uma vontade a tomar forma. Retornou a casa, o passo largo, as mãos nos bolsos e a assobiar. O jornal habitual, debaixo do braço, nem o chegara a abrir. Havia outro, e ele pressentia que ia encontrar, lá dentro, algures, a solução para uma vida nova — pois a vida pode recomeçar em qualquer instante, em qualquer idade, para qualquer pessoa, assim ele ia a pensar.
Chegado a casa, foi com algum frenesim que se sentou a ler, a ver as imagens inertes nas páginas pouco brancas do jornal, umas a cores, outras a preto e branco. Mais mulheres nuas, fotografias de casais a fazer amor, duas mulheres e um homem na mesma cama, anúncios de cassetes de vídeo pornográficas, cartas dos leitores. Até que chegou a uma secção de anúncios e mensagens pessoais, dividida em três secções bem definidas: “Homens”, “Mulheres” e “Casais”. Leu cada um dos anúncios, com muita atenção. Homens propunham relações sérias com outros, um mero prazer sem compromisso. As mulheres idem. Mulheres pediam quaisquer homens que as possuíssem, desde que sérios, homens propunham-se possuir todas as mulheres, dos dezoito aos oitenta, desde que divertidas (sexo a rimar com anedota?). Casais pediam outros casais, e raparigas, e rapazes. Sexo puro ou sado-masoquista. Desesperado ou tarado. Muita higiene, sempre, que os tempos andavam doentes.
A excitação de Kárlus ganhou um brilho muito especial. Eram mais de cem propostas para sair do seu buraco misógino e alcançar verdadeiro prazer. Não, não havia ali nada que se parecesse com amor. Mas o amor, para que servia ele? Era uma mulher a fazer propostas e ofertas a governantes corruptos, o amor. A liberdade de nem sequer ter de pensar nisso parecia-lhe maior.
Apeteceu-lhe responder de imediato a alguns daqueles anunciantes, mas, de repente, teve a tal ideia única, inimitável, brilhante, e que o deixou com o coração aos pulos, quase como um adolescente em dia de primeira namorada. Pois (e essa era a ideia) porque não havia ele de pôr também um anúncio naquele jornal, e esperar que lhe respondessem? Viriam cartas de todo o país, muito provavelmente. “Um anúncio daqueles” pareceu-lhe força de expressão. De facto, queria fazer uma coisa que fosse diferente. Tinha visto tantos filmes, tantas ideias loucas, que lhe apetecia agora qualquer coisa de requintado, e não um mero sucedâneo do jogo masturbatório. Tantos filmes: mais uns poucos e ganharia o doutoramento, pela certa. “Professor de sexo”, pensou ele, atento à ironia decorrente de tal pretenciosismo. Professor de sexo. Aquilo começou a ecoar-lhe como refrão no pensamento obcecado. E porque não? Quem o poderia contestar? Poderia falar de todo esse magnífico mundo com o quase saber de quem alguma vez o tivesse efectivamente praticado, até lhe desvendar todos os segredos. Na curva descendente da vida, que tem um homem a perder? A sua dignidade? Estar vivo e a morrer é que era indigno. Sim, sentia-se preparado para tudo. Ou talvez não se sentisse, mas não o poderia saber sem experimentar. E experimentar, para um homem da sua idade, era como ter outra idade, como ter bebido da fonte da juventude e, desse modo quase mágico, mitológico, ser outro homem.
Recortou o rectângulo cheio de pequenos quadrados onde deveria escrever o seu anúncio e, depois de procurar a melhor forma de o enunciar — queria abarcar o maior número de “casos” possível — , em várias escritas, numa folha à parte, apontou finalmente: “Professor de sexo. Dou aulas deste tema a senhoras e casais de todas as idades. Ensino como o marido deve excitar a mulher e a mulher o marido. Vou ao domicílio. Sou homem bem apresentado, bem falante, educado, respeitador, verga longa e grossa. Respondo a quem enviar foto nua. Assunto sério”.
Releu o escrito, várias vezes, e achou-o bom: tudo aquilo era verdade, excepto o pressuposto básico, mas sabia que ninguém o poderia pôr em causa: os doutoramentos em tal área tinham sempre outro nome, e nenhum doutorado anda com o diploma na mala.
Durante todo esse dia, e depois de ter colocado a sua mensagem no correio, sentiu-se como já há anos não se sentia: não livre, nem perfeito, nem heróico, mas satisfeito. Realmente satisfeito.
Nessa tarde, no Clube, ninguém o conseguiu derrotar no jogo das damas. E à noite, animado de uma estranha excitação, tirou o som do vídeo, releu o jornal proibido e masturbou-se duas vezes.

2
Com a morosidade inerente a tudo o que pode dar um grande e verdadeiro prazer, a primeira resposta à sua proposta só surgiu um mês e meio depois, quando ele, depois de uma prolongada fase de espera (e quem espera desespera), já quase esquecera o assunto. No dia seguinte, mais duas. Depois, de repente, outras três. Mais uma semana e acabara por lhe perder a conta.
Tinha agora uma excelente colecção, extremamente realista, de homens e mulheres nus, sozinhos ou juntos, a exibirem-se, a simularem masturbações refinadas, a fazer amor. Poucos mostravam os rostos: antes procuravam realçar, segundo ideias eventualmente apreendidas em jornais como aquele (“come-me, come-me”), os aspectos mais favoráveis dos seus corpos. Em alguns casos, conseguiam-no por completo. Chegou, assim, o tempo da selecção. Para testar os seus dotes de pedagogo, decidiu-se por um casal, como primeira experiência. Este, despudorado ou ingénuo, mostrava-se tão claramente interessado que não hesitara em enviar, para além da fotografia requerida, a morada e o número de telefone, “para um mais rápido contacto”, conforme rezava a carta. Depois de consultar o mapa, descobriu que eles habitavam a pouco mais ou menos cem quilómetros de si, o que era uma distância perfeitamente razoável para um viajante pendular como ele era. Telefonou-lhes, e ficou combinado encontrarem-se no fim-de-semana seguinte.
No dia aprazado, portanto, sábado de manhã, pôs-se a caminho. Depois de hora e meia de viagem e algumas perguntas para achar a rua certa, deu por si, não sem alguma excitação, a tocar à campainha da casa de onde solicitavam os seus serviços de perito. Depois de tocar três vezes, e quando já estava a pensar que a sua viagem fora em vão, a porta abriu-se. Surgiu uma mulher, com um sorriso bonito no rosto limpo, olhos claros, e aparentemente com mais meia dúzia de anos que o anunciado.
Apresentou-se Kárlus, com grande rigor, e ela convidou-o a entrar.
— Entre, entre, esteja à vontade. Receávamos que não viesse. O meu marido está a tomar banho, mas vem já. Quer tomar alguma coisa?
— Um copo com água — disse ele. — A viagem fez-me sede.
— Mas espero que não lhe tenha tirado o apetite.
— Não, antes mo abriu.
— Óptimo, estou a preparar um almoço especial.
— Por minha causa? Não era preciso incomodar-se.
— Não lhe vou mentir: os meus almoços são sempre especiais.
— Isso deveria ser um sinal de felicidade.
— E é. Só que a felicidade, como deve saber bem, vive não só da segurança, mas também da novidade. E eu e o meu marido somos duas pessoas que muito apreciamos a vida.
— Não há nada de melhor — ainda respondeu Kárlus, mas já distraído a observar a sala onde se encontravam: móveis de estilo, alguns quadros na parede (a percentagem de genuínos supostamente a equilibrar-se com a de imitações), certos objectos específicos sobre os móveis, tudo isso e o modo de falar dela, denotavam não só uma relativa abundância de dinheiro, mas também algumas pretensões culturais, às quais Kárlus, apesar de autodidacta por sistema, também não era alheio.
Mas não teve tempo para mais pensar, pois o marido apareceu logo de seguida, atrás da mulher, esta com o solicitado copo com água na mão, e Kárlus deu por si a erguer-se, a trocar cumprimentos de circunstância, e de novo a sentar-se, pronto para cavaquear um pouco, enquanto o almoço não ficava pronto.
A conversa decorreu mais ou menos inócua, até que se viram num pequeno quintal cheio de sombras, nas traseiras da casa, a comer, o outro homem sempre a encher-lhe o copo, como criado em restaurante de primeira, pois que o vinho era muito bom, assim ele assegurou, enquanto a mão da mulher lhe procurava a perna (e um pouco mais, sim), demoradamente e várias vezes. De repente, ele percebeu: o “professor de sexo” não era para ali chamado, mesmo que assim o considerassem. O que eles queriam era ter alguém estranho ao casal em casa para fazerem amor, com ele a participar, ou só como espectador, logo se veria.
O vinho, esse, teve o condão não de lhe dar tal clarividência súbita, mas o de o predispor positivamente para tudo o que se poderia seguir à refeição.
De facto, após um óptimo brandy e mais meia hora de conversa flutuante, o homem do casal sugeriu que passassem ao interior da casa, onde poderiam ver algumas “coisas curiosas”. Estava a referir-se, concretamente, a umas fotografias e a alguns vídeos (“um ou dois”) do passado dos dois. Aquilo, sim, pareceu-lhe algo de pornográfico (do mais linear que se podia conceber), e isso excitou-o, embora tenha calculado que, quase de certeza, teria de ouvir, em paralelo, umas quantas histórias mais ou menos insossas acerca de filhos, familiares no estrangeiro, amigos, colegas de tropa e da universidade.
Mas, afinal, eles não tinham filhos. E davam-se pouco com familiares, e amigos certos não eram muitos, e ele não chegara a fazer a tropa, e nenhum deles frequentara a universidade. A excitação permaneceu intacta, enfim. As fotografias mostravam-nos então em festas, com pessoas que — assim eles disseram — só tinham conhecido em férias, dentro de igrejas com quinhentos anos de inquisições a dormir nas volutas góticas, a fazer brindes em esplanadas europeias, a devorar banquetes tropicais em casas de identidade indistinta (móveis de verga frente a balcões em mármore) e na praia (duas ou três diferentes). Das fotos de casa e da praia, havia algumas em que eles se mostravam nus, e Kárlus pôde então vê-los assim antes mesmo de eles se despirem, se é que o iam fazer. Mas iam, com certeza: ao mostrarem-lhe tais fotos, reparou nos seus olhares inesperadamente luminosos, travessos — atrevidos, sim, e intencionados, mas quase infantis, no brilho final de ingenuidade feliz.
Quando chegou a vez dos vídeos, gerou-se alguma discussão de circunstância. Primeiro, quiseram saber se não estavam a ser muito enfadonhos.
— Nem por sombras — garantiu Kárlus. — Admiro a vossa intimidade.
Eles pareceram ficar satisfeitos, mas, não obstante esse equilíbrio reencontrado, a escolha do primeiro vídeo foi algo problemática, dado que cada um deles queria pôr um vídeo diferente. Kárlus acabou a contenda, dizendo:
— Vejamos os dois, simplesmente.
Foi o que fizeram. E o primeiro filme era quase uma repetição das fotos: festas, jantares, passeios, poses brincalhonas, mamas ao léu a chapinhar na água do mar, risos, brindes.
— Nós temos uma vida simples — disse ela. — Até mesmo algo monótona. E, como todos os burgueses, tentamos aproveitar ao máximo as nossas férias.
— Não temos amigos íntimos — declarou ele, logo de seguida. — Temos os amigos que o tempo nos dá, limitados na amizade pelo que o tempo é, e as nossas intimidades com os outros passam todas por aí.
— Parece-me uma boa forma de estar na vida — afirmou Kárlus, convicto.
O exibicionismo deles não lhe era desagradável, pois dava-lhe possibilidade de não falar muito de si próprio.
E surgiu o segundo vídeo, que não era senão eles a fazerem amor. Notavam-se alguns cuidados com a filmagem (melhor dizendo, perante a câmara), o que denotava que talvez o tivessem utilizado já, em outras circunstâncias, como cartão de visita. Era também uma boa oportunidade de o porem à prova — ou para o espicaçarem, mas como sabê-lo? — , e eles não a perderam: de vez em quando, um dedo no botão de pause (e aí ficava, no écran, a imagem do caralho dele prestes a penetrá-la, ou todo enfiado na sua boca, ou ela a masturbar-se, ou com um vibrador no cu) conduzia directamente a uma pergunta qualquer muito directa: que achava ele do modo como eles faziam? Que achava desta sequência? E daquela? Que achava ele do uso (que estranho verbo, em tal situação) do esperma numa relação íntima?, e por aí adiante. A todas as questões respondeu Kárlus de formas diferentes, embora sendo a resposta sempre a mesma: sim, estava tudo bem, desde que o prazer deles fosse real. Não havia regras, mas tão só a sinceridade do que se fazia. E enquanto ia respondendo isto, o sofá tornava-se-lhe desconfortável, perante tal despudor, e as calças apertadas, perante tanta tesão. “Verga longa e grossa” não era uma mera figura de estilo.
De repente, o écran escureceu. Não pause, mas stop. O outro homem disse:
— Que tal vermos isto tudo mais de perto?
Conduziram-no para um quarto, com uma cama invulgarmente grande, e convidaram-no a despir-se, enquanto eles faziam o mesmo.
Deitaram-se os três na cama, e a mulher pegou no sexo de Kárlus. Disse:
— Você é um homem honesto.
Depois começou a chupá-lo, sem mais preâmbulos.
— Que acha dela? — perguntou-lhe o marido, e notava-se que queria mesmo saber.
E Kárlus respondeu:
— Sabe bem o que está a fazer.
E já o homem lhe sopesava os tomates, com ar apreciativo, após o que acrescentou:
— Você é realmente bem dotado. Vai agradar-lhe. O que acha de mim?
Kárlus olhou para a picha do outro.
— Vá, toque-lhe — disse este. — Sinta bem como eu me sinto.
Com certa relutância, Kárlus pegou-lhe no sexo. Era uma picha normal, excitada, dura. Nunca tinha feito nada de semelhante, mas tinha de reconhecer que não se estava a sentir embaraçado ou inibido: uma picha é um pedaço de carne, e nada mais. Às vezes com tratados de moral a esvoaçar à volta, mas quanto a isso pouco haverá a fazer.
A mulher, entretanto, largou-o, para se debruçar sobre o sexo do marido, a boca sempre aberta, o cu virado para o ar. Só parou para dizer a Kárlus:
— Foda-me.
Kárlus não se fez rogado.
Dez minutos depois, trocavam de lugares, mas para um novo jogo: Kárlus agora estava deitado de costas, a mulher a montá-lo, e o marido por trás, a vê-los.
— Belo — disse este.
E depois, sem mais, Kárlus sentiu qualquer coisa a apertar-lhe o caralho: era o do outro, que entrava no cu da mulher.
— Nunca fizemos isto antes — disse ela, ofegante. — Mas é muito bom.
A mudança de posições seguinte pôs Kárlus a enrabar a mulher, enquanto o marido tomava de novo o papel de observador. Depois, de repente, ela gritou:
— Não se venha!
E, tirando-lhe a picha do cu, chupou-o, frenética, enquanto o marido avançava para de novo lhe assaltar o cu insaciado. Kárlus veio-se na boca da mulher, e tombou para o lado, completamente avassalado pelas sensações que ainda o estavam a possuir.
Três horas depois, com mais alguns períodos circunstanciais de descanso, já tinham tentado e experimentado todas as variantes possíveis daquele jogo de delícias sempre renováveis, e Kárlus estava espantado com a sua própria virilidade.
Nessa noite, dormiu em casa deles, e, no dia seguinte, domingo, repetiram a dose, ainda com mais novidades. À noite, embora exausto, Kárlus regressou enfim a casa, deixando atrás de si uma vaga promessa de regressar.

3
Só uma semana depois é que Kárlus se atreveu a pegar na carta seguinte, do grupo das já seleccionadas. Ainda lhe doíam um pouco os rins, a ponta da picha — os cus, geralmente entradas estreitas, nunca são uma limitação, mas sempre, sem dúvida, um constrangimento — , e adquirira o conhecimento de que o professorado não é uma situação tão fácil ou privilegiada como às vezes se pensa. Mas, ao mesmo tempo, a recordação dos prazeres que partilhara chegavam para o fazer esquecer todos os aspectos negativos, e por isso achou que era preciso prosseguir, naquelas aulas em que o professor, no fundo, tinha mais ar de aprendiz. Masturbou-se, nesse dia (duas vezes, como era agora da praxe), tendo na mente as imagens da sua primeira grande patuscada sexual, e achou-se de novo em forma.
O contemplado seguinte era um infeliz marido que, embora tendo uma vida sexual normal, sentia que as coisas já não eram como dantes, e que a sua mulher já não se entregava aos mais puros prazeres do corpo com o devido entusiasmo. Pareceu-lhe que o indivíduo estava a ser sincero, e decidiu contactá-lo. Chegaram a acordo rapidamente, apesar da aparente gaguez do outro, e Kárlus preparou-se para mais cento e tal quilómetros de estrada, depois de se ter munido de dois ou três filmes que julgou adequados ao caso. Descobriu deste modo que o sexo, mais que o lazer inerente às férias, provoca apetência para as viagens, e não o contrário.
Eram três da tarde, sexta-feira, quando Kárlus se viu a tocar à campainha de mais uma porta estranha. Deviam esperá-lo com grande expectativa, pois abriram logo. O indivíduo gaguejou, ao perguntar:
— Sr. Kárlus?
E ele soube que estava no sítio certo.
— Faça o favor de entrar — disse o outro, com grande solicitude.
Kárlus assim fez, e sentaram-se ambos numa sala vulgar, pequeno-burguesa q.b. (flores de plástico, ícones religiosos e de clubes de futebol uns ao lado dos outros, cortinas às florinhas nas janelas, galos em barro, e por aí fora).
— Eu chamo-me Frãcisku — disse o homem. — Xiku, para os amigos. Quer tomar alguma coisa?
— Água fresca — pediu Kárlus. — Está um calor dos diabos.
— Ah, pois está. Estou muito contente por ter vindo. Isto nunca se sabe, não é? Mas você veio, sim senhor.
Estava a falar da cozinha.
— Fresca fresca?
— O quê?
— A água.
— Sim, sim.
O tipo tinha mesmo um aspecto de coitado. Kárlus pensou, por momentos, que ter vindo ali não tinha sido, provavelmente, a melhor das ideias. Decidiu aguardar, no entanto, para ver o que aquilo dava.
Frãcisku regressou à sala, com o copo com água, e desapareceu outra vez, corredor fora, a dizer:
— Desculpe, eu volto já.
Foi o que aconteceu, cinco minutos depois.
— Desculpe — disse ele outra vez — , mas tinha uma coisa para fazer.
Kárlus atalhou:
— Eu, por mim, prefiro sempre ir directo às questões.
O outro olhou-o, mas já a concordar.
— Tem toda a razão — disse, enquanto se tornava a sentar no sofá frente a Kárlus. — Entretanto, a questão é um bocado mais complicada do que eu lhe disse. Quer dizer, é facto que a minha vida sexual com a minha mulher não anda muito famosa, mas acho que isso é culpa minha. Embora não seja realmente uma culpa. O que eu quero dizer é que tudo começou há muito tempo já. A princípio, eram simples inquietações.
Agitou-se no seu lugar, como se o que ia dizer a seguir o incomodasse.
— Continue — ajudou-o Kárlus, em tom compreensivo, e cheio de paciência.
— Simples inquietações — repetiu Frãcisku. — Não vou maçá-lo com o percurso que fiz, mas cheguei a uma certeza: o tamanho do pénis de um homem é determinante na forma como exprime a sua sexualidade.
Sorriu antes de continuar: um sorriso triunfante, como se fosse merecedor de um qualquer dos Nobel e, ao mesmo tempo, lhe tivesse saído um grande peso de cima. Mas ainda havia outro, pelo menos, a esmagar-lhe as omoplatas, e ele prosseguiu:
— Todavia, a maior questão continuava por esclarecer: o que sente uma mulher, quando faz amor? Como fazê-la sentir o que nós, homens, sentimos então, ou sentir o que elas sentem?
Tocou a campainha, e Frãcisku ergueu-se, rápido, e correu para a porta. Regressou acompanhado por outro tipo, loiro, de olhos azuis, um pouco gordo e com um aperto de mão mole. Frãcisku apresentou-o com o nome de Úgu. Sentaram-se ambos, e Frãcisku disse, decidido:
— É o meu melhor amigo, e partilhamos estes problemas todos, que a ambos afectam. Onde é que eu ia? Ah, já sei: o mais difícil. O sentir das mulheres. Propus à minha, ao fim de três anos de casados, uma experiência de sexo anal. Acabámos por o fazer apenas três vezes, e só depois de eu a embriagar um pouco. Não era que tal modalidade sexual me agradasse muito, pois saía sempre com a picha um bocado suja, o que não é coisa agradável por aí além, como você deve saber, e melhor que eu. Mas, entretanto, estas tentativas pareciam a única forma de chegar a alguma conclusão. O Úgu concorda comigo. Ele tem uma picha mais pequena que a minha, e demos por nós a compará-las, a discutir tudo isto. Quer ver?
E, desapertando a braguilha, tirou o sexo para fora. Estava meio teso, vá-se lá saber porquê, e não era grande coisa. Quando Úgu o imitou em tal gesto, Kárlus ficou a pensar se aquela teoria estranha do tamanho do sexo vs. a sexualidade não estaria certa. A sua própria picha era quase do tamanho das outras duas juntas.
— Não nos quer mostrar a sua? — propôs Frãcisku.
Kárlus, contendo uma certa vontade de rir, aquiesceu.
— Não é nada de mais, pois não? — disse, olhando o seu próprio pénis flácido.
— Não — atalhou Frãcisku. — Mas nota-se de imediato o potencial.
— Bom... — condescendeu Kárlus. — Com uma festas e uns beijinhos...
— É essa também, a questão. Acabamos sempre por ir ter ao mesmo: o que sente o outro? Só experimentando, pensámos nós. E foi o que fizemos.
Continuava a olhar para o sexo de Kárlus.
— Úgu, não queres...? — E, para Kárlus: — Com certeza não se importa...
Kárlus gesticulou um "não, claro, estou aqui para isso", sem perceber bem o que lhe diziam, ou propunham, mas logo Úgu lhe tomou o sexo nas mãos, e depois na boca. Não chupava nada mal, para um aparente principiante.
— O que acha? — perguntou-lhe Frãcisku, sem abandonar a sua pose de cientista em laboratório sem ratos. — Repare, o nosso objectivo é aprender, nada mais.
— Não está mal, de facto — concordou Kárlus, já a entrar no jogo dos outros — . Mas teremos de analisar melhor todo o processo. Continue a observar.
Frãcisku, de facto, não parava de olhar para o modo dedicado como o seu amigo chupava o pénis de Kárlus, o qual, entretanto, atingira já a sua dimensão mais nobre.
— Talvez agora fosse um bom momento para uma pequena interrupção — sugeriu Frãcisku.
— Estava a saber-me bem — protestou Kárlus, se bem que sem grande firmeza.
— Bom, eu creio que já entendeu o nosso problema — disse Frãcisku, enquanto Úgu não parava de sorrir, os lábios molhados. — Começámos a fazer experiências, todas apontando para o mesmo objectivo, mas faltava-nos quem nos orientasse. — Fez uma pausa, a reflectir. — A sabedoria, enfim.
— O melhor será despirem-se — disse Kárlus.
E, dois minutos depois, aí estava ele com dois fulanos nus a olhar para ele. Despiu-se também. Frãcisku retomou o comando das operações:
— Bom, que me diz à teoria do tamanho dos sexos?
Kárlus não respondeu a tal questão, mas antes disse, ou perguntou:
— Com certeza já se enrabaram um ao outro?
Ambos pigarrearam.
— Então? — insistiu Kárlus.
— Bom, sim, está a ver, as nossas experiências... — começou Frãcisku.
— Certo, certo — condescendeu Kárlus. — Tudo isto é muito claro para mim, e não vamos criar mais confusões. Úgu, ponha-se de cócoras. Há que aprender, de uma vez por todas. É para isso que aqui estou.
Úgu obedeceu. Kárlus abriu-lhe as nádegas, enquanto dizia:
— O tamanho do pénis não tem qualquer importância, a não ser que estejamos a falar de um pénis descomunal, ou, vendo pelo outro lado, de um pénis de criança, entendem? O meu não é assim, pois não? Nem uma coisa nem outra, digo.
Nenhum dos outros respondeu, de tão atentos que estavam: um alfinete a cair naquele silêncio soaria a trovoada.
— Não é — prosseguiu Kárlus. — É grande, mas não descomunal, o que implica que os vossos têm exactamente a mesma capacidade de dar prazer que o meu. A arte, essa, está na forma de o fazer. No empenhamento. Está a ver isto? — E mostrava o ânus de Úgu, imaculadamente pronto para o que desse e viesse. — Todavia, se o lubrificássemos um pouco seria bem melhor.
Cinco minutos depois, Kárlus, o homem que por certo mais filmes pornográficos vira em todo o país, estava pronto para iniciar um novo capítulo na sua vida sexual, mas não se sentia apreensivo. Enquanto lubrificava o cu de Úgu, Frãcisku ia-lhe chupando a picha, com grande mas humilde dedicação. Kárlus chamou-o, em certo momento.
— Veja — disse. E era um dos seus dedos a entrar facilmente no cu de Úgu.
— Experimentemos — disse Kárlus então. E, sem mais teoria anexa, penetrou em Úgu, que deu um breve suspiro. Kárlus, inspirado, sugeriu que Frãcisku desse também a dar a provar a sua picha a Úgu. Onde? Na boca, claro. Instantes depois, enquanto ia andando para trás e para diante e para fora e para dentro, no cu de Úgu, que chupava metodicamente a picha de Frãcisku, foi Kárlus perorando a sua teoria de circunstância:
— Não é o tamanho do sexo, então, esqueçam isso, rapazes, mas o modo como o usamos, a força, a intenção. Não há pénis sem mãos, nem mãos sem boca, etc.
Começou a sentir-se excitado. E disse ainda:
— Devemos mover-nos devagar, depressa; seja como for, mas com paixão. — E retirou-se antes de se vir.
— Troquemos — disse para Frãcisku.
E aí estavam eles de novo, Frãcisku no cu de Úgu e Kárlus na boca deste, mas confortavelmente sentado no sofá, como se fosse o dono daquelas duas patéticas criaturas. E então Úgu disse, entre duas chupadelas:
— Acho que começo a entender o que uma mulher sente, quando a estão a foder.
Frãcisku veio-se-lhe no cu, e Kárlus na boca.

4
Kárlus só se foi embora dois dias depois, após ter fodido repetidas vezes Frãcisku, Úgu e as respectivas mulheres, que entretanto se tinham juntado ao seu mini-curso, desejosas de saber o que elas próprias sentiam.
Com toda a rodagem que já ganhara com as suas aventuras, dois dias mais tarde já ele estava a responder a outra carta. Desta feita, era uma mulher que queria aprender tudo acerca do sexo, pois não conseguia satisfazer todas as solicitações do marido, o qual, segundo a narrativa da mulher, devia ser um bom tarado.
Como ela não queria que o marido soubesse daquele encontro (que o sonhasse, sequer), tinham combinado encontrar-se num hotel de uma povoação próxima daquela onde ela morava, a qual, aliás, também não distava muito da vilória onde Kárlus tinha a sua casa — a sua reitoria, como ele agora gostava de pensar.
No dia seguinte, portanto, Kárlus, munido dos seus variados apetrechos didácticos, encontrou-se com a ansiosa senhora, e subiram ambos ao quarto de hotel, o qual, entretanto, ela já tinha alugado. Era uma mulher bonita, no começo da casa dos quarenta, ou no fim dos trinta, a encaminhar-se claramente para uma resolução em tipo balzaquiano, e, eventualmente, divorciada, em vez de casada (circunstância que Kárlus nem por instantes sugeriu, claro). Limitou-se a confirmar que ela não usava aliança. Chegados ao quarto, ela desfez-se em agradecimentos.
— Sr. Professor, nem sabe como lhe estou grata por ter atendido o meu pedido.
— Trate-me por Kárlus, e fale-me do que a preocupa.
Ela assim fez, e Kárlus admirou-lhe a clareza, bem como a imaginação. Pois era verdade, o marido tinha uma série de fantasias estranhas, e ela não se sentia preparada para as satisfazer. Quando vira o anúncio de Kárlus, descobrira que podia ser essa a solução: com um orientador, quem sabe se não ganharia outra segurança, outra confiança em si própria e no seu corpo, de modo a poder satisfazer-se e satisfazer o marido, que tanto amava.
Kárlus, depois deste comovente preâmbulo, sugeriu, muito sensatamente, que talvez o melhor fosse irem avançando passo a passo, ou seja, fantasia a fantasia, de modo a poderem analisar todos os elementos de cada uma. Ela achou a ideia dele muito boa.
E na primeira fantasia já eles estavam. O marido gostava de imaginar que estava com uma estranha num quarto de hotel, que a amarrava à cama e que fazia amor com ela. Esta já eles tinham começado a concretizar, mas teriam ainda de a completar, pois era dessa que deveriam partir para as restantes idealizações eróticas daquele tão exigente marido. A mala de Kárlus tinha uma variedade larga de apetrechos, mas faltavam umas cordas. Anotou na agenda mental que tinha de corrigir essa falta imperdoável. A mulher disse que previra a possibilidade de tal acontecer, que isto por muito que pensemos nunca pensamos em tudo, e, passando das palavras aos gestos, tirou da sua mala quatro pedaços de corda que colocou sobre a cama, a seu lado.
Despiram-se ambos. Kárlus apreciou-lhe o corpo, cheio de formas rotundas e muito branco, com seios grandes mas rijos, enquanto ela se deitava, com as pernas abertas e os braços erguidos, também abertos. Amarrou-a, as cordas bem esticadas mas os nós não demasiadamente apertados.
— Agora vou ter de chupá-lo.
— Muito bem — disse Kárlus.
E enfiou a picha na boca da mulher, que nesse entretém se manteve por alguns minutos, até dizer:
— Agora vou ter de lhe lamber o cu.
— Muito bem — disse Kárlus.
E a mulher lambeu-lhe o cu, a ponta da língua afiada e sinuosa, até que disse:
— Agora vai ter de me foder, mas sem se vir.
— Muito bem — disse Kárlus.
E fodeu-a, sem se vir. Mas ela veio-se. Logo que acalmou, pediu-lhe que parasse.
— Agora, aqui, ele fica muito excitado, e vai buscar um vibrador, e enfia-mo na cona, e fica a olhar-me enquanto o manuseia em mim, até que eu me venho outra vez. Tem um vibrador consigo?
Isso Kárlus tinha. Mas, quando lho mostrou, perguntou-lhe ela se não possuía outro, maior e mais grosso. Ele, algo espantado, pois que achava os seus vibradores com dimensões muito razoáveis, disse que não.
— Veja então na minha mala — disse ela.
Ele assim fez, e o que achou foi um objecto de dimensões efectivamente mais generosas: uma coisa com pelo menos trinta centímetros de comprimento e com oito de diâmetro.
— Agora vai enfiar-mo — disse ela.
— Tem a certeza de que é isso que quer? — perguntou Kárlus, a pensar em como é que aquilo ia caber dentro dela.
— Absoluta.
Kárlus começou devagar, mas o vibrador, afinal, entrou facilmente. Pô-lo a trabalhar, e continuou. Os trinta centímetros entraram praticamente todos. Espantoso.
— Vá-o fazendo entrar e sair, como se fosse um caralho.
Kárlus assim fez, e nem três minutos depois já ela se estava a vir outra vez. Disse, num tom de menina satisfeita:
— Estou a vir-me.
Demorou um pouco a acalmar, o vibrador ainda dentro dela. Mas satisfeita é que não estava.
— Agora — disse ela, já com a respiração normalizada — , agora é outra fantasia. Vai tirar-me o vibrador e enfiar-me a sua mão.
Kárlus aquiesceu. Já tinha visto coisas assim em filmes. Custara-lhe a acreditar que tal coisa fosse possível, mas depois de ver o modo como ela "engolira" aquele vibrador descomunal, preparou-se para a nova e inédita experiência.
— Na minha mala encontrará uma embalagem de lubrificante. Vai untar-me primeiro com ele, tanto a cona como o cu. Mas primeiro deverá desamarrar-me, que aqui eu preciso de me mexer mais. Como é que estou a sair-me?
— Ah, muito bem — garantiu Kárlus, às voltas com os nós. — Está muito calma, muito concentrada, muito determinada, o que é muito bom. A sua vontade de aprender é grande, e acho que está a passar muito bem por cada fantasia, a apreender-lhe o sentido profundo, a afirmar o seu direito a cada prazer específico.
Ela sorriu, e disse:
— Eu sabia que ia ser assim. Você está a ajudar-me imenso.
— É para isso que aqui estou — disse-lhe Kárlus. — Agora vire-se.
— Espere — disse ela. — Tive uma ideia estranha, não sei se resultará. Ora oiça: vai tornar a atar-me, mas de outra forma: a corda maior, vai passá-la pelo meu pescoço, mas com cuidado, para não me magoar; e com a outra, prende-me uma perna apenas, pelo tornozelo. Mas agora ate-me a meio da cama, e não às pontas. A formar uma linha recta, percebe?
Kárlus, pronto para aceitar que as linhas rectas da actualidade pudessem albergar em si algumas elipses bem pronunciadas, assim fez, e depois começou a besuntá-la com o lubrificante, tal como ela especificara. Tinha o seu rabo grande voltado para ele, a cona escancarada e naturalmente húmida. Cheirava bem.
— Talvez fosse bom se me amordaçasse, mas ainda não. Primeiro, assim como quem não quer a coisa, ao passar os dedos pelo meu cu, faça-os entrar um pouco, primeiro um, depois dois, depois tudo o que puder, o mais fundo que puder.
Um dedo entrou como se o ânus dela fosse uma porta aberta. Dois foi igual, mesmo depois de todos enfiados.
— A sua carne tem muita elasticidade — comentou Kárlus.
— É verdade — disse ela. — E sempre fui assim, desde pequena. Acho que não há muitas mulheres como eu.
— Não há, não — confirmou ele, a pensar naquele "desde pequena". Grande história devia ser a dela.
Kárlus juntou os cinco dedos o melhor que conseguiu, e continuou a penetrá-la no cu. Ainda com surpreendente facilidade, a mão escorregou para dentro dela, até meio do punho.
— Mais um pouco — pediu ela, ofegante.
Kárlus fez força para diante, e o resto do punho entrou também. Tinha agora toda a mão, até ao pulso, dentro do cu da mulher.
— Abra a mão, sinta o meu cu — ofegou ela ainda mais, desvairada.
Era uma pele húmida, macia, a do interior dela. Kárlus quase não conseguia acreditar que aquilo estava mesmo a acontecer. Ainda empurrou um pouco mais, mas quando se apercebeu que, se continuasse, acabaria, provavelmente, por enfiar todo o braço nas entranhas da mulher, deteve-se.
— Agora retire-a, e faça o mesmo na minha cona.
E na cona dela a mão entrou toda de uma vez só, sem hesitações ou pausas.
— Fá-la entrar e sair — disse ela, já a tratá-lo por tu, em completo delírio. — Sim, sim, assim mesmo. Agora enfia-me o vibrador no cu, meu querido. Ah, sim, sente-o com a tua mão dentro da minha cona.
O caralho de Kárlus, todo em pé, observava atentamente a cena, algo envergonhado, digamos assim, com tanta imensidão.
Esta cena de loucura terminou com um excesso absoluto, após um número de complicado contorcionismo que levou a que Kárlus enfiasse a mão juntamente com o caralho na cona da mulher, até que ela se veio, num estertor selvático.
Em seguida, Kárlus teve de amordaçá-la e chicoteá-la com uma das cordas que tinham sobrado, "até ficar cheia de vergões", conforme ela determinou, ainda com o vibrador enfiado no cu.
Kárlus não a poupou: costas, nádegas, pernas, toda a pele dela ficou riscada por grandes traços avermelhados, ao fim de poucos minutos. Tirou-lhe então a mordaça. Tirou-lhe o vibrador do cu. Agora era preciso que lhe apertasse o pescoço, enquanto a fodia, e quando ela, com o sufoco, estivesse a desmaiar, vir-se. Assim foi feito. E Kárlus, ao fim da espiral orgíaca para que se atirara sem olhar, veio-se como nunca. A mulher era doida, mas uma doida que sabia muito bem o que era excitação.
Cansados de tantos excessos, adormeceram os dois, e só reacordaram duas horas mais tarde. Mas aquilo ainda não tinha acabado. Kárlus teve de a passear pelo quarto, de gatas e com uma trela improvisada (de novo uma corda), enquanto a insultava, dar-lhe pontapés ("não tenha medo de me magoar"), pô-la a chupá-lo enquanto a agarrava ferozmente pelos cabelos. E ela dizia, vezes sem conta:
— Amo-te, amo-te, não há ninguém igual a ti.
E ele dava-lhe mais uns quantos pontapés, e ela enroscava-se no chão, a defender-se, e depois corria para ele, beijava-lhe os pés, a picha, as unhas cravadas na carne dele.
Acabaram na banheira, com água quente, ela a abraçá-lo e a agradecer-lhe muito, e, e, e hesitou um bocado antes de lhe dizer que ainda faltava realizar duas fantasias. Duas numa, de facto.
— Quero que me mijes na boca.
Kárlus foi de tal modo apanhado de surpresa que o sexo deu um salto e ficou de novo em pé.
— Assim vai ser difícil — ironizou ele.
— Tente distrair-se — aconselhou ela. — É apenas mijar. Conversemos.
Conversaram. Kárlus estava com a bexiga cheia, e deu, em dado momento, a mijar realmente para a boca da mulher. Não saiu tudo, porque o caralho tornou a crescer. A mulher mijou também, enquanto bebia a urina dele, e a que não bebia a escorrer-lhe pelos seios.
— Agora cague na minha boca — pediu ela por fim, a olhá-lo nos olhos. Kárlus olhou-a também, e os seus olhos diziam que isso não ia ser capaz de fazer. Mas os olhos dela, por sua vez, garantiam-lhe que sim, que era capaz, e que ia fazê-lo.
— Eu lambo-lhe o cu, muito devagar, e você começa a fazer força, também devagar, e caga directamente para a minha boca, um pouco, e depois um pouco mais, e então eu, com a boca cheia de merda, chupo-lhe o caralho, e você caga o resto para cima de mim, e a sua picha na minha boca é como se estivesse enfiada no meu cu sujo, no meu cu maravilhoso onde tudo cabe, e eu esfrego a sua merda em mim e você vem-se na minha boca, e então liga o chuveiro com água quente, a água lava tudo.
E tudo se passou como ela disse. Depois, a água lavou tudo, e minutos depois já o cheiro a merda se tinha dissipado, até que acabou por desaparecer por completo.
Ela sugeriu que ele saísse primeiro do hotel, enquanto se deitava na cama, a esfregar outra vez o lubrificante na cona e no cu. E disse:
— Eu não sou casada. Desculpe.
— Eu sei — disse Kárlus. — Divorciada?
— Viúva.
Quando Kárlus saiu, estava ela de novo com o vibrador gigante enfiado nas tripas, e uma das suas mãos gorduchas meio metida na cona.
— Obrigado — disse ainda, uma última vez, num tom rouco e profundo.

5
A carreira de Kárlus ia de vento em popa quando conheceu uma mulher, ainda por intermédio do seu anúncio, que o deixou completamente confundido. A mulher em questão vivia sozinha, numa casa enorme, e contactara-o porque, segundo ela, "queria conversar com ele acerca de sexo, queria ouvir tudo o que ele sabia; queria aprender, em suma".
"Mais uma que tem medo de dizer o que realmente quer", pensara Kárlus. Já começava a habituar-se. Foi visitá-la.
A mulher veio recebê-lo à porta. Era lindíssima, na casa dos vinte, loira, alta, e usava um vestido muito leve, florido, que lhe descia até aos pés, em várias camadas sobrepostas de tecido. Era cingido ao pescoço, mas permitia ver que a mulher tinha uns bons seios, nem muito grandes nem muito pequenos, mas empinados, o que ainda mais marcava a curva acentuada da sua cintura fina, a descair para umas ancas muito redondas e cheias o bastante para parecerem perfeitas. Kárlus ficou sem fala. Para que precisaria dele uma mulher assim? Com certeza poderia ter todos os homens que quisesse. Decidiu sentar-se, tomar o chá que ela lhe ofereceu, e aguardar, pois alguma explicação razoável devia haver.
Contou-lhe ela então, enquanto bebericavam o chá, que, órfã desde tenra idade, fora criada, naquela casa, por uma tia de severa moralidade, a qual sempre procurara refrear nela todo e qualquer impulso natural do espírito, em nome da salvação do mesmo — a tia chamava-lhe alma, portanto — , salvação essa que apontava, depois, para uma vaga noção de vida eterna que ela nunca chegara a entender.
Lud Mila, era esse o seu nome, vivera sempre, pois, sob a apertada vigilância da tia, sem amigos, sem amores, sem nada saber, realmente, do mundo que existia fora daquelas paredes.
Mas, há dois meses, de repente, a tia morrera, e Lud Mila via-se agora a braços com os tais impulsos naturais do espírito, cada vez mais vivos, mas, em simultâneo, com receio de cometer, por virtude de um qualquer impulso impensado, algum erro irreparável, de tal forma que ainda pouco se arriscara no mundo dos outros. Tudo lhe parecia fascinante, belo, tentador. Comprara imensos livros, jornais e revistas — bem como uma televisão (a tia, cuja noção de gestão dos dinheiros próprios era a forretice, deixara-lhe uma avultada herança) — , lera tudo e via todos os dias todos os programas que lhe pareciam interessantes. Fora assim que dera com o anúncio dele. Ela sabia que ele era só professor de sexo, mas pensara que, a par de explicações sobre essa matéria específica, ele, que era com certeza um homem com grande experiência da vida, lhe poderia dar grandes ensinamentos em muitas outras áreas.
Kárlus, muito consciente de que a mulher (a rapariga, melhor dizendo) era virgem de todo, achou a ideia realmente muito interessante. "Ensinar a vida a uma virgem", pensou ele, "eis o que se pode chamar um autêntico achado". Perguntou-lhe a idade.
— Vinte e dois.
E como eram belos os vinte e dois anos...
— Então, aceita ser meu professor, de sexo e de tudo o mais? O dinheiro não é problema.
— Nesta minha actividade, nunca o foi — afirmou ele. — Eu trabalho apenas por prazer.
Perguntou-lhe em seguida se lera o jornal onde encontrara o seu anúncio.
— Todo, de uma ponta à outra — foi a resposta dela, pronta.
— E então?
— Houve muitas coisas que não entendi, como deve calcular. Mas gostei das imagens.
Ele sugeriu que o tornassem a ver os dois, de modo a que ela lhe pudesse explicar tudo o que não entendera.
Sentaram-se lado a lado, ela a ler em voz alta, a fazer perguntas, e ele a dar respostas. Lud Mila era completamente inocente, e Kárlus viu-se obrigado a abandonar o seu cinismo habitual, e assumiu um tom sério e, de facto, professoral. As perguntas dela não tinham fim, e a tarde passou-se depressa.
Quando se despediram, Kárlus prometeu a si próprio que voltaria a visitá-la daí a uma semana, para prosseguir com as lições. Ainda antes de se ir, recomendou-lhe que comprasse algumas roupas mais arejadas que aquelas que usava, apesar de achar que lhe ficavam muito bem.
A caminho de casa, Kárlus deu por si a cantarolar, ao volante do carro, e teve consciência de que já há muito não se sentia tão bem como naquele momento. Era como se também ele tivesse de novo vinte anos, e estivesse para perder a virgindade, finalmente. E ia perder uma, pois decidira ser o primeiro homem de Lud Mila, aquele que lhe ia mostrar pela primeira vez o que era uma verga grande e grossa.
Nessa semana, visitou ainda uma senhora que desesperadamente lhe pediu para que ele amestrasse o seu cão, de modo a que ele a fodesse ou lambesse sempre que ela assim lho ordenasse, e um casal de lésbicas que só queriam fazer amor com um homem a vê-las.
As coisas com a senhora do cão não começaram muito bem, porque o cão não demonstrou grande simpatia por Kárlus, tendo mesmo chegado a mostrar-lhe os dentes. Mas a senhora lá o conseguiu acalmar, e Kárlus lançou mãos ao trabalho. Primeiro, explicou-lhe que nem as melhores tentativas da sua parte resultariam se a relação entre ela e o cão não fosse suficientemente madura. Aquilo era um assunto delicado e íntimo, e ela teria de conversar muito com o animal, mostrar-lhe como o seu corpo era belo e apetecível. Teriam, em suma, de se amarem.
A mulher começou logo a praticar, conversando com o cão, enquanto lhe acariciava o caralho e o fazia encostar aos seus seios, que, entretanto, pusera para fora da blusa. O cão estava com tesão, o que a Kárlus pareceu um bom sinal.
Kárlus pôs então a passar, após quinze minutos de carinhosa conversa, um filme porno, em que uma outra senhora (lá de um qualquer país distante) demonstrava, em várias posições, como é que se podia efectivar um amor assim, entre uma mulher e um animal. A senhora estava deliciada a assistir, mas o cão parecia algo distraído.
Quando o filme acabou, Kárlus sugeriu que uma demonstração in loco e ao vivo talvez fosse uma ideia melhor. A senhora disponibilizou-se de imediato, e Kárlus esteve um bom bocado a fodê-la por trás, até que decidiu vir-se.
— Deixe-se ficar nessa posição — disse ele, quando se retirou dela. Com o cheiro forte do esperma no ar, o cão, um minuto depois, estava a farejá-la. Depois, a modos que a experimentar, como alguém que tira um pedaço de uma mousse de chocolate com a ponta do dedo, deu-lhe uma lambidela. Depois outra. Depois enfiou-lhe a língua, decididamente. Kárlus, com cuidado, pois não lhe apetecia ser mordido, incitou o animal para que se encavalitasse nela. Enfim, mais uns ajustes e aí estava ela a gemer, o caralho do cão dentro dela.
— Como é que lhe posso agradecer?
Kárlus mostrou-lhe como, enfiando-lhe o caralho na boca.
Com as lésbicas, foi tudo mais rápido. Depois de as ter estado a ver um bocado a beijarem-se e a lamberem-se e a enfiarem uma vibrador uma na outra, Kárlus, incapaz de conter a excitação, algemou e amordaçou uma das mulheres e fodeu a outra. Depois fodeu a que estava algemada à cama. Antes de sair, soltou-a, e enfiou os vibradores nos cus das duas.

6
Chegou o dia de nova visita a Lud Mila, e Kárlus foi pontualíssimo. A mulher que veio abrir a porta era a mesma mas parecia outra, em absoluto: usava agora um vestido ainda florido, mas curto, muito leve e decotado. E cheirava a perfume. Kárlus estava deliciado. Foram para a sala, ela serviu o chá da praxe e conversaram. Lud Mila tinha feito novas leituras, e as temáticas abordadas na conversa foram da política à história mundial, passando pela informática, o aborto e os movimentos ecológicos. Depois, Lud Mila, alegre como uma miúda, mostrou-lhe a sua última aquisição: um leitor de vídeo. Nem de propósito: Kárlus trazia na mala um dos seus inúmeros filmes porno, e propôs que o vissem, pois achava-o muito educativo, apesar da nulidade — e falsidade — do enredo.
Quando Lud Mila viu aparecer o primeiro caralho no écran, abriu os olhos de espanto. Agora o caralho enfiava-se numa cona. Kárlus ia parando o filme aqui e ali, e ia dando as suas doutas explicações. Agora era o caralho que se enfiava no cu da mulher. Os olhos de Lud Mila cresceram ainda mais.
Quando o filme acabou, ela estava muda.
— Então? — perguntou-lhe Kárlus.
— Sinto-me confusa — disse ela. — Estranha. Acho mesmo que perturbada.
— Porquê? — quis saber Kárlus, divertido. Mas ela não respondeu. Antes perguntou:
— Você também tem um... um caralho?
Kárlus não pôde deixar de rir abertamente.
— Claro — disse.
— Porque se ri?
— Porque você é de uma inocência deliciosa.
— E isso é mau?
— Não, é bom. Muito bom.
Inesperadamente, ela pediu-lhe que parassem por ali. Precisava de pensar, e, para isso, queria ficar sozinha. Kárlus não quis contrariá-la. Perguntou:
— Vêmo-nos de novo na próxima semana?
— Sim, claro. Venha cedo.
Outra semana se passou, portanto, e durante a qual Kárlus, também ele perturbado por estranhas sensações, fez uma única visita.
Tratava-se de um casal de masoquistas, homem e mulher, que só estavam a precisar de uma boa sova para terem a sua dose de prazer. Kárlus amarrou-os, chicoteou-os, apertou-lhe os mamilos, fodeu-os, cuspiu-lhes em cima e deu expressão a mais meia dúzia de porcarias que eles lhe pediram — não, não precisavam de professor — , mas não sentiu grande prazer no que estava a fazer. Teve mesmo de admitir perante si próprio que o fizera distraído, quase maquinalmente.
A imagem de Lud Mila começou a surgir-lhe, tanto nos sonhos como quando estava acordado. A princípio, era só de vez em quando, mas depois, a qualquer momento, aí estava ela, na sua cama, na televisão, à janela, nas torradas do pequeno-almoço. Ela era tão diferente, tão encantadora, tão bonita...
Chegou mais um dia, enfim, de visita semanal, e Kárlus voou para junto de Lud Mila. Ela usava nesse dia uma t-shirt sem soutien por baixo e umas calças muito justas. Beijou Kárlus nas faces, quando ele chegou. Tomaram o chá sacramental, e Lud Mila foi directa ao assunto.
— Hoje quero aprender uma coisa muito especial.
— E isso é o quê?
— Faz o que eu lhe pedir?
— Só se forem coisas boas — gracejou ele.
— Creio que são — disse ela. — Mostra-me o seu caralho?
Kárlus não estava à espera de pedido assim, mas fez o que ela lhe pediu.
— Posso tocar-lhe? — perguntou ela.
— À vontade.
Ela agarrou desajeitadamente no caralho de Kárlus e, enquanto ele lhe explicava como é que ela devia fazer, ela exclamou, surpresa:
— Está a crescer!
Era facto. Mas que caralho é que aquela mão não faria crescer? Kárlus decidiu ensiná-la a bater uma punheta. Queria que ela o punheteasse até ele se vir, e disse-lho, e disse-lhe o que ia acontecer.
— É isso o que eu quero — disse ela.
A sua mão começou num vaivém muito suave, e Kárlus, os sentidos todos despertos, entregou-se ao prazer que o estava a invadir, mais espesso que uma praga de gafanhotos.
— Mais depressa agora, mas não apertes tanto.
Ela acelerou a cadência.
— Quando o esperma sair — perguntou — , posso pôr o teu caralho na minha boca?
— Hoje não — disse Kárlus. — Hoje só quero que o vejas a sair.
A mão dela acelerou mais ainda. O esperma jorrou, finalmente, inesperado, e ela deu um gritinho, ao mesmo tempo assustada e maravilhada. Ficaram a mão e a t-shirt molhadas com aquele líquido espesso e quente.
— És maravilhosa — disse Kárlus.
Ela foi mudar de t-shirt, e regressou à sala.
— Agora — disse — , quero aprender a beijar na boca.
— Então senta-te aqui a meu lado.
Foram as duas horas mais deliciosas da vida de Kárlus. A boca dela era um morango fresco, era mousse de chocolate, brandy e mel de uma só vez, o seu hálito uma brisa mágica, a sua língua um sonho feliz.
Kárlus regressou a casa em transe.

7
Eram dez da noite e Kárlus, nessa semana, ainda não respondera a um único anúncio. Estava na sala, às escuras, a ver um filme porno, mas, na verdade, só via Lud Mila. Agora tinha a certeza: apaixonara-se pela rapariga. E, como acontece com todos os apaixonados, logo o insidioso ferrão da dúvida se insinuara no seu espírito: e ela, gostaria dele? Chegaria ela a apaixonar-se também por ele? E que amor poderia vir a ser esse, entre um homem de sessenta anos e uma rapariga de pouco mais de vinte? E quando ela saísse finalmente de dentro daquela casa e descobrisse o mundo? E quando ela perdesse a inocência?
Kárlus era, no entanto, um homem prático, e conseguiu afastar de si, depois de alguma luta, todas essas interrogações venenosas. Aquela era, provavelmente, a sua última possibilidade de ser feliz, e ele não ia desperdiçá-la. Mesmo que tal felicidade viesse a acabar, por alguma razão, ao fim de um ano, ao fim até de meia dúzia de meses.
E decidiu: no seu próximo encontro, fariam amor. E decidiu ainda: até lá, nem uma punheta.
Passou-se assim a semana, mais uma, e o dia dos feitiços chegou. Lud Mila estava mais bonita que nunca, o cabelo solto, com outro vestido, também curto mas menos decotado, com uma gola redonda de onde, à frente, descia uma tentadora fiada de botões. Ela beijou-o na boca, e Kárlus disse-lhe que tinha aprendido bem a lição.
— Tenho um bom professor — afirmou ela. Estava descalça, excitada, saltitante.
Ainda antes do chá, perguntou:
— É hoje que lhe vou chupar o caralho? Diga que sim. Quero saber como é o sabor do esperma.
Kárlus sorriu. A palavra “caralho”, na sua boca, perdia tudo o que de ordinário o vulgo pudesse achar nela.
— Vamos fazer algo ainda melhor — disse ele.
— E o que é?
— Logo verás.
Tomaram chá e conversaram. Kárlus espantou-se com toda a informação que ela conseguira assimilar em tão pouco tempo. Para tal também devia contribuir, por certo, o facto de essa informação lhe ter sido sempre negada. Estava faminta, e não comia, devorava.
Kárlus, subtilmente, levou o tema da conversa para o amor: sabia ela o que isso era, o que se sentia, o que por ele se dizia e fazia?
Não, não sabia. Kárlus, o melhor que pôde e conseguiu, explicou-lhe então o que era o amor, esse reino sempre com novas províncias para conquistar, e ela escutou-o atentamente.
Terminou ele a sua exposição com uma pergunta:
— Já alguma vez sentiste algo assim?
— Já — respondeu ela. E corou.
Kárlus também se sentiu levemente embaraçado. Ter-se-ia ela apaixonado por alguém?
— Quando?
— Posso dizer ao ouvido?
— Podes.
Ela aproximou-se do ouvido dele e sussurrou, com a sua voz deliciosa:
— Quando te conheci.
O coração de Kárlus deu um pulo. Ela amava-o. Amava-o!
Abraçou-a, e beijaram-se, e ele disse:
— Eu senti o mesmo, no mesmo momento.
Olharam-se.
— Amo-te — disse ele.
— Também te amo — disse ela.
Tornaram a beijar-se, e então ele disse-lhe:
— Leva-nos ao teu quarto.
Ela assim fez, com ele a enlaçá-la pela cintura, a beijá-la no pescoço. Deitaram-se sobre a cama e Kárlus desapertou-lhe os botões do vestido um a um, pondo à vista os seios perfeitos de Lud Mila. Beijou-os, lambeu-os, mordiscou-lhe os mamilos. Depois despiu-se, e Lud Mila logo se atirou ao seu caralho. Começou a chupá-lo, com Kárlus a explicar-lhe a melhor maneira de o fazer. Gradualmente, Lud Mila apanhou o jeito, e uns minutos depois já parecia que fazia aquilo há anos. Kárlus agarrou-lhe os seios e puxou-a para si e beijou-a e as suas mãos desceram às nádegas dela, redondas, firmes, convidativas. Era chegado o momento supremo de subirem livremente no ar, como os deuses: um momento total, indescritível, intenso como a superfície em chamas de uma estrela.
— Vou despir-te — disse ele.
— Há uma coisa que te queria contar... — começou ela, inesperada, a voz hesitante, mas Kárlus disse-lhe que deixasse isso para depois.
Estavam agora as suas mãos a subir-lhe pelas pernas sem fim.
— Tens a pele tão macia — disse ele.
Devagar, tirou-lhe as cuecas. Depois, soltou-lhe o vestido dos ombros e começou a tirar-lho, de cima para baixo, muito devagar, de modo a poder admirar-lhe o corpo por inteiro.
Quando o tecido ultrapassou o púbis, o que surgiu perante os olhos de Kárlus foi um caralho. Não muito grande, mas ainda assim, inequivocamente, um caralho. E estava teso. Kárlus estacou.
— Era isso que eu te queria dizer — disse Lud Mila, quase a chorar. — Não percebo o que sou.
Kárlus, um homem prático e apaixonado, após a surpresa inicial, declarou apenas:
— És o meu amor.
A sua cabeça desceu para entre as pernas de Lud Mila e o caralho dela entrou-lhe na boca, todo de uma vez.

A PROTECTORA

1
Vivia sozinha desde a morte do marido, num acidente, já lá iam dois anos. Não era velha — fizera trinta e cinco anos há pouco — , nem tão pouco feia. Achava-se um pouco pesada de mais, talvez — "cheia" era a palavra que sempre usava para designar essa circunstância do seu corpo — , com os seios grandes, e as nádegas salientes, sob uma cintura não tão fina como gostaria, mas, no geral, estava certa de que tinha um corpo agradável. Assim, arranjar novo companheiro não lhe seria difícil (e os homens continuavam, na verdade, a voltar-se para a olhar, quando ela passava por eles), mas ainda não tentara fazê-lo. Amara o marido — talvez ainda o amasse — , e a sua perda fora-lhe muito dolorosa; não se sentia, por isso, preparada para encetar nova relação — nova possibilidade de perda. É certo que se sentia só, condição apenas quebrada pela companhia do seu cão, Bráuni, e de uma ou outra amiga, esporadicamente, e com as quais partilhava mais a memória do passado adolescente vivido em comum que o presente, até porque elas tinham ganho pretensões e atitudes sociais que diferiam largamente das suas.
Um sólido pé-de-meia, acumulado ao longo de quinze anos, permitia-lhe viver bem, sem ter de trabalhar (se bem que não lhe permitisse grandes extravagâncias), necessidade que nem em espírito a incomodava — não gostava de horários, chefes, rotinas ou obrigações, e o marido, um bom deus o guardasse, sempre assumira por ela tais responsabilidades — , e que a deixava com muito tempo livre para pouco que fazer. Claro que numa grande cidade, com algum dinheiro e uma boa dose de imaginação, sempre se consegue alguma coisa que fazer, de qualquer forma, e a qualquer hora. Ora a sua educação era sólida, o que lhe dava alguns bons gostos. Assim, ia assiduamente ao teatro, tinha semanas em que só comia em restaurantes (do mesmo modo que outras em que só comia em casa), às vezes fazia fins-de-semana em terras que não conhecia, lia, pensava, passeava com Bráuni pelos jardins grandes da cidade e pelo campo. Gostava da vida, tinha poucos medos, e a vida ia andando.
Também lhe acontecia ficar tardes inteiras a olhar para a televisão, ou noites sem sono a ouvir música, e depois, quando se deitava, sentia-se tranquila, mas também inquieta, quatro da manhã e ainda com dificuldades para adormecer. O que a perturbava era, sobretudo, as imagens que lhe surgiam, repentinas, suadas, coisas como beijos, o seu sexo a ficar húmido e quente, na perspectiva de um outro sexo a penetrá-la, respirações ofegantes, os seus seios a erguerem-se-lhe firmes como os de uma estátua dedicada a uma qualquer vitória.
Só Bráuni, sentado a seus pés, na cama, já que ela o deixava dormir aí, era testemunha desses momentos, e, algumas vezes, saía de lá e ia visitá-la, com um olhar sempre meigo e a língua pingona, como se dissesse: "O que é que te preocupa? Também me estás a inquietar. Está calma, eu estou aqui".
Ele estava ali, e ela acariciava-lhe a cabeça macia e peluda, devagar. Bráuni respirava, com uma cadência rápida e forte, e era como se as imagens se concentrassem todas naquele arfar simples e animal e nos gestos lentos dela, duas velocidades para um mesmo sentir. Desse modo, acabava ela por adormecer — para reacordar olheirenta no dia seguinte, e, em algumas manhãs, mal-humorada. Mesmo assim, não desarmava. A expressão não estará, talvez, bem empregue, já que a sua atitude não era de teimosia, mas deverá considerar-se correcta, pois que pode ser também usada para designar firmeza. E uma firmeza que se afirma pela necessidade da auto-preservação será sempre de considerar. Todavia, essa situação de nocturnos alvoroços estava a tornar-se cada vez mais assídua, e a alguma solução tinha de chegar, se queria não ficar louca. A voz do corpo era demasiado poderosa, e os medos do espírito quase se diluíam perante esse apelo inequívoco da carne. Mas um novo amor continuava a não lhe parecer a melhor resposta. De facto, a par da saudade do marido morto, crescera nela também um gosto novo, estranho mas saboroso, pela liberdade de que agora dispunha: fazia o que queria, quando e como queria, e a concretização de tal possibilidade ajudara-a em algo que sempre lhe fizera falta: a autoconfiança. A solução intermédia — levar a sua liberdade ao extremo de ter os amantes que lhe apetecesse, mais duradouros ou mais ocasionais, consoante o que cada um lhe sugerisse — também não lhe parecia muito satisfatória, pois podia tornar-se um pau de dois bicos: homens oportunistas, ou chatos, ou cruéis — o risco de se apaixonar de novo, também, enfim, e voltava ao mesmo. Quase tivera um caso com o marido de uma daquelas suas amigas já referidas, numa das poucas festas a que acedera ir, num momento em que se sentira mais desamparada e só. Bebera razoavelmente, e começara a aperceber-se de que as comissuras dos seus lábios se tinham cristalizado numa espécie de sorriso idiota, sem começo nem fim. O homem em questão tinha conseguido vencer o feitiço, em função de uma enxaqueca que lhe reenviara a mulher para casa, e de um sentido de humor algo sofisticado — e um homem com sentido de humor, se não for um perfeito canalha, tem sempre o seu interesse.
Contudo, o dele acabara depressa. Depois de umas quantas gargalhadas, talvez algo estrepitosas de mais, ele convidara-a para sentir o calor da noite no exterior da casa onde se encontravam, com um cigarro e mais uma bebida por companhia. A ausência de olhares comprometedores em redor revelou-lhe um homem bem diferente, que, repentinamente, pareceu querer devorá-la com um beijo vampiresco, e umas mãos semelhantes a tenazes, mas que só logrou entornar-lhe a bebida para cima do vestido e magoá-la. Uma mão em movimento circular, incompleto por ter encontrado o rosto do cavalheiro, e uma fuga mais ou menos discreta, pôs fim àquela semi-aventura.
A partir desse dia, tal tipo de situações, legítimas ou ilegítimas, não mais se tornou a repetir na sua vida. Mas agora, enfim, ela chegara ao ponto em que se impunha, por via de um dilema, nascido no mais fundo de si, uma nova atitude. Uma solução, de vez.
Em dado momento, pareceu-lhe novamente que só a hipótese de se arriscar na senda da maior dor e do maior sofrimento seria legítima, quer ela o quisesse quer não, porque o amor é implacável, sem tempo, idade, cor ou aviso. Até porque o fogo não baixava as suas chamas cegas, e ela acabava por estar a sofrer, fosse como fosse, e nem sequer com proveito. Que fazer, então, que fazer, que fazer, que fazer? Continuar a passar os dias a masturbar-se? As mãos são belas, até nisso, mas a verdade das coisas exige sempre uma justiça própria.
Não havia nada a fazer, de facto, porque podia fazer tudo o que quisesse. Esse é o maior problema da liberdade, para quem não está suficientemente habituado a lidar com ela. E parecia não haver maneira de escapar a tão perverso dilema.

2
Bráuni andava a correr atrás dos pombos, enquanto ela lia. Um vagabundo passou, viciado no estribilho de coleccionador de moedas, para o qual ela contribuiu, quase sem reparar no que fazia. Estava Sol, e havia uma música muito ritmada a tocar ali perto: um grupo de miúdos estendidos na relva, com um gravador grande, a fumar cigarros e a beber cerveja.
Bráuni, de repente, estava sentado a seus pés. Queria ir-se embora, para casa. "Já vamos", disse ela, acariciando-o. Mas, inesperadamente, ela sentiu, sob a sua mão, a cabeça dele a desviar-se bruscamente para a esquerda: um outro bicho da espécie de Bráuni vinha pela vereda abaixo, a farejar tudo o que era recanto. Ela sorriu, quando Bráuni se ergueu e foi ao encontro do outro.
Sempre achara esses momentos em que dois estranhos, animais, livres da animalidade humana, se encontravam, se conheciam e dialogavam, por assim dizer, e por isso ficou atenta à demonstração que se ia desenrolar perante os seus olhos. Depressa se apercebeu de que o outro animal era uma cadela, a qual, algo franzina, estacou, surpreendida na sua busca pelo destino, ao ver Bráuni aproximar-se, com certo galhofeiro abanar de cauda e de orelhas. Apesar desse momento inicial de surpresa, farejaram-se demoradamente, e a rapariga-cão não demonstrou qualquer agressividade: limitou-se a seguir para diante, aparentemente distraída, como turista em avenida à beira-mar, mas sem dúvida atenta aos menores movimentos de Bráuni. Este, não muito dado a tais flirts de rua, soube, no entanto, manter-se à altura, e avançou, qual corcel a galope, ultrapassando a dama, até chegar junto à dona, que olhou por instantes, para logo desviar o olhar para a sua presa, entretanto parada, a cinco metros, provavelmente pouco à espera de tal manobra.
A ponta avermelhada do sexo de Bráuni começava a mostrar-se, e ele avançou. Para a sua dona, aquela visão, embora não sendo inédita, perturbou-a. A cadelita, entretanto, não fez ar menos atónito, embora logo se resignasse, que a vida nas ruas é mesmo assim. Bráuni montou-a, os flancos num vaivém rápido e incisivo.
Minutos depois, tudo consumado, já ele caminhava lado a lado com a sua dona, a língua de fora, preso à trela e a puxá-la. O sol continuava a brilhar, e talvez fosse por isso que ela tinha o rosto vermelho, quase afogueado, e um estranho sorriso nos lábios. Curiosamente, não bebera nada de alcoólico.

3
"Vem cá, Bráuni", disse ela.
Estavam em casa, na sala. Ela despira o casaco, descalçara-se, e estava sentada no sofá. Pusera uma música de fim de tarde a tocar, e bebera dois brandies vagarosos. Pensou que já não tinha desculpa, e isso divertiu-a.
Bráuni aproximou-se. "Anda para o colo", disse ela, com voz terna e a bater na perna, a incitá-lo. Bráuni, sempre disposto a carinhos, depressa lhe obedeceu, semi-sentando-se no seu colo. Ela fechou os olhos e começou a acariciar-lhe o dorso, muito devagar, e depois as patas dianteiras, e depois as traseiras. Bráuni tentou lamber-lhe o rosto, como tantas vezes fazia, e ela riu-se. "Está quieto, doido". Tirou um seio para fora da blusa e para fora do soutien e ficou imóvel, uma mão apoiada sem movimento no pêlo macio. Depois, deixou-a ir deslizando pelo corpo do animal abaixo, até alcançar-lhe o ventre e dar por si a segurar em duas bolas carnudas e rijas. Respirou fundo. Bráuni agitou-se um pouco. A mão dela prosseguiu, até agarrar todo o sexo do animal, oculto sob um tecido vivo curiosamente macio, apesar de todos os pêlos à volta. Inesperadamente, junto ao pulso, qualquer coisa húmida e quente lhe chamou a atenção. Abriu os olhos. Sim, lá estava o bicho avermelhado a espreitar. Bráuni olhava-a, com ar curioso. Tornou a fechar os olhos e desatou a rir às gargalhadas.

4
O cão estava agora sentado a meio da sala, semi-adormecido. Tivera um dia de facto excitante. No entanto, a sua carinhosa dona estava disposta a que tal dia não chegasse rapidamente ao fim. Agora que encontrara a solução pela qual tanto ansiara, tornara-se perfeitamente humana: ia insistir, teimar até atingir o fim que pretendia. Ergueu-se do sofá devagar e foi até ao quarto, onde um espelho grande lhe permitia ver o seu corpo por inteiro. Começou a despir-se e a ver-se, com um vagar que pressupunha uma qualquer testemunha. Mas era ela só, a auto-seduzir-se — a redescobrir-se, afinal, depois de tanto tempo de silêncio, amordaçada na casa do prazer.
Quando se achou totalmente nua, a sua roupa macia e negra espalhada à volta dos pés delicados, quase frágeis, ficou a olhar-se, primeiro como se não se visse, depois de novo com um sorriso nos lábios. Não, não estava embriagada, mas pretendia ficá-lo. Fora atacada por uma loucura inesperada — a qual não era amor, felizmente, notou ela, ainda lúcida — , e sentia que precisava de uma boa dose de coragem para a concretizar. Mas ia fazê-lo. Nada a poderia deter. Tocou-se no sexo e sentiu-se húmida. Estava na hora de regressar à sala.
A música ainda continuava a tocar. Serviu-se de um terceiro e generoso brandy e bebeu-o de um trago só. Por momentos sentiu-se um pouco agoniada, mas conseguiu ultrapassar tal sensação, indo à janela, respirar ar fesco.
Lá em baixo, na rua, os carros e as pessoas tinham um tamanho impossível. O sorriso doido não a abandonou, nem mesmo quando de passagem se reviu, alucinada e nua, frente ao espelho. Estava pronta.
Fechou as cortinas, que mesmo assim deixaram entrar a luz doirada do fim do dia, e foi deitar-se ao lado de Bráuni, cabeça com cabeça, a cheirá-lo, a acariciá-lo no pêlo comprido, macio e brilhante. Bráuni atirou-lhe com a língua comprida e molhada sobre o rosto, e ela, sem hesitar, estendeu-lhe a sua. Era saborosa, a língua do seu cão. Como é que nunca pensara nisso antes? Até porque o seu passado não era propriamente o de uma freira (o marido era um indivíduo com imaginação), e até já tinha ouvido falar de histórias assim. Agora, que se via a ser parte integrante de uma, nenhuma sensação incómoda e moralista a estava a perturbar. E até isso lhe dava prazer.
Bráuni, supondo, por certo, mais um período de brincadeira, que isto de ter dono é sempre um mistério, rebolou um pouco para o lado e ficou de patas para o ar, oscilantes e pendentes, e o sexo exposto, ainda adormecido.
Num ápice, apesar dos gestos inseguros, por causa do álcool já ingerido — nunca fora muito resistente, em tal matéria — , viu-se a virar-se, a aproximar o rosto desse pólo de fogo que a estava a chamar e a cheirá-lo. Cheirava bem. Cheirava a cão: ao seu cão, muito estimado e bem lavado. Estendeu a mão para agarrar o bicho do bicho, e o bicho gemeu baixinho. Começou a acariciá-lo num movimento inequívoco de vaivém, e poucos instantes chegaram para que o bicho saísse da sua toca. Uma vez mais ela esticou a sua língua, e tocou aquele corpo só com a ponta, corpo estranho e pontiagudo, ainda a crescer. Não tinha sabor. De repente, incapaz de se conter mais, abocanhou-o por inteiro e começou a chupá-lo. Bráuni suspirava, enquanto ela levava a mão livre ao seu próprio sexo, cada vez mais inundado. Aquilo na sua boca era uma picha. Aquilo não era um homem, e todavia era uma picha, grande e excitante, toda ela com a macieza de uma glande, um deslizar bom entre os lábios, um grito de selva dentro do peito nu como nunca. Quanto mais chupava mais sentia necessidade de o fazer. E parecia-lhe que Bráuni, com aquele sentido sem número que todos os animais parecem ter para as coisas físicas, não só estava a gostar como também a participar: encostava-se mais, a sua respiração a tornar-se numa espécie de estertor semelhante a êxtase. E de tal modo que, minutos depois, ela sentiu a boca a encher-se de um líquido quente, espesso, de sabor particularmente activo, de tal modo que, por instantes, até talvez por retomar a consciência dos seus fundamentos de mulher normal, lhe custou a engoli-lo. Mas a repugnância, se não for visceral, é apenas como um breve medo com o qual se faz uma breve luta, de antemão perdida. E ela prosseguiu, até tombar para o lado, os lábios brilhantes do esperma de Bráuni, e um calor sem fim entre as pernas.
Deu por uma língua a lamber-lhe o rosto. Abriu os olhos e aceitou-a de novo. Mas não era isso que mais queria, realmente. Ergueu-se um pouco e gatinhou até ao sofá. Sentou-se nele, de pernas abertas, Bráuni a segui-la e ainda a procurar-lhe o rosto com a língua sem fim. Segurou-o com firmeza e puxou-o para baixo. Bráuni, como se amuado, esquivou-se, virou as costas e passeou-se pela sala, o passo incerto, o olhar perdido entre procurar algo e encontrar o olhar dela.
"Anda cá, menino", chamou-o ela, com um sorriso doce e desfocado. Bráuni tornou a aproximar-se, a cabeça baixa, e ela deu-lhe palmadinhas na cabeça e devagar procurou conduzi-lo de novo para onde queria. "Estás a perceber", suspirou ela, quando começou a sentir a língua de Bráuni a recuperar, enfim, de alguma forma, o que ainda agora lhe dera, só pela excitação. E Bráuni continuou e continuou, até já não poder mais, pois o seu poder era uma espécie de ternura só feita de inocência. E ele voltou ao rosto dela, como um amante, o sexo bem teso a roçar-se sem intenção aparente pelo dela. E então ela puxou-o para si e sentiu-se penetrada, e Bráuni, com o seu magnífico instinto bem desperto, começou a balançar-se dentro da sua cona. "A minha cona", quase gritou ela.
Soltou-se, de repente, e deixou-se cair para o chão, apoiada agora nas mãos e nos joelhos.
Sim, Bráuni estava mesmo a perceber, a sentir, pois penetrou-a de novo, ainda mais poderoso.
"Sim, querido", exultou ela. "Sim, fode-me. Ah, ah, estou a vir-me!..."
As patas dele prendiam-se de ambos os lados das suas costas, quase a tocar-lhe nos seios, e ela levou uma mão ao sexo e sentiu, centímetro a centímetro, o que a estava a pôr feliz. "Vá, vá, vem-te!"
A saliva de Bráuni caiu-lhe sobre as costas, e o seu esperma tornou a enchê-la, agora em outra taça. Deixou-se tombar, e ficou imóvel. Bráuni andou à sua volta, e tornou a lambê-la no rosto, a acordá-la, como se receasse que ela estivesse morta, e ainda a lambeu no sexo, por um breve instante, indescritível.
A alcatifa era macia, e de seda o seu prazer proibido. Bráuni, exemplarmente ensinado, correu para o seu caixote, para urinar, enquanto ela pensava que, agora, já podia tornar a aceitar o amor de alguém.

COISAS DOS JORNAIS

1
Juliu comprou por acaso aquele jornal num quiosque à saída do restaurante onde habitualmente almoçava. Bom, por acaso não foi bem: a mulher que surgia na capa, nua, uma mão no sexo e outra a envolver um seio, era de uma beleza estonteante, e ele não lhe conseguira resistir. No interior, nas páginas centrais, mais três fotografias da mulher em questão, em outras posições ainda mais explícitas, faziam plena justiça à forte impressão inicial que ela lhe causara.
Não pretendia ler os artigos — já conhecia aquele tipo de prosa, de ler outros jornais assim, à espera da sua vez no barbeiro —, mas tão só guardar as fotografias, e mandar o resto fora. No entanto, essa tarde no escritório foi de uma pacatez exasperante, e ele, sem nada mais que fazer, acabou por estender as pernas e abrir o jornal, que, dada a lentidão das horas a passar, acabou por ler todo. Claro que era uma daquelas publicações manhosas, todas feitas na pretensa redacção, por um tipo ou dois, com histórias de sexo aparentemente contadas pelos leitores, um correio psicológico-sentimental, um horóscopo das energias libidinosas em evidência na semana, fotografias de origem diversa mas suspeita e, enfim, publicidade a artigos para uso erótico (cremes lubrificantes, vibradores, vaginas artificiais, as melhores revistas e os melhores filmes do género, etc.) e anúncios dos leitores, completamente grátis, a convidarem-se uns aos outros para umas cambalhotas mais ou menos licenciosas ou escabrosas. E foi precisamente aí que uma certa mensagem o surpreendeu. Lia-se a páginas tantas: "Jovem bissexual do sexo masculino procura pessoas de ambos os sexos para amizade. Escreve-me para o Apartado XXX e conta-me o que mais gostarias de fazer. Liberta as tuas fantasias e se possível envia foto. Um abraço e até breve". Ora o Apartado referido na mensagem era, inequivocamente, o de um amigo seu. Estava certo disso porque, por razões de trabalho, já se vira na situação de enviar correspondência para lá.
Jovem bissexual? Aquela deu-lhe uma certa vontade de rir. A identidade secreta do personagem. O Super-Homem é Clark Kent, e Clark Kent é um jovem bissexual, e o jovem bissexual confessa-se num jornal, que só por acaso não se chama Daily Planet.
Já se conheciam há muitos anos. Ele agora era um nome promissor no mundo da publicidade, enquanto o seu amigo se ia preparando para se transformar num (se não no) líder da subcultura da país, se era que tal expressão designava alguma coisa mais que a mera recusa em alinhar com as manifestações e realizações culturais conformes com a mentalidade vigente, moral, normal, cristã, democrática, comercial e superficial.
Seria a sério, aquele anúncio? Ou apenas mais uma "experiência intelectual"? Ou, o mais interessante, ambas as coisas?
Juliu, perante tal dúvida, teve uma ideia, que desde logo o deixou divertido para o resto do dia, tanto mais que, pelo que lhe parecia, tinha a tarde livre para a pôr em prática.
Assim, saiu e foi ao posto dos Correios que ficava perto do escritório. Quando tornou a sair de lá, também ele já tinha um apartado. Agora, era só começar a tratar da correspondência. De facto, a sua ideia era responder ao anúncio do amigo, simulando ser outra pessoa. A primeira carta iria sem fotografia. Depois, com o auxílio do atelier da empresa, iria forjar umas quantas imagens sugestivas, de modo a que o apetite do outro fosse sempre crescendo. Quem iria ser? Homem ou mulher? Gostaria de experimentar ambas as hipóteses, pois só assim a coisa se tornaria realmente divertida. Mas, para a poder concretizar, precisaria de outro apartado. Decidiu tratar disso no dia seguinte, em outra estação de correios. Para já, entretanto, seria uma mulher, e chamar-se-ia Lygya: Lygya Râmus. E Lygya ia ter vinte e três anos, ser loira, top model e bissexual. Que altura teria o amigo? À volta de um metro e setenta. Um centímetro ou dois mais, talvez. Lygya ia ser, então, um mulherão de estalo, com um metro e setenta e oito e cento e três centímetros de peito, olé. Juliu estava a começar a sentir-se excitado ele próprio, com medidas tão generosas. Lygya estava quase a tornar-se visível, na sua mente imaginativa, e era mesmo agradável de se ver. Faltava agora pôr-lhe alguma coisa dentro da cabeça, e depois escrever a primeira carta. Qual era o seu sonho? Ter uma grande loja de roupa, criar modelos seus, organizar passagens com eles, ir muitas vezes ao estrangeiro e passar férias numa qualquer ilha tropical. Haveria sempre muitas raparigas bonitas à sua volta — modelos, claro — e todos os meses daria uma grande festa em sua casa. Para além disso, gostava de ler (aqui, nada de autores da moda — e isso seria um isco armadilhado para o amigo —, que bom, até iam ter gostos comuns em literatura, que aquilo não podia ser só ele gostar de mamas e ela tê-las), de cinema e de teatro experimental. Juliu gostou muito desta: teatro experimental era mais que um engodo; era uma armadilha inteira. Quanto a fantasias, assombravam-na algumas: gostaria, por exemplo, de ser filmada a masturbar-se, e depois a fazer amor. E que mais? Não poderia parecer muito puta. Bom, a fantasia mais secreta de todas era a de, alguma vez, vir a fazer amor com dois homens ao mesmo tempo. Fã incondicional do sexo anal e oral, acreditava que tal experiência iria ser algo de absolutamente delirante, se é que não lhe ia mesmo mudar a vida por completo.
Juliu lembrou-se de que o amigo — de quem era praticamente vizinho: viviam a meia dúzia de quarteirões de distância um do outro, e cruzavam-se muitas vezes na rua — andava agora muito acompanhado por um tipo qualquer que estava sempre lá em casa (e que não tinha nada ar de santinho), a ponto de tal amizade ter tomado já um contorno algo suspeito. Se calhar aquela coisa da bissexualidade era mesmo a sério. Enfim — um pouco de ingenuidade e inocência para dar o tempero final —, só perdera a virgindade aos vinte e um, com um namorado com que se relacionara apenas durante três meses, e depois nunca mais tivera nada com homem nenhum, nem sequer uma daquelas aventuras ocasionais e atribuladas que o público em geral supõe ser o pão nosso de cada dia de uma modelo.
Em meia hora, a carta ficou pronta, com a letra muito certinha do computador, e uma assinatura manual cheia de curvas, quase ilegível. Lygya Râmus acabara de nascer, e já era uma mulher. Juliu fechou o envelope, muito orgulhoso do seu trabalho.

2
No dia seguinte, enviou a carta, tratou de obter o segundo apartado e, inspirado, escreveu a segunda carta de Lygya, dizendo-se muito excitada com tudo aquilo, e que por isso, antes mesmo de receber resposta, decidira escrever novamente, para lhe enviar uma fotografia sua, a qual Juliu, com a cumplicidade de um colega e graças às maravilhas da técnica, forjou a partir de uma daquelas revistas só para homens que as mulheres também espreitam (do mesmo modo que os homens fazem com as que são só para mulheres), com raparigas muito nuas e artigos muito pertinentes acerca das mulheres que os homens preferem, dos dez processos seguros para evitar as doenças venéreas e da forma como um homem se pode tornar um sedutor irresistível, seja no Verão seja no Inverno. Numa fotomontagem sem mácula, vestiram portanto uma mulher nua, com uns trapos simpaticamente decotados e bem ajustados às curvas fórmula um do corpo do protótipo, e Lygya Râmus ficou pronta para prosseguir a sua pérfida missão. Mais tarde, tornariam a despi-la outra vez, para a cena final.
Prontas estas delicadas tarefas, dedicou-se Juliu à construção do seu segundo personagem. Este chamava-se Pêdru Hayres, tinha um metro e setenta, era moreno, musculado e com um caralho que, quando em erecção, atingia a marca solidamente afirmada dos vinte centímetros. Tinha vinte e sete anos e era professor de equitação. Nunca tinha tido relações com outro homem, mas sentia uma grande curiosidade em relação ao assunto. (Juliu quase conseguia ver o amigo a ler a carta e a dizer logo para os seus botões, muito decidido: "Ah, não tens experiência? Então despe lá as calças que eu já ta dou". A ideia repugnou-o um pouco, mas farsa é farsa, e não era um prurido da sua imaginação que o ia impedir de prosseguir). Pêdru ganhava bem, tinha um carro desportivo e uma casa na praia — voluntariamente se esqueceu de referir em qual — , e os seus maiores interesses, depois dos cavalos, eram as mulheres bonitas (conhecia imensas), a música (tocava piano) e a pintura (também pintava, mas, nessa área, não se achava grande coisa).
Juliu decidiu seguir com este personagem o mesmo processo que seguira com a vaporosa Lygya, mas, desta feita, iria esperar pela resposta. Para a fotografia, faria logo um nu (de si mesmo), da cintura para baixo e caralho para cima. Tinha um pequeno estúdio de revelação de preto e branco em casa, e por isso ser-lhe-ia fácil fazer essa fotografia. Depois, de novo com o auxílio do colega de trabalho, fariam outra, a partir de uma revista pornográfica, em que se veria um tipo (teria que ter um corpo semelhante ao seu, claro) a foder com uma mulher, de preferência com um corpo bem desenhado, para o outro ver que aquela história de conhecer imensas mulheres bonitas não era letra morta. No reino ficcional da missivas em curso, diria o personagem de papel que, se se chegassem a encontrar, ele, o grande professor de equitação, não se iria importar de lhe apresentar algumas. Mas isso ficava guardado para a carta seguinte, e por isso Juliu fechou aquela, juntou-a à segunda de Lygya e deu por concluída a primeira fase do seu plano. Agora, era só enviá-las e aguardar as respostas. A curiosidade de as conhecer já estava a matá-lo.

3
Morreu ainda mais, um pouco todos os dias, durante uma semana e meia, até que a primeira carta do amigo chegou. Lygya era a sortuda.
Juliu leu a carta logo ali nos Correios, tão grande era a sua expectativa. O amigo começava por agradecer a resposta dada ao seu anúncio. Depois, e embora nunca a tivesse visto, a não ser em fotografia, passava logo ao elogio da sua beleza (cento e três centímetros são cento e três centímetros). Quanto a gostos, estavam conversados: eram como almas gémeas. Sim, ele queria conhecê-la, queria ser ele a satisfazer-lhe as fantasias, queria, queria, queria tudo. E, como prova da sua boa fé, enviava-lhe o seu número de telefone, a par de um convite para irem juntos verem uma peça de teatro que estreara há pouco tempo, e que toda a crítica elegera unanimemente como a melhor produção a que tinha assistido desde há alguns anos.
Juliu decidiu entrar no jogo tal como lhe era sugerido na carta. Num almoço mais bem regado que o habitual, contou a história toda a uma colega, que, divertida com todo aquele enredo, concordou em fazer um telefonema como Lygya, a pedir desculpa por não poder ir com o amigo de Juliu ao tal espectáculo, mas o caso é que andava com imenso trabalho. Além disso, ela devia, nunca deixando de ser amorosa e sedutora, frisar que, não obstante estar muito interessada em levar avante um relacionamento entre os dois, preferia, dada uma má experiência tida no passado (aquele namorado de que já lhe falara, que a sodomizava a seco — aquela linguagem de lavandaria a fazê-los rir a bandeiras despregadas — e que a traíra com outras mulheres), manter ainda por algum tempo os seus contactos através de carta e, eventualmente, por telefone (mas seria ela a telefonar), para primeiro se conhecerem melhor, antes de avançarem para algo mais sério. Mais: ela gostaria que ele também lhe mandasse uma fotografia. Duas, de facto: a segunda — e aqui ela deveria hesitar, por pudor — nu.
A colega de Juliu esteve um bocado a decorar o seu papel, e depois fez o telefonema. O telefone que estavam a utilizar permitia que as conversas se ouvissem para fora do auscultador, e foi assim que eles fizeram (depois de fecharem a porta do gabinete), de modo a que Juliu também pudesse escutar o desenvolvimento da novela.
O amigo de Juliu atendeu, e Lygya começou a debitar o combinado. Estava todo a desfazer-se em baba, o palerma do outro lado. Insistiu para que se encontrassem, fosse como fosse, mas a colega de Juliu foi inflexível. Inflexível e cruel: depois de lhe ter pedido as fotografias — a hesitação pudorenta saiu na perfeição — , perguntou, em tom malicioso:
— Sabes o que estou a fazer?
— Não.
— Estou a... a tocar na minha coisa.
Ela tinha lido as cartas de Lydya, de que Juliu fizera cópias, e estava a par das fantasias do personagem.
— Estou a usar um vibrador — suspirou ela. — Sinto-me tão quente.
— Se estivesses comigo ainda te irias sentir mais quente — disse a voz do outro lado, a ficar em tons de sussurro ao ouvido.
— Tornaremos a falar disso. Um beijo. Agora tenho de ir.
E desligou.
Juliu estava espantado com a colega, a qual, a propósito, se chamava Suraya.
— És uma actriz nata — declarou ele, convicto.
— Oh, isto não foi nada. Puro divertimento. Vamos continuar, claro?
— Claro.
E Juliu, a imaginar que a via a tocar-se na coisa, decidiu convidá-la para jantar.
— Para comemorar — disse.
Ela aceitou. Depois do jantar, foram para casa dele, e acabaram por dormir (dormir é eufemismo, claro) juntos.
No dia seguinte, foi a vez do fictício Pêdru receber resposta. Dizia o amigo de Juliu que também gostava muito de cavalos, de mulheres e de música (até tinha tocado bateria num grupo de rock, quando tinha dezasseis anos). Mas na pintura é que eles, com certeza, se iriam entender. E aí fazia ele desfilar uma lista dos seus pintores preferidos. Dizia mais, até: que já fizera uma série de exposições, e que tinha quadros para vender.
Juliu reconheceu claramente o amigo: era típico dele aquele género de esquemas, sempre à procura do lucro, sempre com grandes ideias, e sempre a não conseguir levá-las para diante, porque havia sempre alguma coisa que falhava.
Prosseguiu. Vinha agora o convite para se encontrarem, depois de referenciar que o seu pénis não era assim tão avantajado, mas que as mulheres o costumavam achar muito viril. "Responde e um abraço", terminava ele, muito fraternal. E, neste caso, não enviava o número de telefone. Claro, o que eram vinte centímetros contra cento e três?
Quando entrou no escritório, Suraya veio logo ter com ele, saber de novidades, enquanto, subrepticiamente, lhe apalpava o caralho.
Ele deu-lhe a carta a ler, mas ela disse que primeiro queria chupá-lo. Juliu estava mesmo admirado com o modo como ela se transformara. Até parecia que só tinha estado à espera de um pretexto para se revelar perante ele, e que ele, ingenuamente, lho dera de bandeja.
Tornaram a dormir juntos, mas antes tiraram a fotografia do caralho dele em pé, para o que ela muito contribuiu, nua e de pernas abertas à sua frente, a acariciar-se. Suraya era mesmo uma esfomeada, de tal modo que nessa noite só adormeceram às três da manhã, ao ritmo de uma foda por hora, com começo anotado (uma olhadela lateral e sem razão de Juliu ao relógio sobre a mesa-de-cabeceira) por voltas das dez.